Americano ensina cegos e não cegos a 'ver' objetos com sons feitos pela boca

Técnica aparentemente simples permite detectar imagens através de ecos, diz o californiano Brian Bushway

Fernanda Ezabella
Austin (Texas)

Num domingo frio de céu azul em Austin, um grupo de 20 pessoas saiu pelas ruas da capital do Texas com os olhos vendados e com uma bengala de bambu em mãos. Elas eram lideradas pelo educador Brian Bushway, um californiano bonachão de 36 anos e o único cego na turma.

Voluntários sem vendas ajudavam Bushway a controlar o grupo, evitando que alguém fosse parar no meio do trânsito. Mas era ele quem organizava a bagunça e parava em lugares estratégicos, como se fosse um passeio turístico.

“Se vocês baterem palma ou estalarem a língua no céu da boca aqui, o que acham que há na frente de vocês?”, ele perguntou, após enfileirar todos na calçada, de frente para um arranha-céu do outro lado da rua. Um quarteirão e uma escadaria depois, fez o mesmo num ambiente fechado de vidro.

Bushway queria mostrar as maravilhas da “ecolocalização”, uma técnica aparentemente simples (estalando a língua no céu da boca, estalando os dedos ou batendo palmas) que permite detectar imagens através de ecos, uma habilidade conhecida entre golfinhos e morcegos.

Foi desenvolvendo essa técnica que Bushway virou o melhor ciclista de montanha cego do mundo, título dado por uma revista especializada no esporte, embora ele seja rápido em lembrar que a concorrência é bem pequena. Ele também anda de skate e de patins, de preferência em locais que conhece, com outras pessoas e com sua bengala longa.

Em trilhas, consegue diferenciar um arbusto de uma árvore. E numa exposição de arte, entende tamanhos de esculturas e até a diferença de suas superfícies.

“Todo ser humano tem capacidade de ver acusticamente, mas os cegos não são encorajados a usar isso, não faz parte do treinamento”, disse o californiano, que ficou cego aos 14 anos e foi um dos primeiros estudantes de Daniel Kish, fundador da ONG World Access for the Blind, que desde 2000 divulga a técnica pelo mundo para “liberar os cegos da tradicional dependência e isolamento”.

Nos últimos 20 anos, diversos estudos neurológicos demonstraram a capacidade do cérebro humano de decifrar sons em imagens. “Antes dos estudos, diziam que algumas pessoas eram exceção à regra, eram melhores que outras [com a técnica], que não era para todo mundo. Hoje sabemos que é de fato uma percepção natural do ser humano”, disse. “Acredito que temos mais sentidos do que os cinco sentidos.” 

No grupo de não cegos a vagar por Austin, os estalos criavam uma estranha sinfonia, em conjunto com as varas de bambu que batiam nos pés alheios sem a menor cerimônia. Para a canadense Tamara Banbury, 45, a experiência trouxe um profundo respeito pelos deficientes visuais que criam novas maneiras de sentir seus ambientes, além de uma nova apreciação de seus outros sentidos.

“Fiquei chocada de como o trânsito é barulhento quando estava de olhos vendados e depois, quando tirei a venda, o barulho meio que sumiu”, disse. “Não acreditei que com tão pouco treinamento eu pude ouvir os ecos e ouvir as diferenças entre os prédios. Foi fascinante.”

Bushway explica que o barulho do estalo (seja língua ou dedos) não importa tanto quanto o eco que produz. “A informação de verdade está lá fora, seu foco tem que estar no ambiente. Com o tempo, seu cérebro começa a entender e você desenvolve um vocabulário acústico”, explicou.

Bushway era um garoto bastante ativo quando perdeu a visão após sofrer atrofia do nervo óptico. Antes de subir numa bicicleta novamente, dois ou três anos depois, ele conta que o maior desafio não foi apenas acessar o mundo físico, mas também o mundo social.

“Assim que você pega na bengala tudo muda. As pessoas te prendem na caixa das baixas expectativas. Ninguém espera mais nada de você, e isso vira a desculpa perfeita para não fazer mais nada”, disse. “Claro que não aprendi isso tudo do dia para a noite. Fui melhorando um por cento por dia. Acordava e tentava. Em dois anos, você acumula muito.” 

Bushway e Banbury estavam em Austin para o Body Hacking Con, um evento sobre novas tecnologias para aumentar o potencial humano. Bushway contou que é muito procurado para dar consultorias e testar novos aparelhos para cegos, mas ainda não encontrou nada melhor “que meu cérebro e minha bengala longa para viajar pelas florestas de Belize ou pelos templos budistas da Tailândia”.

“O futuro é promissor. Mas as tecnologias de hoje costumam fazer bem uma coisa só, numa situação em particular, e a vida é muito mais fluida e dinâmica”, disse. “Além disso, é preciso aprender e decodificar essas ferramentas novas, enquanto a ecolocalização é uma conexão humana natural.” 

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