Iogurtes com muita proteína invadem mercados e viram nova obsessão alimentar

'Proteína-mania' copia onda americana, mas especialista vê risco no medo de comer carboidrato

Mariana Versolato
São Paulo

Basta passar os olhos pela seção de iogurtes para perceber que a loja de suplementos, antes reservada aos ratos de academia, invadiu o supermercado. 

Ao lado dos potes tradicionais de sabor morango, dos gregos e dos produtos que prometem fazer o intestino funcionar melhor, aparecem cada vez mais as palavras “whey”, “músculos” e “pro”, de proteína, em embalagens que estampam um algarismo grande —às vezes maior do que a própria descrição do produto— indicando quanto do valioso nutriente existe ali.

A competição é por quem oferece mais proteína pelo menor valor e melhor sabor. 

Além de morango, baunilha e banana, a gama inclui café, doce de leite, cookies, pasta de amendoim, açaí e mirtilo, entre muitos outros, em versões com 13 g, 14 g, 15 g, 18 g, 21 g, 23 g, 25 g ou 28 g de proteína. O valor unitário varia entre R$ 6 e R$ 11, em média. 

 

Marcas bastante conhecidas do público, como Vigor, Danone e Itambé, entraram na seara dos proteicos. A Piracanjuba também tem a sua bebida láctea com whey protein. A Verde Campo, velha conhecida dos marombeiros, convive com as mais novas Blissimo e Yorgus.

Essa onda começou nos EUA e na Europa (como ocorre com frequência no mercado fitness), onde a variedade de produtos que usam o alto teor de proteína como chamariz é ainda maior e inclui macarrão, pães, biscoitos e até café.

“Mapeamos a tendência nos Estados Unidos e vimos um boom de produtos com alto teor de proteína por lá. Os lançamentos passaram de 3% do mercado em 2006 para 20% em 2016”, diz Anne Napoli, diretora de marketing da Vigor, citando a pesquisa Mintel GNPD Global New Products Database de 2017. “Aqui no Brasil ainda estamos começando, mas acreditamos que será uma tendência também.”

Segundo Napoli, o consumidor escolhe esses produtos na busca por maior saciedade, praticidade, auxílio na perda de peso e substitutos de fontes de proteínas, “já que muitas pessoas tiraram a carne da alimentação”.

A Verde Campo, que afirma ter inaugurado esse mercado no país, lançou dois iogurtes com whey em 2016 na feira esportiva Arnold Sports Festival. Hoje, a linha tem 12 itens.

“Queríamos que os ‘fitness’ fossem nossos evangelizadores. Desde o começo a gente já buscava ‘pessoas normais’, um público mais amplo que quer ter uma dieta mais saudável, independentemente de ir à academia ou não”, diz Arlindo Curzi, diretor de inovação da marca.

Mas quando é que a quantidade de proteína começou a ter essa importância na dieta das pessoas para merecer tanto destaque nas embalagens e uma gama tão grande de produtos, sabores e texturas?

Quanto tem de proteína nos alimentos?

  1. 100 g de ovo

    13 g

  2. 1 xícara de leite

    3,5 g

  3. Carne vermelha (100 g)

    26 g

  4. Frango (100 g)

    32 g

  5. Salmão grelhado (100 g)

    24 g

  6. Brócolis (100 g)

    4 g

  7. Queijo fresco (100 g)

    20 g

  8. Cogumelos (100 g)

    3 g

  9. Feijão (100 g)

    6 g

Para Francisco Tostes, especialista em emagrecimento, atividade física e medicina do esporte e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a busca por proteína é uma espécie de compensação pelos excessos do passado que levaram a um aumento nos índices de obesidade.

“Na última década a comunidade científica sinalizou que a população em geral estava comendo muito carboidrato e pouca proteína. Afinal, o carboidrato é mais barato, é mais abundante em qualquer prateleira de supermercado, está muito presente nos itens industrializados congelados.”

Além disso, ele afirma que existe uma ideia generalizada de que a dieta low-carb (com poucos carboidratos) é sempre a melhor.

“Assim como um único remédio não vai tratar a pressão alta de todo mundo, uma única conduta alimentar não vai servir pra todos. É preciso verificar as características metabólicas de cada um, a idade, se a pessoa pratica atividade física etc.”, diz ele.

“Se a pessoa está acima do peso e come muitos carboidratos refinados, como farinha e pães brancos, de fato pode ser o caso de indicar esse ajuste, mas muitas vezes esse tipo de dieta é indicada sem necessidade para quem se alimenta de forma saudável.” 

No fim, o carboidrato passou de rei a réu. E a indústria respondeu a essa demanda.

“Temos saído do mercado do fortão, e hoje a minha mãe, a executiva, a jornalista, a secretária consomem mais produtos com whey. Não é uma ação orquestrada por nós; é um sinal que  o próprio consumidor está emitindo”, afirma Synésio Batista da Costa, presidente da Brasnutri (Associação Brasileira dos Fabricantes de Suplementos Nutricionais e Alimentos para Fins Especiais).

Mas se havia exagero na sua ingestão do carboidrato, o mesmo pode acontecer com a proteína, como Tostes já observa na prática em seu consultório.

“É válida a preocupação de avaliar se você está consumindo pouca proteína, se você  tem uma boa quantidade de músculos. No entanto, é preciso ficar atento ao excesso. Hoje eu já tenho que desconstruir o conceito do carboidrato como vilão para quem só pensa em proteína, proteína, proteína e sente cansaço como um efeito colateral.”

O exagero pode criar padrões tão rígidos que faz com que as pessoas tenham medo de comer. “Mas comida é vida, e se você está com medo de comer algo tão básico que vai te fornecer energia é porque há algo errado”, afirma.

 O problema remonta ao fenômeno que o jornalista americano Michael Pollan chamou de nutricionismo há dez anos, ou seja, a tendência de pensar nos alimentos em termos de nutrientes e não em ingredientes, prazer e sociabilidade. Uma espécie de alimentação utilitarista. 

Mas, ainda que um profissional indique uma dieta com alto teor de proteínas —importante especialmente para idosos, já que perdemos músculos com o passar dos anos —, é importante que ela inclua alimentos de verdade, como carnes, ovos e leguminosas, carboidratos, gordura e muitos micronutrientes. Viver à base de suplementos de whey, shakes e barrinhas é viver à base de uma dieta de astronauta, afirma Tostes. 

“Claro que há momentos para a praticidade do iogurte, mas não dá para fazer essa troca o tempo todo. Perdemos na variedade, na densidade nutricional e na falta da mastigação, que ajuda a sinalizar a saciedade.”

Anne Napoli, da Vigor, diz que a empresa acredita na alimentação balanceada e que não se pode consumir uma coisa só. “O iogurte nunca vai substituir a alimentação saudável e outras fontes de proteína. Trazemos um produto equilibrado como fonte proteica para quem esta na correria, mas ele é apenas um complemento saudável.”


Boom de produtos com alto teor de proteína

Os macronutrientes
São os nutrientes que fornecem energia e matéria-prima para o organismo funcionar

Carboidratos
Fontes: Frutas, hortaliças, verduras, leguminosas, cereais
São fonte de energia —seu consumo, portanto, é crucial para as atividades diárias. Poupam a utilização de proteínas como suprimento de energia e ajudam a prevenir fadiga muscular e a manter os níveis de glicose e as reservas de glicogênio 

Lipídios
Fontes: Azeite, óleos, peixes, leite e derivados, castanhas, carne de boi, porco e frango
As gorduras também funcionam como uma reserva de energia e servem como veículo para micronutrientes como vitaminas e minerais. Ajudam a formar as membranas celulares e atuam no controle hormonal

Proteínas
Fontes: Carnes, ovos, leite e derivados, soja, cogumelos, alguns cereais e leguminosas 
São essenciais para recuperação, reparação e construção de tecidos e de novas células. Formam pele, cabelo, ossos, unhas, músculos, tendões, cartilagens. Também ajudam a manter as funções normais do sistema imunológico

Ingestão ideal de proteína
A indicação precisa ser individualizada e feita por nutricionista porque depende de idade (a quantidade de músculos diminui conforme os anos avançam) e da prática de exercícios. De forma geral, o mínimo indicado é de 0,8 g por kg ao dia —para uma pessoa de 70 kg, seriam 56 g de proteína. Já um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine afirma que o ideal é ingerir, diariamente, 1,6 g de proteína por kg —ou seja, 112 g se você pesa 70 kg

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior da tabela com valores de proteínas informava incorretamente que um ovo tem 13 gramas de proteína. O correto são 100 gramas de ovo. O texto já foi corrigido. 

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