Médico hemofílico comanda ambulatório para pacientes com a doença

Nesta quarta (17), celebra-se o Dia Internacional da Hemofilia, doença que não tem cura mas que pode ser controlada

São Paulo

A escolha de uma profissão para Rodrigo Yamamoto, 41, hoje já pós-graduado, tinha um princípio básico: ele queria ter uma certa independência, já que sempre correria o risco de ficar longos períodos longe do trabalho por causa dos constantes sangramentos ocasionados pela hemofilia. Na época, pensava em ser dono do próprio negócio.

No fim, Rodrigou se tornou médico fisiatra. Acabou se convencendo de que assim poderia ajudar mais as pessoas e passou em sua primeira prova de vestibular. Hoje trabalha numa grande rede pública de reabilitação, a Lucy Montoro, em São Paulo, e atua na recuperação física de hemofílicos que passam por situações semelhantes às que enfrentou ao longo da vida.

Médico apoiado em macas em ambulatório
O médico Rodrigo Yamamoto, 41, que é hemofílico e comanda o ambulatório da rede Lucy Montoro, unidade Lapa, que visa atender hemofílicos que precisam de fortalecimento muscular e nas articulações - Bruno Santos/Folhapress

A hemofilia é uma alteração genética e hereditária no sangue, caracterizada por um defeito na coagulação. Normalmente, diversos fatores de coagulação no plasma, numerados em algarismos romanos (I a XIII), trabalham para formar um coágulo e estancar o sangramento. Quem tem hemofilia não possui um dos fatores em quantidade ou qualidade suficiente. 

Nesta quarta (17), celebra-se o Dia Internacional da Hemofilia. O Brasil, segundo relatório da Federação Mundial de Hemofilia de 2017, tem 12.432 hemofílicos, que além de cuidados profiláticos, como a aplicação do fator de coagulação, necessitam de bom condicionamento físico, fundamental para prevenir sangramentos graves.

E foi durante o período de faculdade que Rodrigo enfrentou sua crise mais grave.

"Estava no terceiro ano e fiquei seis meses sem poder andar, usando cadeira de rodas por três meses e muletas por outros três. Tive um sangramento espontâneo grave em um músculo da região do quadril. O músculo inchou tanto que comprimiu nervos. Fiquei totalmente sem forças", conta.

Desde 2012, o Ministério da Saúde passou a oferecer kits de profilaxia aos hemofílicos graves cadastrados no SUS. 

Com isso, as pessoas passaram a injetar semanalmente doses do fator de coagulação necessário, o que reduz muito o risco de sangramentos.

O grau da hemofilia de Rodrigo é grave, o que o levou a ter um episódio de sangramento por mês, sobretudo nos tornozelos, nos períodos mais conturbados. 

"Quando eu era menino, o tratamento era outro. Não havia a medicação em casa. Tive de me privar de muita coisa. Não jogava bola, não fazia planos de longo prazo porque não tinha certeza se estaria bem para fazer uma viagem. Hoje [com a profilaxia], a vida melhorou bastante. Em seis anos, não tive nenhuma intercorrência séria."

Segundo o médico, as articulações são mais suscetíveis aos sangramentos porque são áreas mais instáveis e estão mais expostas a traumas. Após uma primeira ocorrência na região, a chance de novos traumas aumenta, já que a área pode ficar fragilizada.

Por isso, a reabilitação e o condicionamento físico para hemofílicos são considerados essenciais, especialmente para fortalecer os músculos ao redor das articulações.

Antes da fisiatria, Rodrigo fez residência em clinica médica. Depois, tentou concluir a residência em cardiologia, mas não conseguiu porque teve uma crise de sangramento com um longo período de afastamento. Foi aí que resolver seguir a fisiatria.

No entanto, tratar pessoas que também tinham hemofilia não foi uma escolha óbvia nem fácil. "Na faculdade não me sentia muito confortável em atender hemofílicos. Enxergava o meu sofrimento nos pacientes e era difícil." 

Mas, quando propuseram que ele seguisse carreira em áreas longe do contato com os pacientes, reagiu. "Não estudei por tantos anos para não atender diretamente as pessoas que precisam."

Segundo o médico, trabalhar com reabilitação e ver a melhora diária de seus pacientes é gratificante. "Eles próprios me falam: 'O senhor entende o que eu estou falando sobre essa dor, não é'? E tenho mesmo uma compreensão melhor do que passam. Confiam muito em mim. Essa identidade é bem positiva."

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