Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

Alunos ajudam colegas a lidarem com saúde mental nas escolas

Protagonismo dos jovens auxilia na discussão de problemas como depressão e ansiedade

Amanda Lüder
São Paulo

“A gente via professores e psicólogos falando com jovens sobre saúde mental, depressão e ansiedade, mas não nos atingia. Às vezes, era um gatilho para algumas pessoas, que ficavam incomodadas e choravam com essas palestras”, conta Catharina de Morais, 17, aluna do Dante Alighieri, na capital paulista. “Então começamos a pensar: qual é a maneira de falar com a gente mesmo, o público jovem, de uma maneira menos agressiva?”

Catharina de Morais 17, Maria Clara Nascentes, 17, e Alessandra Maranca, 17, estudantes da escola Dante Alighieri, apoiadas nos armários da escola com mochilas nas costas.
Catharina de Morais 17, Maria Clara Nascentes, 17, e Alessandra Maranca, 17, estudantes da escola Dante Alighieri - Gabriel Cabral/Folhapress

Rodas de conversa, equipes de ajuda e caixas de relatos são algumas das formas que os adolescentes encontraram para promover o diálogo sobre saúde mental nas escolas. Em instituições públicas e privadas de diferentes lugares do país, os jovens se tornaram protagonistas na discussão sobre transtornos como ansiedade e depressão.

No caso de Catharina, um projeto de iniciação científica foi a maneira de ajudar. Orientada pelo professor de filosofia e sociologia Ian Bastos, ela estudou a formação da identidade do adolescente ao lado das colegas Alessandra Maranca e Maria Clara Nascentes, também de 17.

Após três anos de estudos, que iniciaram ainda durante o ensino fundamental, elas propuseram uma intervenção no ensino médio. Durante algumas semanas, os alunos discutiram temas relacionados à pesquisa que elas tinham feito. “A partir do momento que você discute coisas que o adolescente tem que viver todo dia —notas, corpo, consumo—, falar sobre saúde mental se torna tangível. Não são temas abstratos, distantes da realidade”, afirma Alessandra.

Segundo Catharina, a pressão pela excelência é um dos fatores que causam angústia nessa fase da vida. “Tudo é muito extremo. Precisa ser o aluno perfeito, ter popularidade, atingir o corpo ideal. São pressões constantes. Parece que é algo que vai me moldar para eu ser quem eu vou ser no futuro”, diz.

Bastos, orientador do projeto, explica que a iniciativa —que rendeu cinco prêmios para as alunas em eventos nacionais e internacionais— propõe que os adolescentes tomem consciência da importância da saúde mental. “A ideia não era achar uma cura pelas ciências humanas, mas ver que os impactos da vida em sociedade podem ser um fator de risco para a saúde mental, principalmente no contexto em que os adolescentes estão inseridos”, diz o professor. “Quando a intervenção acabou, deu para perceber que as pessoas estavam sendo mais gentis umas com as outras. Melhorou muito o ambiente em sala de aula”, conta Alessandra.

A coordenadora pedagógica do Dante Alighieri, Sandra Tonidandel, ressalta a importância do acompanhamento de iniciativas como essas pelo corpo docente. “Os adolescentes são autores e protagonistas, mas com todo cuidado da equipe pedagógica para dar suporte para as ações”, afirma.

Encontrar uma forma de falar com o público jovem sobre saúde mental também foi a motivação do projeto Sorriso de Papel, desenvolvido por Paulo Cardoso, 17, em Macapá (AP). Com duas colegas e uma equipe de psicólogos, ele elaborou uma apresentação sobre depressão para a escola em que estudava. “Quando você pega um médico para falar, existe uma formalidade. Com a nossa linguagem, torna-se mais propício para eles entenderem e aceitarem."

Depois da apresentação, os adolescentes colocam uma caixa trancada em cada sala de aula, onde os alunos podem depositar bilhetes, identificando-se ou não, para expressar o que estão sentindo. “Quando a pessoa não se identifica, pelo menos o corpo docente sabe em que sala ela está e pode trabalhar aquela questão específica naquela classe”, diz Paulo.

Dois anos após a sua criação, o Sorriso de Papel está presente em quatro escolas da capital do Amapá. Para atender outros jovens, o projeto conta com um site em que mais de 300 psicólogos voluntários auxiliam os adolescentes por e-mail e indicam os profissionais credenciados próximos de onde o jovem mora que fazem atendimento gratuito. O projeto recebeu mais de 1.200 e-mails.

A confiança na relação entre os adolescentes também é a base da Equipe de Ajuda, projeto da escola bilíngue Stance Dual, em São Paulo. Criada há dois anos, consiste em um grupo de estudantes entre 12 e 14 anos que atuam como mentores na resolução de conflitos, como brigas ou bullying. Para Maria Eduarda Alvarez, 13, existe um laço pela aproximação da realidade que estão vivendo: “A gente sente que a pessoa também está passando por isso”.

A iniciativa contribuiu para revelar casos de automutilação entre os alunos. “É muito difícil contar isso para a família. A certeza que a equipe me deu foi muito importante, porque aqueles que estavam com problemas contavam para as colegas, não para nós”, diz a orientadora educacional Ana Claudia Esteves Correa.

​​Escolas que não têm projetos como esses também podem receber ajuda de voluntários. Na Quero na Escola, plataforma online criada em 2015, os alunos fazem pedidos sobre temas que querem discutir na escola, e profissionais escolhem o projeto que querem atender. O site faz a mediação e agenda as visitas.

Segundo uma das fundadoras do site, a jornalista Cinthia Rodrigues, foram cinco pedidos relacionados a depressão e suicídio no ano passado, além de outros cinco envolvendo bullying e autoestima. "O tema da depressão começou a aparecer em 2017, é uma epidemia nas escolas. A gente não tem um cardápio com os temas disponíveis, é o que o aluno tem na cabeça dele, e vieram pedidos assim”, conta. De fevereiro a abril deste ano, foram atendidos quatro pedidos sobre depressão, ansiedade e suicídio. Há outros dez na espera por voluntários.

A psicóloga e instrutora de mindfulness Marcela Hipólito é uma das voluntárias. Ela conversou sobre ansiedade e depressão na Escola Estadual Carlindo Reis, em Ferraz de Vasconcelos (cidade vizinha a Suzano) dois dias após o ataque à escola Raul Brasil, que terminou com mortes. "A gente tem que ir devagar, ter cuidado porque não vai ter continuidade. Geralmente é uma visita só", conta a psicóloga.

Para ela, o voluntariado é uma forma de praticar a cidadania: “O que mais me motivou a estar com eles é que a demanda não partiu de um plano estratégico da escola, mas dos próprios alunos. E os adolescentes não são só responsabilidade da escola, mas também da sociedade”.

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