Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

Mais meninos buscam tratamento para transtornos alimentares

Um menino para cada cinco meninas procura o HC; há cinco anos, taxa era de 1 para 10

Rebeca Oliveira
São Paulo

​​​É difícil para Pedro (nome fictício), 21, identificar quando começaram seus problemas com a comida, mas ele estima que a situação tenha se agravado aos 16 anos, quando resolveu fazer uma dieta de 1.300 kcal por dia (a recomendação para a altura e idade dele são 2.860 kcal). “Eu emagreci entre 10 e 15 kg e fui ficando cada vez mais obsessivo e rigoroso. Eu não saía da dieta de maneira alguma, não deixava nada passar, não saía pra comer com meus amigos, não bebia nada, eu não fazia nada, eu vivia a minha vida em função da dieta”, relata. Ele foi diagnosticado com anorexia nervosa.

Desenho retrata um esqueleto humano ao lado de um corpo preenchido pintado de preto
Pessoas com anorexia nervosa enxergam seu corpo maior do que é e recusam os alimentos, apesar de sentir fome. Isso leva a uma perda de peso rápida e acentuada e à desnutrição. - Ilustração: Estela May

O caso é típico entre adolescentes com transtornos alimentares: ele teve um quadro de obesidade infantil e sofreu bullying na escola devido ao peso. A diretora da Associação Brasileira de Psiquiatria, Fátima Vasconcellos, explica que a doença geralmente começa a partir de algum trauma: uma perda importante, algum conflito ou alguma situação estressante e sempre com restrição alimentar. “No meio do processo da dieta, a pessoa perde o controle do comportamento.”

​Doenças como anorexia e bulimia são mais comuns entre as meninas, mas também atingem os garotos. Entre os adolescentes atendidos pelo Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência (Protad) do Hospital das Clínicas de São Paulo, a proporção é de 1 menino com algum tipo de transtorno alimentar para cada 5 meninas. Há cinco anos, a proporção era a mesma apresentada pela literatura médica, 1 menino para cada 10 meninas.

​O aumento se dá, em parte, pela divulgação do ambulatório específico para homens com transtornos alimentares, criado em 2008. Mas a diretora do Protad, Vanessa Pinzon, explica que esse número poderia ser maior, já que muitos meninos ficam sem diagnóstico. “Quando o pediatra ou o endocrinologista vai atender, eles nem levantam essa hipótese porque os transtornos são mais comuns em meninas, mas mais comum não significa exclusivo”, alerta. 

​Além da falta de desconfiança por parte dos médicos, muitos meninos sequer chegam a ser levados para uma avaliação clínica porque os familiares não percebem mudanças de comportamento em relação à alimentação. “Como geralmente se fala mais sobre transtornos alimentares entre meninas, os pais ficam mais atentos, o que não acontece em relação aos meninos”, diz Veruska Lastória, Psiquiatra do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares da Unifesp.

Os pais de Guilherme (nome fictício), 15, só notaram que o filho precisava de ajuda quando ele desmaiou na esteira da academia. “Não tinha comido nada naquele dia. No dia anterior, tinha tido uma compulsão [episódio de alimentação descontrolada] e vomitado, só mascava chiclete de menta pra disfarçar o hálito. Acabei batendo a cabeça e me levaram a um pronto-socorro”, conta. A médica que o atendeu notou que ele estava abaixo do peso e com glândulas salivares inchadas e o encaminhou para tratamento especializado em bulimia nervosa.

Desenho mostra uma pessoa de cabelo curto de costas, vestindo uma camiseta até os joelhos e de cabeça baixa, olhando para a própria sombra
Pessoas com bulimia costumam ter episódios de compulsão alimentar seguidos de culpa e angústia, a que reagem provocando vômitos ou usando laxantes e diuréticos. Também exageram nos exercícios físicos e recorrem a jejuns. - Ilustração: Estela May

​Sophie Deram, nutricionista do Ambulim, explica que a adolescência é um período de bastante sensibilidade aos transtornos alimentares. “A bagunça hormonal pode aumentar o risco de distorção da imagem, já que a adolescência é um período de grandes mudanças que não são sempre bem aceitas”

Mas os hormônios não são as únicas causas. Transtornos alimentares também estão associados a predisposição genética e pressões sociais para ser o mais magro possível. São mais recorrentes entre homens com histórico de obesidade infantil e que realizam atividades relacionadas ao corpo, como atletas e modelos. Geralmente começam no período entre 13 e 18 anos de idade.

Na anorexia, devido à falta de alimentação, o corpo tende a buscar energia através da queima de gordura. Uma vez que a gordura acaba, podem ser gastos desde músculos até os ossos, o que pode deixar consequências para a vida adulta, como osteoporose e falta de crescimento. “Dependendo do tempo que o menino ficou desnutrido, mesmo com a reposição do hormônio do crescimento, ele pode não atingir a altura final programada geneticamente”, explica a diretora do Protad. A doença também pode levar a um grau extremo da desnutrição, em que o índice de mortalidade chega a 15% dos casos.

Para os pacientes de bulimia, o transtorno pode deixar problemas relacionados a digestão, dores de garganta crônicas e problemas dentários devido à perda de esmalte dos dentes. 

Nas duas doenças, os pacientes enxergam o próprio corpo de forma distorcida, ou seja, se veem mais gordos do que de fato são, e tomam atitudes para tentar perder peso. “A preocupação não é com a estética do corpo magro e sim com a fantasia da aceitação a partir do momento em que se tem um corpo magro”, explica Alexandre Pinto de Azevedo, coordenador do grupo de Atendimento a Homens com Transtornos Alimentares do Ambulim.

A sensação de ser mais bem aceito foi um incentivo para Pedro. “Eu comecei a ter uma associação que o amor das pessoas, o quanto elas gostavam de mim, o quanto elas poderiam ter interesse em mim estavam diretamente associados ao meu peso.” Essa relação ganhou força à medida que ele começou a receber mais elogios e despertar interesses românticos.

O mesmo aconteceu com Guilherme. “As pessoas começaram a me elogiar e isso me incentivou. Até criei um perfil no Twitter onde eu contava os meus ‘avanços’ na perda de peso. Conheci muita gente por lá que também achava normal usar estratégias absurdas, e isso foi criando um círculo vicioso”, conta. 

Para desconstruir essa noção, o tratamento é feito de forma multidisciplinar: envolve psicólogos, psiquiatras, nutricionistas, nutrólogos e endocrinologistas e deve contar com o apoio de familiares. “Às vezes, eles não sabem como ajudar e não imaginam a bagunça que fazem ao dizer que os filhos comem demais ou comem de menos”, explica Maria del Rosario Alonso, da Associação Brasileira de Nutrologia. 

Ela recomenda que os pais façam refeições em família e evitem comentários recorrentes sobre peso, para construir uma relação mais positiva com a comida. “O processo é muito delicado e precisa da ajuda de todos”, completa. 

 A Astral (Associação Brasileira de Transtornos Alimentares) recomenda que o tratamento seja coordenado por um especialista, para evitar casos como o de Pedro. “Eu já fui em psiquiatra que dizia ‘pô, você tem que parar com esse negócio de não querer comer’. No programa especializado, o nível de empatia e consciência em relação ao meu quadro foi algo surreal, eu nunca tinha sentido isso na minha primeira consulta.”

Em um programa de tratamento, Guilherme está construindo uma relação mais saudável com o corpo e a comida, mas ainda tem dificuldades. “O mais difícil é o lance da percepção corporal. Eu não sei o que acontece com o cérebro da gente pra que a gente ache que tá gordo quando não tá”, conta.

Fique atento aos sinais:

Podem ser sinais de anorexia:

  • Perda exagerada e rápida de peso;
  • Recusa em participar das refeições familiares;
  • Levar o prato para o quarto, mas, não comer;
  • Preocupação exagerada com o valor calórico dos alimentos;
  • Atividade física intensa, rígida e exagerada;
  • Pele muito seca e coberta por lanugo (pelos parecidos com os de recém-nascidos).

Podem ser sinais de bulimia:

  • Visitas frequentes ao banheiro logo após as refeições;
  • Dentes manchados ou amarelados;
  • Uso frequente de laxantes e diuréticos;
  • Atividade física intensa, rígida e exagerada;
  • Rituais relacionados a comida ou a alimentação (comer apenas um alimento ou um grupo específico de alimentos, mastigar excessivamente a comida ou evitar que o alimento toque os lábios ao ser colocado na boca);
  • Ingestão de porções muito pequenas de comida;
  • Pular refeições com frequência;
  • Usar roupas folgadas para esconder os contornos do corpo

Fontes: Fátima Vasconcelos, diretora da Associação Brasileira de Psiquiatria; Sophie Deram, nutricionista do Ambulim; Veruska Lastória Amigo, psiquiatra do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares (Proata/Unifesp); Camila Junqueira, terapeuta do Projeto Anorexias e Bulimias do Instituto Sedes Sapientiae; Alexandre Pinto de Azevedo, coordenador do grupo de Atendimento a Homens com Transtornos Alimentares do Ambulim​

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