Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

'Me perguntaram se eu queria só chamar atenção', conta jovem com depressão que tentou suicídio

Após episódio, adolescente ficou internado por dois meses em uma clínica psiquiátrica

Manuela Ferraro
São Paulo

Felipe (nome fictício), 17, sente-se deprimido desde pequeno. Na escola que frequentou entre os 5 e os 11 anos, em uma cidade pequena no interior de Minas Gerais, costumava ser chamado de “gordinho” e “viadinho” pelos colegas.

Trabalhos em grupo e atividades nas aulas de educação física eram tarefas solitárias. “Uma vez, um menino disse em voz alta que não me queria no grupo porque me achava muito burro”, relata.

Ilustração em preto e branco de um menino, que apoia a cabeça em sobre seus braços. Seus olhos tem muitas olheiras
Felipe não se lembra muito bem de como foi o dia que tentou suicídio. "Naquela hora, o sofrimento é tão grande que você só quer descansar”, diz - Ilustração: Estela May

Na adolescência, depois de se mudar com a família para São Paulo, encontrou colegas mais acolhedores, mas o bullying havia deixado sequelas. Tinha medo de voltar a ser excluído. Aos 16, começou a ter ataques de pânico durante as aulas.

“Eu saía da sala, não adiantava, me levavam para o hospital. Mas tudo se repetia no dia seguinte”, relata. Os pais, o psicólogo e o psiquiatra decidiram afastá-lo da escola por um tempo e colocá-lo em um curso livre de design, uma de suas afinidades.

Fora da escola durante um ano, sem rotina e saindo pouco de casa, ficou mais deprimido do que já estava. Começou a buscar na internet maneiras de acabar com a dor.

“Em qualquer pesquisa que você faz sobre morte ou suicídio, a primeira coisa que aparece é o CVV [Centro de Valorização da Vida, que oferece atendimento gratuito de apoio emocional]. Mas depois de três links aparecem as informações que você precisa.”

Felipe não se lembra muito bem de como foi o dia que tentou suicídio. “É difícil falar, a ficha não cai direito. Naquela hora, o sofrimento é tão grande que você só quer descansar”, diz.​

Ouça trecho da entrevista:

Logo depois do episódio, foi encaminhado ao hospital. “Eles foram rápidos em me atender. Mas chegaram a perguntar se eu tinha feito aquilo só por atenção ou se eu estava mal mesmo. Isso me machucou muito. Vi que tinha chegado a um ponto crítico e pedi para ser internado.”

Os dois meses em internação em uma clínica psiquiátrica são descritos por ele como os mais difíceis da sua vida. “Consegui parar para pensar em mim mesmo e minha autoestima melhorou, mas fiquei dois meses longe da família. No fim, foi um sofrimento que valeu a pena.”

Na rotina da clínica, Felipe tinha rodas de conversa, atividades físicas e sessões de arteterapia, junto com outros 65 adolescentes. Toda manhã, eles tinham que definir pequenas metas individuais para o dia, buscando consolidar a ideia de que é de pouco em pouco que se chega à melhora do quadro do transtorno.

“A minha cabeça é uma coisa muito complexa. É muito pensamento atrás do outro. Eu sofro pelo passado e pelo futuro. Isso me sobrecarrega e me deixa desanimado”, explica Felipe. Para ele, a pressão de estar dentro dos padrões de beleza e a preocupação com o sucesso profissional são fatores de angústia.

“Eu trabalhava na lógica de que se a sociedade não me aceitava, era porque eu não era bom o suficiente. Logo, não fazia sentido eu tentar me incluir. Me sentia um patinho feio, um extraterreste, como se não pertencesse a nenhum lugar.” Hoje, porém, diz que sua visão sobre si mesmo é diferente. O combo de medicação, terapia, atividade física e paciência o ajudou. “Falar com psicólogo ajuda muito. Ter a confiança de conversar com alguém que entende que aquilo que você sente é uma doença de verdade é essencial”, afirma.

“Eu sempre sorri para esconder. Nos piores momentos, eu sorria mais. Mas por dentro eu me martirizava. Antes eu não chorava, hoje eu choro que nem um condenado. Hoje eu consigo entender o que eu sinto e me expressar. Não sou mais uma pedra. Hoje, se eu sorrio é porque eu estou bem.”

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