Descrição de chapéu Cabeça de Adolescente

Unidades de internação tentam se desvincular de estigma de manicômios

Hospitais gerais e centros da rede pública tratam pacientes com transtornos mentais graves

Mariana Grazini
São Paulo

​“Eu falei para um amigo o que eu tinha feito e ele chamou uma ambulância.” Gabriela (nome fictício), 14, conta que tentou suicídio tomando remédios em uma tarde sozinha em casa. A segunda tentativa em menos de um ano levou a adolescente à enfermaria do Instituto de Psiquiatria Infantil do Hospital das Clínicas da USP, em São Paulo.

“Se você tem uma doença mental, você não sabe quando vai melhorar. Às vezes, pode parecer que eu estou bem e no dia seguinte eu tenho um surto”, diz Gabriela, sentada em um dos leitos. Por trás de cada porta azul dos nove quartos da unidade, há duas camas e um armário. Foi no quarto número seis que a jovem ficou internada em maio deste ano, acompanhada de sua mãe.

Ilustração em preto e branco do rosto de perfil de um adolescente chorando
Adolescentes podem ser levados à internação em função da gravidade do transtorno mental - Ilustração: Estela May

O diagnóstico de transtorno de personalidade borderline veio há cinco meses, três anos depois de Gabriela começar a se sentir deprimida. Seus sintomas, como mudanças bruscas de humor, sentimento de abandono, impulsividade e agressividade, eram característicos da doença.

Naquela época, aos 11, mudou-se de cidade com a família e perdeu uma prima e, em seguida, uma tia-avó que ajudou a criá-la. “Eu comecei a sentir vontade de me machucar”, diz a adolescente ao contar que se juntou a um grupo de meninas que se mutilavam.

Com o tempo, perdeu a vontade de sair da cama, de frequentar as aulas e de manter contato com colegas. Tentou suicídio pela primeira vez em julho de 2018, ingerindo bebida alcoólica, e foi resgatada.

Desde então, vem sendo tratada por psicólogos e psiquiatras. Em abril, teve uma recaída que a levou à segunda tentativa de suicídio. Gabriela foi encaminhada para um hospital municipal, onde ficou cinco dias. Depois, passou pouco mais uma semana em um hospital particular.

No começo de maio, conseguiu uma vaga no Hospital das Clínicas, onde já fazia sessões semanais de terapia. “Eu quis ser internada porque quero ficar bem e voltar para casa melhor.”

“Nós internamos pacientes em função da gravidade, de um risco iminente à própria vida ou à de outra pessoa”, explica Guilherme Polanczyk, psiquiatra e coordenador da Enfermaria de Infância e Adolescência do IPq-USP.

Quando a internação é necessária, um caminho possível é pela rede pública de saúde. Após uma avaliação inicial pela Unidade Básica de Saúde (UBS), o jovem pode ser encaminhado a um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). O Caps, por sua vez, pode acionar hospitais gerais para que a transferência seja feita em casos mais graves.

O menor de idade também pode ser levado à internação por via judicial ou por meio da assistência social. Casos assim costumam envolver abuso sexual, maus tratos, vulnerabilidade social ou conflitos familiares.

Para Polanczyk, a internação é um recurso para tratar o paciente e não deveria ser estigmatizada. “Se pensamos em alguém que está infartando, não achamos que a dor vai passar em casa. Mas há quem confunda esse procedimento com manicômios, onde as pessoas eram depositadas e ficavam sem tratamento.”

Essa imagem está muito longe da rotina no Hospital das Clínicas. O dia de Gabriela, por exemplo, começava às 7h30, quando acordava para o café da manhã e para medir o peso e a pressão arterial. Às segundas, terças e quartas-feiras, tinha aula com uma professora que trazia tarefas da escola de Gabriela.

“Quinta-feira era o dia mais cheio, com mais atividades, e a maioria para a gente se expressar”, lembra Gabriela. Era quando recebiam contadores de história, tinham atividades em grupo, desenhavam e faziam artesanato.

Segundo Polanczyk, é preciso incluir a família no tratamento dos adolescentes. "As relações familiares têm uma grande força para desenvolver o transtorno mental ou manter a saúde dos jovens. Sabemos que se não trabalharmos com eles [os familiares], o adolescente vai voltar ou continuar da mesma forma", diz. No IPq, o menor de idade é internado na companhia de um dos pais ou de outro responsável. 

Uma alternativa para adolescentes em estados mais agudos tem sido a passagem pelo Caps Infantojuvenil 3, de acordo com Janaína Diogo, psicóloga e coordenadora de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. A unidade recebe casos moderados a graves, opera 24 horas por dia e oferece cama aos jovens. “Funciona no sentido de uma internação, mas chamamos de acolhimento integral”, disse Diogo. Essa modalidade, de acordo com ela, existe apenas na cidade de São Paulo.

Em São Paulo, no bairro Santana, Letícia (nome fictício), 12, foi encaminhada ao CAPS IJ 3 após ter uma crise psicótica. A adolescente ficou em tratamento durante um mês e dez dias na unidade. Letícia começou a fugir de casa e a ter delírios após a separação dos pais.

A jovem ainda volta à unidade todas as tardes para dar continuidade ao tratamento. Aos poucos, é inserida em atividades em grupo para poder voltar à escola.

No centro onde ela ficou, trabalham psiquiatras, enfermeiros, psicólogos, farmacêuticos, nutricionistas, fonoaudiólogos, pediatras, oficineiros e assistentes sociais. Juntos, eles elaboram o programa terapêutico de cada paciente, que pode incluir o uso de medicação.

Depois de passar 18 dias internada, Gabriela retorna ao Instituto de Psiquiatria da USP todas as segundas-feiras. A adolescente se sentiu nervosa em seu primeiro dia de volta à escola e a sua família está à procura de uma psicopedagoga para dar aulas em casa. Do instituto, levou um urso de pelúcia que ganhou antes de ir embora e as caixinhas de artesanato que fez. “Sou nova, mas quero trabalhar com arte um dia.”

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