Mulheres consomem mais games, mas ainda sofrem assédio e hostilidade

Episódio que envolveu youtuber trouxe à tona relatos de outras jogadoras

Matheus Moreira
São Paulo

O episódio que envolveu a youtuber Gabriela Cattuzzo, 22, no fim de junho, causou alvoroço nas redes sociais —como costuma acontecer, com gente que sai em defesa e gente que faz ataques —, cresceu com o posicionamento de empresas patrocinadoras e expôs o ambiente hostil no qual vivem as mulheres gamers. 

Isso apesar de elas já serem 53% das consumidoras, considerando jogos para computadores, consoles e celulares,  segundo a pesquisa Games Brasil de 2018, realizada pela ESPM junto ao Sioux Group.

Gabi, como é conhecida, publicou no Twitter uma foto não relacionada ao seu trabalho como streamer —como são chamadas as jogadoras que transmitem partidas ao vivo pela internet—, em cima de um touro mecânico com a legenda: “eu tô montada no chat”.

“Pode montar em mim à vontade”, escreveu um seguidor. Gabi respondeu ao comentário dizendo que homem era lixo e que sexualizava as mulheres mesmo quando elas estão fazendo piada.

Em seguida a Razer, empresa de produtos para computadores, anunciou que não renovaria o contrato de Gabi e que a empresa é contrária a discriminações de sexo. 

Em 2018, a empresa lançou uma linha de produtos cor-de-rosa para agradar as jogadoras. Não funcionou. “A marca acha que está defendendo o público-alvo dela. O problema é que depois de quatro anos sendo as que mais jogam, ainda não somos levadas a sério. A única coisa que a Razer fez foi lançar um conjunto cor-de-rosa”, diz Natália Paixão, 25, gamer amadora.

A jovem é fã dos jogos FPS (tiro em primeira pessoa). Ela diz que precisa usar nicks (nomes de usuário) neutros porque colegas homens começam a falar mal de sua performance no jogo ou deixam a partida ao notarem que ela é mulher.

Usar nomes neutros ou masculinos, aliás, é regra entre as gamers para evitar assédio ou xingamentos. “Quando ouvem voz de mulher eles perguntam se estou solteira, dizem coisas de teor sexual, insultam. Essa reação está ficando mais comum. Já tentaram perder o jogo de propósito para dizer que a culpa era minha”, diz Paixão. 

No setor competitivo de games, as mulheres ainda estão brigando por espaço e reconhecimento. O CNB, clube de e-sports mais antigo do Brasil, fundado em 2001 como Canibais, só teve sua primeira gamer competindo no time principal de e-atletas em 2017. Júlia “Cute” (fofa em inglês) foi a primeira mulher a jogar competitivamente em um time principal no país. 

Outra gamer profissional, Camila Silva, a Camilota XP, 24, também sofreu nas mãos de colegas homens. Em entrevista à rádio Jovem Pan, ela contou que era hostilizada quando começou a jogar, situação que piorou quando ela se tornou a primeira e única mulher a ser finalista na categoria Personalidade do Ano no maior prêmio de esportes eletrônicos da América Latina, o eSports Brasil, em 2018. Ela perdeu para um homem. 

Do outro lado da tela

Mas, além de jogarem, mulheres também produzem, desenham e idealizam jogos.

Para a designer de games Bianca de Abreu Antunes, 24, a mudança de tratamento está acontecendo de dentro da indústria para fora. “Já é possível ver vários jogos com personagens femininas fortes, mas nem sempre isso é bem aceito pelo público. Muitos dos jogadores são tóxicos e acham que os desenvolvedores só estão colocando mulheres como personagens pra ‘lacrar’. Está melhorando, mas ainda tem muito o que mudar”, afirma. 

Antunes conta que já foi assediada em outra produtora na qual trabalhou. “Já me mandaram mensagens em conferências de jogos pedindo para me encontrar. Quando perguntei se era para tratar de negócios, responderam: ‘talvez, mas adoraria tomar uns drinques com você’.” 

Sobre o caso de Gabi, Bianca diz que não concorda com a generalização feita pela youtuber e que é contra qualquer sexismo, mas ressalta que a Razer falhou em sua reação. 

A social media da Mauá e-Sports, Nubia Nunes, 23, pensa de forma similar. Ela lembra que em 14 de outubro de 2018 a Razer publicou em seu perfil oficial no Twitter uma foto na qual citava uma palestrante em evento de games pedindo para que mulheres não se calassem diante de assédio. “Acho que eles [a Razer] poderiam começar a colocar em prática um pouco mais daquilo que falam e divulgam por aí”, afirma Nunes.

Ao UOL Gabriela Cattuzzo disse que se arrependeu da forma como reagiu e que ela e sua família estão recebendo ameaças de morte. Ela apagou a foto em questão e publicou um pedido de desculpas. À Folha a youtuber disse que foi procurada por três empresas concorrentes da Razer para negociar parcerias. 

Em fevereiro deste ano, ela foi contratada para fazer parte do Facebook Gaming, plataforma de streaming de jogos do Facebook. Na ocasião, foi orientada pelo seu empresário a não responder aos assédios. “Eu não estava mais feliz. Ficava um clima muito pesado, e passei a ficar quieta, deixei de rebater”, disse. 

À Folha Gabi disse que não foi procurada pela Razer em nenhum momento após o ocorrido. Ela explica, porém, que sempre foi bem tratada pelas pessoas com quem tinha contato. “Acredito que a declaração da empresa tenha vindo de algum superior e não da equipe com a qual eu trabalhava (que eram apenas funcionários). Acredito também que a empresa decidiu optar pelo que seria melhor para si”, afirma.

Ela também conta que acreditava que as ofensas e o assédio no universo dos jogos diminuiriam com o passar do tempo, mas que se surpreendeu com o aumento das hostilidades: “Eu e outras mulheres sempre imaginamos que essas coisas aconteceriam com menor frequência ao longo dos anos, mas desde então só vem aumentando. Todo dia é um dia difícil pra mulher nesse mundo dos games, principalmente quando se trata de mulheres que querem lutar por igualdade em um meio dominado por homens”, diz.

A Folha procurou a Razer mas não obteve resposta. O dono do perfil que assediou a youtuber não foi encontrado.

Erramos: o texto foi alterado

Uma versão anterior deste texto grafou incorretamente o nome de Gabriela Cattuzzo como Gabriella. O erro já foi corrigido. 

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