'Explante' de silicone: elas tiraram próteses e se acham mais bonitas

O aumento dos seios lidera as cirurgias plásticas no Brasil com 18,8% do total de intervenções

Nathália Geraldo
São Paulo | UOL

Pense no sinônimo de "peito bonito" nos anos 2000. Próteses de silicones arredondadas, empinadas, sustentadas em corpos magros, certo? Foi exatamente naquele ano e sob essa referência estética –do boom do silicone– que a bióloga Carolina Scultori, hoje com 36 anos, resolveu colocar as próteses de 215 ml para se sentir com mais autoestima. 

"Eu era muito magra, me sentia um menino. Resolvi pegar a poupança que juntava desde que nasci para colocar silicone, cometer essa loucura". A atitude, de acordo com ela, foi para que se sentisse mais mulher.

A cirurgia plástica para aumento dos seios ainda é a mais procurada pelos brasileiros. Dado de 2018 da Sociedade Brasileira de Cirurgias Plásticas (SBCP) mostra que 18,8% das intervenções cirúrgicas são para colocar seios, na frente de lipoaspiração (16,1%) e abdominoplastia (15,9%). Mas, comparada a 2014, a busca tem diminuído: à época, o implante nos seios representava 22,5% das vezes que alguém entrou no centro cirúrgico no país.

Maria Luísa tirou implante de silicone
Maria Luísa tirou implante de silicone - Rafael Lira/Arquivo pessoal

"Antes de colocar, eu ficava horas olhando no espelho e implorando para o peito crescer. A primeira vez que eu passei com silicone e me olharam, eu fiquei muito feliz. Também vivi aquilo de a pessoa estar falando com você e olhar só para seu peito", diz a bióloga.

Carolina mudou muito sua forma de pensar. "Hoje eu sei que era imatura, me perdoo por isso". A ponto de ter retirado a prótese em meados de agosto deste ano. Ela fez o que as mulheres chamam de "explante" nas redes sociais, especialmente em grupos fechados do Facebook, em que se unem para trocar experiências e indicações sobre o tema. O assunto tem ganhado espaço entre elas, mas a SBCP não tem dados divulgados sobre quantas cirurgias como essa já foram feitas no Brasil.

Em sua própria avaliação, Carolina diz que colocar silicone tinha pouco a ver com seu estilo de vida. "Sempre fui vegana, uma pessoa natureba. Mas, na época que coloquei, era muito popularizado. A minha foi uma das primeiras que tinha uma textura diferente, diziam que era mais moderna e que iria durar para sempre".

Há dois anos, Carolina teve contato com os grupos e perfis nas redes sociais que falam sobre riscos do silicone dentro do corpo, as doenças do implante mamário, e ficou com uma pulga atrás da orelha. "Li relatos de doenças associadas. Eu não tive nenhum problema, mas fiquei preocupada. Fiquei matutando por um ano e meio".

Até que um dia, acordou com dor no seio direito e descobriu que teve uma contratura capsular, uma rejeição do corpo que provoca o endurecimento das próteses, como aconteceu com Xuxa Meneghel na troca do implante. A dor foi aumentando a ponto de ela não poder abraçar mais ninguém. Foi atrás de um médico.

"Queria algum que tirasse a prótese sem que a cápsula abrisse dentro do corpo. No fim, fiz com um profissional que faz reconstituição de mama de mulheres que tiveram câncer. Para mim, foi me reencontrar com meu corpo. Quando o médico ergueu o espelho para me mostrar o resultado, era como se eu tivesse encontrado uma pessoa que eu amava muito e não via há muito tempo. Mas era eu mesma".

Dos 18 aos 22 anos: o tempo do silicone 

Maria Luísa Bezerra Gouveia de Andrade, 22 anos, também foi siliconada por um tempo. O acordo da estudante com os pais era um só: caso ela passasse na faculdade, eles dariam de presente a cirurgia. Depois de ter completado a escola e ter feito 18 anos, ela teria os meses antes de entrar na universidade para se recuperar. E assim foi: 240ml de cada lado.

Experiência de Maria Luísa rendeu um ensaio fotográfico, o "Relato em Carne Crua"
Experiência de Maria Luísa rendeu um ensaio fotográfico, o "Relato em Carne Crua" - Rafael Lira/Arquivo pessoal

Acontece que, há quatro meses, Maria Luísa resolveu tirar o implante. Toda sua história gerou um relato condensado no site "Relato em Carne Crua", com o ensaio fotográfico que fez pós-explante. "Minha cabeça mudou muito, me tornei vegetariana, e estou querendo viver um estilo de vida mais saudável. Não faz mais sentido para mim, não vejo por que modificar o corpo todo, violentá-lo. Era uma coisa que me machucava".

Ela estava com uma alergia na mama e decidiu que não queria mais ter "aquilo" dentro dela. A relação entre a sensação de a prótese "coçar por dentro" e a alergia ao silicone foi descartada pelo mastologista consultado por ela. No entanto, a pele e os olhos ressecados e a falta de memória eram algumas das consequências com as quais ela se identificava, assim como várias mulheres dos grupos do Facebook. Maria Luísa também relata ter desenvolvido Tireoidite de Hashimoto, doença autoimune, diagnosticada após a retirada do silicone

O que dizem os médicos

O cirurgião plástico Erik Nery, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, rebate: "Uma coisa é ter doença que exija remoção. Aí, fazemos testes laboratoriais. Se há uma doença autoimune, é muito provavelmente relacionada. Mas é preciso ver se houve um gatilho [para que houvesse essa vontade de tirar]. Não é só porque a paciente está com a boca seca que o vilão é o silicone", pondera o cirurgião que, para Universa, afirmou que é um "entusiasta".

"Estou na fase assintomática [da Tireoidite], mas o endocrinologista disse que temos que fazer exames duas vezes ao ano para acompanhar. O que sei é que várias mulheres que colocaram silicone acabam adquirindo alguma doença autoimune", diz Maria Luísa.

Para a cirurgiã plástica Suzy Vieira, também integrante da SBCP e da Sociedade Brasileira de Laser, mestre em cirurgia plástica pela USP, a vontade de tirar o implante nos seios não é só por conta da aceitação da estética do corpo natural -- uma percepção que cresce entre as mulheres -- mas também associada aos estudos sobre as chamadas Breast Implant Illness (BII, em português, Doença do Implante Mamário), já elencadas pela agência FDA (Food and Drug Administration, a "Anvisa" americana).

O órgão cita casos reportados de fadiga, perda de memória, erupção cutânea, "névoa cerebral" e dor nas articulações e orienta que as pacientes que tenham esses registros informem a agência. Secura nos olhos e na boca também é mencionada no estudo.

A dificuldade do explante

Programar o explante não foi tarefa fácil para Maria Luísa. "Os médicos dão desculpa de que eu poderia ficar insatisfeita com o resultado estético, dizem que pode me abalar psicologicamente. Mas eu gostei do resultado. Eu ficava muito incomodada, tinha pesadelo achando que meu peito ia abrir, que eu ia ter uma contratura. Tive sorte de nada pior acontecer".

Para a professora Larissa Araújo de Almeida, 35 anos, retirar o implante quase sete anos depois foi uma decisão relacionada a problemas de saúde. Ela engravidou dois meses depois de ter feito a cirurgia e teve dificuldades para amamentar seu filho. Mulheres com seios naturais também poderem ter esse tipo de inflamação, especialmente nos primeiros dias de amamentação.

Larissa afirma que tinha dores como pontadas no seio, cabelo e unhas fracas, que associa ao silicone
Larissa afirma que tinha dores como pontadas no seio, cabelo e unhas fracas, que associa ao silicone - Arquivo pessoal

"Eu iria trocar a prótese porque já tinha chegado o tempo recomendado, mas já estava tendo muitos problemas. Com três anos da intervenção, tive a contratura capsular no seio esquerdo. Aí voltei no médico, e ele me dizia para fazer massagem que ia passar".

Dores como se fossem pontadas nos seios, queda de cabelo e unhas fracas também passaram a fazer parte da rotina de Larissa, junto à falta de ar e à falha de memória. No ano passado, ela descobriu que tinha uma contratura também no seio direito. Os desconfortos aumentaram: não conseguia dormir de bruços nem abraçar o filho.

"Quando o médico tirou, disse que o implante parecia uma bola de futebol americano", comenta.

Ela comenta que a cirurgia foi uma decisão errada do passado. "Aos 17 anos, emagreci um pouco e o peito foi embora, então peguei o dinheiro de uma viagem que faria para Europa e coloquei o implante. Duas amigas tinham colocado pouco tempo antes. Se arrependimento matasse...". A professora conta que na época pagou R$ 7.500 para colocar o silicone. A cirurgia de retirada, segundo ela, custou pouco mais de R$ 9 mil e foi feita com abertura na mesma cicatriz da primeira intervenção, com retirada de pele, por conta da amamentação.

Retirada de prótese

A cirurgia para retirada do silicone pode ser feita pela mesma cicatriz do implante. Há possibilidade de se fazer outro procedimento, a suspensão da mama, retirada do excesso de pele e colocação de gordura de outra parte do corpo da paciente para substituir o lugar do silicone. Médicos dizem, no entanto, que o "resultado estético" pode ser diferente do imaginado pela paciente, que há mudanças de formato e textura do seio.

"E vai ficar flacidez", comenta a cirurgiã plástica Suzy Vieira. A prótese pode estar abaixo ou acima do músculo, o que muda o grau de complexidade de acesso. "Tanto colocar quanto tirar são cirurgias de baixo risco, porque é pele, gordura e glândula, não se mexe em órgãos nobres", explica a cirurgiã.

O que é esperado

Suzy reconhece que duas informações de saúde têm causado maior procura pelo explante: a ocorrência confirmada de linfoma de células anaplásicas na cápsula da prótese que, se detectado inicialmente, tem como tratamento a "retirada da cápsula e do implante", diz a médica, e a investigação de que a presença do silicone no organismo pode acarretar algumas "reações sistêmicas", na pele, reumatológicas, como respostas do sistema imunológico do corpo.

A médica explica que a contratura da cápsula não é vista como uma "complicação", mas algo esperado. "Ao longo do tempo, em dez, vinte anos, ela vai contrair. A prótese é maleável, pode ficar endurecida e deformada por isso. Mas é algo benigno, não é uma doença como o linfoma".

No final do ano passado, o Brasil retomou a discussão sobre o reconhecimento dos casos de doenças associadas ao implante mamário.

Isso porque a Anvisa suspendeu a importação, comercialização e utilização da prótese feita pela empresa Allergan, na esteira da suspensão do produto no mercado europeu, por ter sido avaliada a "possível associação" ao câncer. Em março, a Agência brasileira liberou novamente a produção da marca após ter pedido a revisão de sete estudos sobre o tema à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

"A avaliação dos estudos indicou que foram encontradas poucas evidências que atendessem as perguntas de pesquisa. A maioria não relaciona o tipo de textura da prótese, nem o tipo de implante, com o linfoma", diz a nota. "No entanto, de acordo com os dados, parece que o uso de prótese mamária aumenta o risco/chance de desenvolver linfoma anaplásico de grandes células associado a implante mamário, apesar de não ser possível estabelecer tal relação causal".

Suzy explica que o caso Allergan incitou a procura das pacientes para fazer o explante. "Mas, o que as sociedades de hematologistas, oncologistas e mastologistas recomendam é tratar a mama de quem fez implante como a de qualquer mulher. Fazer exames e prestar atenção se a mama estiver endurecida, rapidamente se encher de líquido, triplicar o volume", pontua a médica. "Não há estudos que indiquem a retirada preventiva".

Explica, ainda, que há ainda estudos que conectam o implante de silicone a uma nova síndrome, na sigla em inglês, ASIA, ou Síndrome autoimune induzida por adjuvantes.

Um adjuvante é, segundo o dicionário Aulete, substância ou produto (o silicone, no caso) "que intensifica reação imunológica de organismo ao estimular a produção adequada de anticorpos ou linfócitos". Ainda não há unanimidade sobre o tema.

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