Inteligência artificial ajuda a escolher entre cuidado paliativo e tratamento de câncer

Algoritmo acerta em até 82% dos casos quais pacientes vão viver mais de 30 dias com qualidade

São Paulo

Algoritmos de inteligência artificial já são capazes de predizer a qualidade de vida futura de pacientes oncológicos graves, o que pode ajudar doentes, médicos e familiares a decidir por cuidados paliativos em vez de por terapias mais agressivas.

A conclusão é de um estudo inédito da Faculdade de Saúde Pública da USP realizado em dois hospitais oncológicos paulistas, com 777 pacientes com câncer avançado internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Os modelos acertaram em até 82% dos casos se o paciente vai viver mais ou menos de 30 dias com qualidade de vida —por exemplo, com dor e outros sintomas controlados.

Em dois anos do estudo, 66% dos doentes acompanhados morreram, e 45% deles tiveram qualidade de vida de até 30 dias. A sobrevida média foi de 195 dias, dos quais 70 com qualidade de vida.

A dra Maria Goretti Maciel e a equipe de cuidados paliativos visitam pacientes do Hospital do Servidor Público Estadual
A dra Maria Goretti Maciel e a equipe de cuidados paliativos visitam pacientes do Hospital do Servidor Público Estadual - 19.nov.2019 - Zanone Fraissat/folhapress

O trabalho científico, o primeiro sobre predição de qualidade de vida de doentes com câncer, foi publicado no periódico científico internacional Journal of Critical Care.

Hoje, há algoritmos que fazem boas previsões sobre as chances de mortalidade desses pacientes, mas não conseguem prever com precisão a qualidade de vida deles até o fim.

Essa informação, segundo os pesquisadores, é importante para se decidir se vale a pena insistir em mais tratamentos ou partir para os cuidados paliativos —atualmente recomendados para serem iniciados tão logo haja o diagnóstico de uma doença incurável.

“Os médicos ficam com um pé atrás se o melhor é investir na qualidade de vida ou continuar com tratamentos agressivos. É sobre essa decisão que a gente está tentando ajudar com inteligência artificial. Poder dizer: ‘esse paciente, com essas características, tem provavelmente menos de 30 dias de qualidade de vida’”, diz Alexandre Chiavegatto Filho, professor da USP e coordenador da pesquisa.

Mas ainda será necessário testar o modelo com um número maior de pacientes e validá-lo antes que seja colocado na prática clínica.

“Só vamos colocá-los em prática quando tivermos a certeza de que estamos tomando a melhor decisão possível. É a situação do carro sem condutor hoje nos EUA. Ele é algoritmo de inteligência artificial que funciona muito bem, mas que só vão colocar em prática quando estiverem melhores que os condutores humanos. É a mesma coisa.”

Segundo a pesquisadora Hellen Geremias dos Santos, autora principal do estudo, o modelo também precisa ser testado com outros perfis de pacientes oncológicos que não apenas os gravemente enfermos —por exemplo, aqueles que estão com uma forma mais branda da doença.

O estudo foi feito em parceria com médicos intensivistas do HCor (Hospital do Coração) que já estudavam a sobrevida e o tempo de qualidade de vida dessa coorte de pacientes.

“Hoje há uma discussão sobre até que ponto vale a pena admitir um paciente com câncer, gravemente enfermo, em uma UTI, o quanto isso vai trazer um benefício adicional a esse paciente, ou se vale a pena realizar o cuidado paliativo no domicílio”, afirma.

A ideia então foi desenvolver um modelo prognóstico de qualidade de vida projetando um período de 30 dias —que foi o tempo médio de qualidade de vida da coorte— para ajudar o clínico na tomada de decisão de encaminhar ou não um paciente para a UTI ou partir para os cuidados paliativos.

Para o modelo matemático, foram usadas características do pacientes (como história sociodemográfica e clínica do paciente e do câncer e padrões fisiológicos, como hemograma e funcionamento renal).

“Todos os métodos que a gente utilizou tiveram resultados parecidos no sentido de dar certeza ao clínico de que dificilmente estará cometendo um erro na sua decisão”, diz Hellen dos Santos.

Segundo Chiavegatto Filho, em até dois anos será possível acurar ainda mais o modelo preditivo. “Vou ser capaz de falar para o médico: ‘essa pessoa tem probabilidade de 95% de viver mais de 30 dias’. É muito mais forte do que eu falar que sim ou não”, afirma.

Ele afirma que hoje essa incerteza vivida pelo médico sobre o prognóstico é uma das barreiras que impedem o avanço da oferta de cuidados paliativos a doentes sem chance de cura. 

“Não estamos falando que tem que oferecer cuidados paliativos, mas sim abrir essa possibilidade. Se o paciente, os médicos e os familiares tiverem interesse, o modelo aponta quais seriam os candidatos.”

De acordo com ele, o artigo demonstra que a inteligência artificial em saúde é muito promissora. “Com poucos dados e poucos pacientes já conseguimos chegar a uma predição muito boa. Imagina com muitos dados? O prontuário eletrônico, a informação dos dados em saúde ainda são áreas em crescimento no Brasil.”

Para a médica Maria Goretti Maciel, diretora do serviço de cuidados paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual, preditores baseados em sinais físicos são importantes, mas é fundamental levar em conta questões subjetivas que envolvem a pessoa com um câncer avançado.

A médica Maria Goretti Maciel atende paciente do Hospital do Servidor
A médica Maria Goretti Maciel atende paciente do Hospital do Servidor - Zanone Fraissat/Folhapress

“Cadê a percepção do doente? Ou de alguém muito próximo dele, se ele não puder falar? Às vezes, o doente tem um estímulo a mais e isso muda a tua decisão. Quando você só usa isso [modelos matemáticos], você perde toda a subjetividade da decisão.”

Ela cita o psiquiatra espanhol Diego Gracia, uma dos maiores pensadores atuais na bioética, que diz que toda decisão implica naturalmente na observação dos fatos, mas ela jamais será prudente se, junto com isso, não forem observados os valores.

“Durante todo o processo de deliberação sobre cuidados paliativos, a gente se apoia também em dados clínicos, mas também em valores do paciente, da família, em intuição da equipe. Isso se chama arte médica. Se você usa somente fatos clínicos para te apoiar na decisão, você perde metade da sua capacidade de decisão.”

Maciel também diz que o modelo de inteligência artificial parte de um princípio errado sobre cuidados paliativos, como se fossem destinados apenas para o fim de vida.

“A visão que temos hoje de cuidados paliativos é muito mais orgânica, algo que deve fazer parte sempre que a vida estiver sob ameaça”, diz ela.

Criado em 2000, o serviço de cuidados paliativos do Hospital do Servidor Estadual tem uma enfermaria com seis leitos, realiza dez consultas por dia, mas a equipe ajuda na orientação da conduta aplicada em pacientes graves em todo o hospital, especialmente no manejo de sintomas. O serviço atende ainda doentes em casa e oferece estágios para residentes de todo o Brasil.

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