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Professora cria método com toque para ensinar balé a pessoas cegas

Alunas já se apresentaram nos EUA, Argentina, Inglaterra e no encerramento das Paraolimpíadas em 2012

Isabella Faria
São Paulo

Aos 15 anos, a bailarina Fernanda Bianchini fazia trabalho voluntário no Instituto de Cegos Padre Chico, em São Paulo, quando foi notada pela sua postura alinhada.

“Me perguntaram se eu não queria dar aula de balé clássico para as crianças cegas do instituto. De cara pensei que não conseguiria. Não me sentia segura como professora, imagine como professora de meninas tão especiais”, conta.

Nem suas professoras de balé acharam que seria possível e diziam que, por não enxergarem, as alunas não conseguiriam imitar movimentos e não dançariam corretamente.

Fernanda relembra o primeiro passo que ensinou às alunas, o échappé sauté, um pequeno salto no qual as duas pernas abrem ao mesmo tempo. “Foi automático, fiz como minha professora fez comigo. Pedi que elas saltassem como se estivessem saindo de um balde e entrando em um balde até que uma aluna me perguntou o que era um balde.”
 

Ela então desenvolveu o método Ballet Clássico para Deficientes Físicos Visuais, em 2005, e fundou a Associação Fernanda Bianchini - Cia Ballet de Cegos, em 2007.

O método tem como base a audição, o toque e a própria imaginação das bailarinas.

“Começamos apenas dizendo que elas devem esticar o pé, mas quando tocamos nelas e esticamos seus pés, o cérebro entende melhor o jeito de realizar o movimento e a força que tem que ser aplicada”, diz.

As bailarinas também tocam nas professoras para uma melhor compreensão do movimento, além de deitarem no chão para que possam sentir o peso do próprio corpo. As professoras também seguram as alunas no ar, ensinando saltos e deslocamentos.

Apesar de o método ter uma base consolidada, Fernanda pensou várias vezes em desistir de dar aula por não conseguir ensinar a leveza nos braços que uma bailarina deve ter quando dança.

“Um dia, eu sonhei que meus braços eram folhas de palmeiras, que se mexiam com o vento. Foi aí que comecei a fazer esse associação com as alunas, e os movimentos delas saíram mais leves”, diz. “Atiçar a imaginação da bailarina é importante.”

Comparações com elementos da natureza são comuns durante as aulas. Segundo Fernanda, a bailarina é considerada uma árvore: seus pés devem ser fincados no chão como raízes, sua postura deve ser firme como um tronco e os galhos, com suas folhas, são um exemplo de como deve ser a movimentação de uma bailarina, leve e graciosa.

 

“E os movimentos dependem de onde elas querem chegar. Se quiserem, podem alcançar as flores e os frutos também. Eu costumo dizer que há muitas bailarinas que são famosas, mas pararam no tronco”, diz. 

Ensaio da  Cia de Ballet Fernanda Bianchini  onde maioria dos alunos e alunas são deficientes visuais. Professora Patricia Celante, 44, durante ensaio de ballet clássico
Ensaio da Cia de Ballet Fernanda Bianchini onde maioria dos alunos e alunas são deficientes visuais. Professora Patricia Celante, 44, durante ensaio de ballet clássico - Eduardo Knapp/Folhapress

Agora mais focada na parte administrativa da associação, Fernanda considera que foi uma professora exigente, chata, e diz que nunca pensou em pegar leve com as alunas por causa da deficiência. Ela reforça que tudo é ensinado dentro das limitações de cada aluna, mas a técnica clássica é, sim, cobrada.

“Muitas pessoas que fazem trabalho voluntário com deficientes aceitam qualquer coisa. Eu, não, nem os professores que trabalham comigo”, afirma. “Toda vez que entro na sala de aula, tenho vontade de corrigir todos os defeitos que eu vejo. Sempre acho que elas podem mais.”

Cada aluna se torna uma bailarina em seu próprio tempo. Algumas aprendem passos e movimentações apenas pela audição; já outras precisam passar por todo o processo de toque e associação com elementos da natureza. O processo é diferente do método clássico de balé, no qual a individualidade da aluna não é valorizada, segundo Fernanda.

“Todo mundo tem que ser igual e tudo tem que estar igual sempre. E há muita competição também. Não é um ambiente onde você fica plenamente feliz.”

A pressão de ser uma bailarina perfeita e o medo de errar algum passo impediu que Fernanda se realizasse nos palcos. O mesmo não acontece com as suas alunas, que já se apresentaram em vários estados do Brasil e em países como Argentina, Estados Unidos e Inglaterra e no encerramento das Paraolimpíadas de Londres, em 2012.

“Teve um momento em que minhas alunas ficaram melhores do que eu. Hoje elas dançam coreografias que eu nunca dancei e pisam em palcos que eu nunca imaginei pisar”, diz.

A Bailarina e professora Fernanda Bianchini orienta a aluna Cintia Domingues, 28,  portadora de deficiência visual, durante aula na sua Cia de ballet na Vila Mariana
A Bailarina e professora Fernanda Bianchini orienta a aluna Cintia Domingues, 28, portadora de deficiência visual, durante aula na sua Cia de ballet na Vila Mariana - Eduardo Knapp/Folhapress

Dirigindo uma associação na qual 60% dos alunos são deficientes visuais, 30% são alunos com outros tipos de deficiência (auditiva, motora e intelectual) e 10% são alunos sem deficiência, mas de baixa renda, Fernanda diz que finalmente aprendeu o que é balé clássico.

“Eu aprendi muito com o mundo das pessoas com deficiência e elas aprenderam muito com o meu. A gente quer espalhar justamente isso, que é possível esses mundos se unirem e se respeitarem”, diz.

E os primeiros passos já foram dados: sua metodologia está sendo ensinada em escolas de balé cujos alunos não tem nenhuma deficiência.

A associação atende mais de 300 alunos de várias idades e funciona por meio de doações de pessoas físicas, empresas e apresentações motivacionais. Fernanda pretende expandir a grade curricular da associação assim que conseguir sede própria. Criar uma companhia de balé para cadeirantes e uma de dança contemporânea também está nos planos.

“Às vezes eu vou para a plateia e fico chorando baixinho. É muito bonito ver que elas estão sendo aplaudidas pela bela arte que fazem”, diz.

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