Depois do coronavírus, Milão, na Itália, tem segunda com cara de domingo e máscaras se esgotam

Restrições de atividades devem durar ao menos uma semana e afetam metade da população do país

Milão

Como faz quase toda manhã, minha filha de cinco anos, assim que acordou, veio me sacudir para perguntar: "Hoje é dia de escola?". Respondi que sim, mas que não. Apesar de ser segunda-feira, não era um dia de aula. Antes que eu continuasse, ela disse: "coronavírus".

Uma palavra que ouvimos uma centena de vezes desde sexta-feira (21), quando foi deflagrada a crise sanitária que atinge o norte da Itália, onde mais de 220 casos do covid-19 foram confirmados, com sete mortes. Crise, emergência, epidemia, pandemia?

Seja como for, para conter o avanço dos contágios que se alastraram nos últimos dias, governos de seis regiões anunciaram na tarde de domingo (23) a suspensão de todas as atividades escolares, das creches aos cursos pós-universitários. A medida, que afeta cerca de 27 milhões de pessoas (quase metade da população total do país), vale por, pelo menos, sete dias.

Mulher de máscara tira selfie na Piazza del Duomo, no centro de Milão. Região norte da Itália tem sofrido com casos de infecção pelo novo coronavírus, incluindo algumas mortes - Miguel Medina/AFP

Diante disso, Milão, capital da Lombardia e centro financeiro do país, acordou silenciosa. Menos carros, pouca gente nas calçadas, bondes e ônibus quase vazios. No café da esquina de casa, sempre cheio de clientes apressados tomando cappuccinos em pé no balcão, dois atendentes à toa conversavam por volta das 10h: "Parece domingo de manhã".

Na Itália, o feriado de Carnaval é diferente do Brasil. Varia regionalmente e cada escola decide quando parar. Oficialmente, nos institutos infantis da prefeitura só a próxima sexta (28) seria sem aulas.

Rumo ao centro, a maioria das lojas funcionava, ainda que quase sempre às moscas. Salões de manicure, um tipo de negócio frequentemente comandado pela comunidade chinesa, afixaram cartazes avisando o fechamento pelos próximos dias.

Se, para alguns, a decisão de abrir ou não é facultativa, para vários outros, não há escolha. Assim como as escolas, museus, cinemas, igrejas e centros esportivos estão proibidos de operar. Bares devem fechar às 18h. Concursos públicos e feiras de negócios foram cancelados.

Na praça do Duomo, o principal ponto turístico de Milão, bem no centro da cidade, os poucos presentes aproveitavam a ausência de companhia ao redor para caprichar nas fotos. Muitos desavisados deram com a cara na porta –a catedral também está fechada.

As máscaras se tornaram comuns na paisagem. No centro, mais turistas que milaneses pareciam usá-las. Muitos locais, por sua vez, cobriam boca e nariz com echarpes e cachecóis, mesmo num dia ensolarado e relativamente quente para o inverno (chegou a fazer 16°C).

"Decidi colocar a máscara por precaução. Nunca se sabe", disse a estudante italiana Georgia Reali, 25, que chegou à praça do Duomo puxando uma mala de rodinhas. De passagem por Milão, entre um voo internacional e a ida para casa, em Roma, ficou surpresa com a aparente tranquilidade ao redor. "Esperava encontrar o caos, mas não. Tem muito alarmismo pela internet. A situação é grave, mas pensava que veria uma cidade totalmente vazia."

Desde domingo circulam nas redes sociais relatos e imagens de prateleiras dos supermercados sem nada. O medo de entrar em quarentena forçada teria levado italianos a encher os carrinhos.

Se no domingo, antes do anúncio das restrições, o cenário era de normalidade no mercado mais perto da minha casa, nesta segunda, algumas seções estavam desfalcadas: marcas de leite, pães e verduras eram os mais afetados. Mas muito longe de ser uma situação de escassez, os funcionários estavam repondo diversos itens.

O dia foi de apelo das autoridades para que a população não estoque comida. "É uma atitude inútil porque está tudo funcionando, inclusive o fornecimento", disse Attilio Fontana, governador da Lombardia.

"Em vez de pensar em correr para os supermercados, tentemos dedicar esse tempo para cuidar dos mais frágeis, como os idosos, que estão mais sujeitos a riscos", afirmou o prefeito Beppe Sala. "É isso o que uma sociedade sensível e madura faz."

Em extinção pela cidade só mesmo as máscaras e o álcool-gel. As farmácias improvisaram avisos nas vitrines para dizer que o estoque está esgotado. "Talvez na quarta-feira", dizia um dos cartazes.

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