Descrição de chapéu The New York Times

Médicos no epicentro do coronavírus chegam a usar sacos de lixo para proteção

Falta de informações sobre coronavírus causa irritação em chineses

Chris Buckley Amy Qin
Wuhan (China) | The New York Times

Passada uma semana da implementação de um bloqueio do acesso a Wuhan, a raiva e a ansiedade se agravaram na China na semana passada, enquanto a província no centro do país que desempenha um papel predominante no surto de coronavírus enfrenta escassez de leitos hospitalares, suprimentos de saúde e médicos.

Em um sinal da frustração crescente, um parente de um paciente infectado com o vírus agrediu um médico em um hospital de Wuhan, a capital da província de Hubei, noticiou a rede estatal de televisão CCTV na quinta-feira (30), citando a polícia. O homem foi acusado de arrancar e danificar a máscara e traje de proteção do médico – potencialmente expondo-o ao vírus –, depois que seu sogro morreu no hospital. O homem foi preso, mais tarde.

Ao mesmo tempo, os hospitais da região renovaram seus apelos ao público por ajuda no reabastecimento de seus suprimentos, que estão se esgotando. A escassez é especialmente severa em Huanggang, uma cidade de sete milhões de habitantes não muito distante de Wuhan, onde alguns membros de equipes médicas estão usando capas de chuva, e sacos de lixo como proteção para os sapatos, para se defender da infecção, de acordo com o site de notícias financeiras Yicai.

Em meio à crescente inquietação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou uma emergência de saúde mundial, em uma admissão de que a doença agora representa um risco para mais do que a China. Países estão autorizados a decidir se fecham suas fronteiras, cancelam voos ou submetem pessoas a exames nos pontos de entrada em seus territórios. Na noite de quinta-feira, o Departamento de Estado americano instou os cidadãos dos Estados Unidos a não viajar para a China, emitindo um alerta nível 4, que representa o patamar mais elevado de risco de segurança.

Também na quinta-feira, agências do governo chinês anunciaram planos para prover subsídios de até US$ 43 ao dia para os trabalhadores de saúde operando na linha de frente, e reabrir fábricas para ampliar a produção de suprimentos médicos e equipamentos de proteção.

“Certamente não podemos permitir que Huanggang se torne uma segunda Wuhan”, disse Wang Xiaodong, governador da província de Hubei, em declaração a jornalistas na quarta-feira.

Na noite de quinta, líderes da província declararam à imprensa que o diretor do comité de saúde pública de Huanggang havia sido demitido.

 

Para muitos chineses, anúncios firmes do governo, como esses, parecem insuficientes e chegaram tarde demais. A preocupação está crescendo à medida que o total de mortes causadas pelo coronavírus cresce rapidamente, chegando a 245 na segunda-feira (3). Todas exceto uma das mortes recentes aconteceram na província de Hubei; a morte restante aconteceu na província de Sichuan, no sudoeste do país.

Também uma morte foi registrada fora do país, nas Filipinas.

A raiva do público foi alimentada na quinta-feira pela publicação de um novo estudo sobre o coronavírus pelo New England Journal of Medicine, de autoria de uma equipe de pesquisadores afiliados a, entre outras instituições, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da província de Hubei.

Tomando por base dados sobre os primeiros 425 casos confirmados da doença em Wuhan, o estudo afirma que “existem provas de que transmissão entre seres humanos aconteceu desde dezembro de 2019, envolvendo pessoas em estreito contato”.

Os chineses demonstraram irritação, online, perguntando por que o governo havia esperado até 20 de janeiro para informar o público que o vírus era passível de transmissão de pessoa a pessoa. Pela noite de quinta-feira, muita gente estava usando o estudo como prova de que os pesquisadores haviam retido propositadamente informações valiosas, por autointeresse acadêmico.

“Estou a ponto de explodir, preciso de uma explicação dos autores!!!!”, escreveu Wang Liming, professor da Universidade de Zhejiang, em uma postagem amplamente compartilhada de mídia social, que foi rapidamente apagada. “Como pesquisadores com informação em primeira mão, algumas pessoas sabiam que o vírus podia ser transmitido entre pessoas três semanas antes que o público fosse informado. Essas pessoas fizeram o que deveriam”?

Enquanto a China corria para deter o surto, outros países lidavam com o problema de como evacuar seus cidadãos de Wuhan, e de como impedir que o vírus se espalhe.

Pessoas aguardam atendimento médico em Wuhan, cidade epicentro da epidemia de coronavírus, na China
Pessoas aguardam atendimento médico em Wuhan, cidade epicentro da epidemia de coronavírus, na China - Hector Retemala - 24.jan.2020/AFP

A Austrália anunciou um plano para evacuar seus cidadãos que estão em Wuhan para a ilha Christmas, que desempenhou um papel importante mas contencioso no uso de lugares afastados pelo país a fim de abrigar refugiados e outros imigrantes. O anúncio atraiu questões imediatas sobre as implicações de usar a ilha como local de quarentena.

Transportar pessoas para a ilha Christmas não é uma “solução apropriada”, disse o médico Tony Bartone, presidente da Associação Médica Australiana, em entrevista televisiva. Ele disse que o governo dispunha de outras instalações, mais adequadas, como bases militares.

No Japão, surgiu furor sobre a recusa de alguns dos cidadãos que foram evacuados de Wuhan de se submeter a exames médicos.

Dois dos cidadãos japoneses retirados de Wuhan se recusaram a passar por exames em busca do coronavírus, o que levou o primeiro-ministro do país a explicar que cidadãos não podiam ser forçados a se submeter a exames médicos.

Usuários japoneses de mídia social disseram que os viajantes, que chegaram a Tóquio na quarta-feira, estavam colocando o país em risco. Algumas pessoas os chamaram de terroristas.

“Passamos muitas horas tentando convencer os dois egressos de Wuhan” a aceitarem ser examinados, disse o primeiro-ministro Shinzo Abe ao Parlamento japonês na quinta-feira, quando perguntado sobre o tratamento do governo aos cidadãos repatriados. “Mas não existe obrigatoriedade legal, e isso é uma grande lástima”, disse Abe.

A Rússia ordenou que 16 dos aproximadamente 25 postos de fronteira em sua divisa de 4,2 mil quilômetros com a China fossem fechados à meia-noite da quinta-feira, no horário local, por conta do medo cada vez maior quanto ao coronavírus em Moscou.

“Temos de fazer tudo para proteger o nosso povo”, disse o primeiro-ministro Mikhail Mishustin em declarações televisadas durante uma reunião do ministério.

A Itália impediu que milhares de pessoas desembarcassem de um navio de cruzeiro que ancorou no país na quinta-feira, por preocupação de que alguém à bordo portasse o vírus. Ainda que um cidadão chinês que estava febril mais tarde tenha passado por um exame que não constatou infecção pelo coronavírus, e que as autoridades italianas tenham declarado que os passageiros estavam livres para desembarcar, por boa parte do dia o país se viu afligido pelo medo de que o coronavírus tivesse chegado às suas costas.

Essa reocupação provou que tinha justificativas ainda na quinta-feira, quando o governo da Itália reportou os dois primeiros casos confirmados no país, nenhum dos quais relacionado ao navio.

O primeiro-ministro Giuseppe Conte também anunciou que a Itália havia suspendido todos os voos de e para a China.

Nos Estados Unidos, as autoridades de saúde reportaram na quinta-feira o primeiro caso no país de contágio com o coronavírus por contato pessoal. O paciente é marido de uma mulher que foi a primeira paciente do coronavírus reportada no país, em Chicago, informaram as autoridades em comunicado à imprensa. A mulher, que está na casa dos 60 anos, havia retornado algum tempo atrás de uma viagem a Wuhan.

O secretário do comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross, disse que o país via um potencial subproduto positivo nos problemas da China, já que empregadores podem decidir transferir postos de trabalho de volta aos Estados Unidos.

“Não vou falar de celebrar por conta de uma doença muito lastimável e muito maligna”, disse Ross em entrevista ao canal Fox Business. “Mas acho que isso ajudará a acelerar o retorno de empregos à América do Norte. Alguns para os Estados Unidos, mas também para o México”.

As declarações dele podem ter demonstrado falta de sensibilidade diante de um país em crise, e ele já enfrentou críticas por comportamento semelhante no passado. Durante a paralisação do governo federal americano no começo de 2019, Ross disse que os trabalhadores temporariamente dispensados deviam procurar empréstimos, quando eles passaram mais de um mês sem receber.

Com as evacuações e o bloqueio de movimentos, Wuhan, usualmente uma metrópole muito agitada, se tornou uma cidade fantasma. Desde que o acesso à cidade foi para todos os efeitos bloqueado, na semana passada, a maioria das lojas fechou as portas. O governo municipal impôs restrições ao tráfego. A falta de opções de transporte tornou difícil chegar aos hospitais, para os trabalhadores da saúde e para os moradores doentes.

Mas a maioria dos moradores de Wuhan não está saindo de casa, por medo de pegar o vírus.

“Os moradores de Wuhan que não estão doentes não estão nem saindo à rua”, disse Chen Qiushi, um advogado radicado em Pequim que visitou Wuhan depois que o bloqueio foi iniciado, em um vídeo postado em seu blog na quinta-feira. “Os moradores locais estão todos muito assustados”.

Quando os moradores de Wuhan saem à rua, em geral é para ir ao supermercado, lojas de mantimentos e farmácias que se mantiveram abertos como parte de um esforço do governo para abastecer a cidade. As autoridades prometeram que os moradores não teriam de se preocupar com verduras, frutas e outros mantimentos básicos.

Embora os moradores de Wuhan venham conseguindo comprar comida, alguns se queixam de aumentos de preços ou expressaram medo de que um bloqueio prolongado do acesso à cidade terminasse por impedir entrada de comida. E se o bloqueio durar mais que algumas semanas, com o restante da China também na corrida para garantir a oferta de alimentos, as coisas podem ficar sérias, disseram diversos moradores.

“Se produtos frescos não puderem chegar à cidade, a comida vai ficar mais cara ou as lojas podem ter de fechar”, disse Zuo Qichao, que estava vendendo pepinos, nabos e tomates. Enquanto ele falava, uma mulher o acusou de aumentar indevidamente o preço dos nabos.

“Cada município, cada aldeia ao redor daqui está erguendo barreiras, preocupados com a doença”, disse Zuo. “Mesmo que o governo diga que quer que a comida seja garantida, não será fácil – todos aqueles bloqueios de estrada”.

Tradução de Paulo Migliacci

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