Mesmo sem poder visitar filho, pai vai a Anápolis à espera de notícias de quarentena por risco do coronavírus

Famílias organizam faixas de agradecimento por repatriação de brasileiros que estavam na China

Anápolis (GO)

Assim que soube que o filho embarcaria em uma das aeronaves previstas para trazer brasileiros que estavam isolados em Wuhan, na China, epicentro da epidemia do novo coronavírus, o servidor público José Neves de Siqueira Júnior, 60, fez as malas e seguiu em direção a Anápolis (GO).

A viagem, saída de Belo Horizonte, foi planejada por Siqueira Júnior mesmo sabendo que, na prática, não poderia encontrar o filho tão cedo. Assim que chegar ao Brasil na madrugada deste domingo (9), o grupo deve ficar em quarentena por 18 dias em um hotel de trânsito dentro da base aérea da cidade.

"Ele me passou um áudio dizendo que estava voltando por mim. Me senti no dever de vir vê-lo", diz o pai de Vitor Campos, 28, formado em ciências sociais pela UFMG e que fazia estudos de linguística em Wuhan. 

José Neves de Siqueira, pai de Vítor Neves, estudante brasileiro que vem de Wuhan, na China, no avião da FAB, após a epidemia do Coronavírus
José Neves de Siqueira, pai de Vítor Neves, estudante brasileiro que vem de Wuhan, na China, no avião da FAB, após a epidemia do Coronavírus - Pedro Ladeira/Folhapress

Sem acesso à área de quarentena, Siqueira diz que pretende esperar os dias seguintes à chegada para pedir à Força Aérea Brasileira se há possibilidade de entrar na base e ver o filho à distância. "Quero poder ao menos dar um tchau, um afago", afirma.

Assim como outros pais ouvidos pela Folha, Neves descreve o retorno do grupo como "alívio". "Lembro de quando ele me disse: a situação está se agravando. Estamos sem transporte e com medo de ficar desabastecidos", relata. O pai diz que chegou a pedir que o filho voltasse, mas ouviu que ele esperaria o retorno marcado para julho.

Em seguida, veio a notícia de toda a cidade seria isolada e que pessoas deveriam ficar em suas casas na tentativa de conter a transmissão do novo coronavírus.

A situação levou diversos países a buscarem cidadãos que estavam na China. Inicialmente, o presidente Jair Bolsonaro chegou a dizer que o governo não tinha essa intenção. "Comecei a perguntar onde estava a nossa Constituição, que dá direito ao repatriamento", afirma o pai.

A mudança no posicionamento foi anunciada após a divulgação de um vídeo com relatos dos brasileiros. Nesse intervalo, na tentativa de obter apoio, Siqueira diz que enviou, junto com outros pais, pedidos de apoio aos presidentes da Câmara e Senado. Segundo ele, famílias também chegaram a pesquisar o preço de um avião fretado –mas desistiram ao ver que a saída seria impossível. 

"Nem com a gente vendendo tudo para pagar não adiantaria, porque não entrariam no avião [devido às restrições da China para saídas]", diz ele, que passou a entregar cartas em agradecimento em nome de outros pais após o anúncio da operação, apelidada de Regresso.

Na sexta, uma dessas cartas foi entregue à prefeitura de Anápolis, que concordou em organizar com a FAB o espaço para quarentena exigido para operação de retorno do grupo. 

Já no domingo, o plano é instalar faixas em áreas próxima à base área com os dizeres "Sejam bem-vindos #brasilcasadetodos" e agradecimentos ao governo federal, prefeitura, estado e Força Aérea. 

Assim como Siqueira, outros parentes de brasileiros monitoram notícias e contam os dias para o encontro.

É o caso de José Rubens, que pede para não ter o sobrenome revelado, cuja filha, Indira, ajudou a organizar os contatos de brasileiros em busca de apoio para voltar o país. "Ficamos naquela preocupação. Você não pode imaginar como é para quem está longe."

Morador de Alagoas, Rubens planeja viajar à região para buscar a filha após os 18 dias de quarentena. Segundo ele, muitos pais têm receio de que os filhos sofram preconceito no Brasil e por isso têm evitado fazer relatos.

"Mas tem horas que precisamos ir à luta. Se não tivéssemos feito isso, ia ser ainda mais difícil", afirma ele, em referência à operação para retorno e ao isolamento vivido pelo grupo em Wuhan devido ao temor do coronavírus.

Ele diz ter sentido alívio ao ver a imagem do local destinado para a quarentena, com quartos com TV e acesso a uma área verde. 

"Essa era uma das grandes preocupações. Eles temiam ficar presos em um quadradinho por 18 dias. Felizmente o governo atendeu a esse lado humano", afirma.

Para Rubens, a chegada ao Brasil trará mais tranquilidade às famílias e ao grupo. "Que sejam bem vindos."

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