'Mundo está mais preparado para lidar com novos vírus', diz brasileiro na Opas

Para Jarbas Barbosa, vice-diretor da Opas, experiências anteriores ajudaram na detecção precoce do coronavírus

Brasília

Em meio ao aumento no trânsito global, todos os países devem estar preparados para lidar com possíveis casos do novo coronavírus, afirma o médico sanitarista e vice-diretor da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), Jarbas Barbosa.

Um dos nomes à frente do órgão que representa um braço da OMS (Organização Mundial de Saúde) nas Américas, Barbosa diz que a decisão em declarar emergência internacional em saúde pública deve acelerar ações para deter a transmissão.

Jarbas Barbosa é vice-diretor da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) em Washington, foi diretor  da Anvisa e secretário de Ciência e Tecnologia, de Vigilância em Saúde e secretário-executivo do Ministério da Saúde; é médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco (1981)
Jarbas Barbosa é vice-diretor da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) em Washington, foi diretor da Anvisa e secretário de Ciência e Tecnologia, de Vigilância em Saúde e secretário-executivo do Ministério da Saúde; é médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco (1981) - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para Barbosa, nenhum país está livre do vírus, mas é possível adotar medidas para conter o avanço a partir dos primeiros registros. 

O que muda com a declaração de emergência em saúde pública de nível internacional pela OMS?

A declaração reforça a necessidade de manter o alerta alto e que países façam um esforço pela detecção precoce e para evitar que haja transmissão local. 

Também significa que é possível ocorrer a mobilização de recursos internacionais para trabalhar junto com o governo de um país para conter o surto. 

Avalio que a declaração foi acertada. Isso vai possibilitar uma ação internacional combinada com a China mais eficaz para deter a transmissão.

E o que isso muda em relação a avaliação atual sobre o coronavírus?

Não muda, porque a avaliação de risco já é muito alta. Houve um mal entendido de um documento técnico que colocou como moderada, e a equipe da OMS pediu desculpas. 

Mas, internamente, sempre foi essa a avaliação de risco que estávamos lidando: a de risco alto. É um vírus novo que ainda precisamos conhecer bem. Até ter a transmissão interrompida, é preciso manter alerta.

Em um mês, já são mais de 10 mil casos confirmados, a maioria na China. O que podemos esperar?

Até agora, temos uma transmissão sustentada bem comprovada na província de Hubei, onde fica a cidade de Wuhan. 

Dados do Ministério da Saúde da China indicam uma tendência à estabilização da transmissão em Hubei, mas precisamos esperar mais para confirmar.

Fora da China, há casos importados em mais de 20 países, o que é esperado. Essa área da China é densamente povoada e importante do ponto de vista econômico.

Há risco de ter uma transmissão local também em outros países?

Já há ao menos sete casos de transmissão em outros países que tiveram contato direto com outro caso, e não viajaram. Em todos eles, a contaminação se deu de um caso que tinha vindo de Wuhan. 

Ainda não há uma transmissão ocorrendo na comunidade, o que chamamos de transmissão autóctone ou sustentada [quando não se pode mais relacionar casos a um grupo]. Mas isso pode ocorrer, por isso é importante detectar rápido e tomar medidas de contenção. 

O coronavírus deve chegar ao Brasil?

O que devemos fazer nesses casos é sempre trabalhar com um cenário em que é possível que chegue. 

O Brasil é um país imenso e tem muita relação com a China. Todos os países das Américas estão lidando com essa possibilidade. 

Ninguém está minimizando o problema e achando que é impossível chegar. Não. É possível, e por isso deve estar preparado.

É possível evitar o avanço do vírus?

Em um país que recebe um caso, é possível.

Se faz a detecção precoce e toma as medidas de monitoramento de contato, como isolamento do caso, você limita muito a possibilidade de que ocorram outros casos a partir daquele caso inicial. 

Na época do Sars [síndrome respiratória aguda grave, que gerou surto em 2002], o senhor era secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde. Que semelhanças vê com aquele período e o de hoje?

A Sars foi muito mais dramática. Quando se percebeu, já tinha um nível de disseminação maior. 

Tínhamos vários problemas da ocorrência de casos graves em profissionais de saúde, inclusive com mortes. Agora, os casos de profissionais de saúde na China se concentraram em um hospital que lidou com a doença. Há um grau de preparação para proteger o profissional de saúde. 

Vejo essa diferença. 

Outro ponto é que, na época da Sars, não tínhamos o regulamento sanitário internacional, que foi aprovado em 2005. A Sars foi um vetor importante para aprová-lo.

O sr. avalia que há um alarme ou pânico exagerado em relação ao coronavírus?

Há uma atenção que é compreensível com uma doença nova. 

Temos recomendado aos governos que mantenham sempre um fluxo de informação para que as pessoas saibam o que está acontecendo. E recomendado que as pessoas não divulguem notícias falsas. 

O Ministério da Saúde tem orientado que brasileiros evitem viagens à China. Quais as recomendações da Opas nesse cenário?

Seguimos o regulamento internacional. Cada país é soberano. No caso do Brasil, isso pode ter um papel na proteção. 

Mas é importante estar alerta de que nenhuma medida tem uma proteção 100%. Mesmo com as recomendações que podem reduzir o risco, há tem um trânsito intenso de pessoas e tem que se manter o alerta pois pode surgir um caso importado.

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