Descrição de chapéu Coronavírus

Declaração de Trump cria corrida por hidroxicloroquina em farmácias de Washington

Sem comprovação de eficácia contra coronavírus, medicamento também falta em farmácias no Brasil

Washington

"Vendemos tudo. Está todo mundo em pânico." O aviso do atendente da CVS, uma das maiores redes farmacêuticas dos EUA, era sobre a cloroquina, medicamento usado para o tratamento de malária e outras doenças e que também tem sido testado contra o coronavírus.

Em uma das farmácias no centro de Washington, a demanda pelo medicamento aumentou expressivamente em um dia, mesmo vendida apenas sob prescrição médica. "A procura era de dez a 15 diariamente mas, entre ontem e hoje, tivemos centenas de pedidos", completou o funcionário.

A cloroquina --ou sua variante, a hidroxicloroquina-- apresentou resultados promissores em dois estudos muito preliminares contra o coronavírus, mas ainda não há provas de sua verdadeira eficácia.

Donald Trump, por sua vez, fez um pronunciamento bastante otimista nesta quinta-feira (19) sobre essa alternativa e causou uma corrida desesperada às principais farmácias da capital americana.

Presidente norte-americano Donald Trump
Presidente norte-americano Donald Trump - 20.mar.2020 - Jim Watson/AFP

Os funcionários da CVS, com dezenas de unidades em Washington, dizem explicar aos clientes que não é possível confirmar a eficácia do remédio contra o coronavírus, mas os avisos não têm adiantado.

"O medicamente acabou, procure de novo na segunda-feira", era o mantra do fim da tarde desta sexta (20) em uma das unidades da rede de farmácias.

Durante declaração na Casa Branca, Trump disse que havia pedido à FDA, agência responsável pela liberação de remédios nos EUA, que acelerasse o processo para autorizar o uso da cloroquina contra o coronavírus.

Além da malária, o medicamento é utilizado contra lúpus e artrite reumatoide, e o presidente americano diz que é possível conhecer todos os efeitos colaterais pois seu manejo já é popular há mais de 70 anos.

Stephen Hahn, da FDA, ponderou a animação do presidente. Ao lado de Trump durante o pronunciamento, afirmou que era importante não criar "falsas esperanças" e que o órgão trabalha para "garantir que o mar de novos tratamentos leve o remédio certo ao paciente certo no momento certo."

Especialistas destacam a necessidade de estabelecer segurança e eficácia de possíveis tratamentos, inclusive sobre efeitos colaterais e dosagens --ministradas em excesso, substâncias podem levar à morte.


Apesar do alerde para a compra da cloroquina, não houve testes clínicos para determinar se esse remédio de fato funciona contra o novo vírus, mas Hahn não explicou por que a FDA decidiu apoiar seu uso, e tampouco explicou se a medida anunciada representava aprovação formal de um novo uso para os medicamentos.

Diante do alvoroço causado pelas declarações de Trump, a FDA emitiu nota reforçou que os estudos para determinar a eficácia do uso da substância contra o coronavírus ainda estão em andamento e que é preciso provas para que o uso seja feito de maneira correta.

"Caso contrário, corremos o risco de tratar pacientes com um produto que pode não funcionar quando eles poderiam ter procurado outros tratamentos mais apropriados."

Médicos na China e na França disseram que havia indicações de que a cloroquina e sua variante podem ajudar no combate ao coronavírus e muitos hospitais nos EUA já haviam começado a ministrá-las.

Os estudos, porém, foram realizados com um número muito pequeno de pacientes ou in vitro, e ainda precisam de avanços até chegarem a um resultado cientificamente seguro.

Os medicamentos nos EUA custam de US$ 7 (R$ 35) a US$ 20 (R$ 200) e, de acordo com o "Financial Times" somente um laboratório no país fabrica a droga.

A CVS criou um número de telefone para tirar dúvidas sobre o coronavírus e ali atendentes aproveitam para, quando perguntados sobre a substância, explicarem que ela só é vendida sob receita e que, apesar da alta procura, não há provas de que funcione contra coronavírus.

"Hoje ela é utilizada para pacientes de malária, lúpus e outras doenças" e sua escassez pode prejudicar essas pessoas.

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