Diário de confinamento: 'Não estamos de férias, mas em estado de alarme'

'Somos uma nação alarmada —mas podemos ir ao cabeleireiro'; leia relato

Mulheres usam máscara nas ruas de Barcelona
Mulheres usam máscara nas ruas de Barcelona - Nacho Doce/Reuters
Susana Bragatto
Barcelona

Dia #1: Sábado à noite, 14 de março. Cena: um bairro qualquer, um apartamento qualquer, umas pessoas

Todo mundo encarapitado no móvel-rei da casa no momento, o sofá, vendo o pronunciamento do presidente Pedro Sánchez, depois de reunião extraordinária de 7 horas com o Conselho de Ministros. É anunciado o que a gente já sabia: o estado de alarme por conta da pandemia de coronavírus, aka Covid-19, passa a valer em toda a Espanha desde já, noite de sábado, por pelo menos 15 dias.

Na prática, isso significa não sair de casa pra nada, a não ser por absoluta necessidade: mercado, farmácia, trabalho (se for dos poucos que não entraram em suspensão laboral ou home office), cuidar de pessoas em risco. Depois de um breve silêncio, alguém comenta: “Pelo menos a gente vai poder ir no cabeleireiro” ("peluquería", em espanhol).

O serviço é um dos poucos que vão permanecer abertos nos próximos dias, e num "coronaritmus" alucinante de poucas horas) já rendeu uns memes interessantes.

Ato seguido, vou tomar um ar no terraço (a gente tem uma sorte tremenda, tem um terraço com espaço inclusive pra minha yoguinha matinal) e falo pra mim mesma: calma, Susana, respira [segura 10 segundos, integridade respiratória, check]. Antecipo a sensação de não poder ir até a esquina. De não poder ir e vir. De ter.que.ficar.entre.quatro.paredes.por.indefinidos.dias. Eu e todo o país já imaginávamos, mas sabe como é. O transe coletivo de cair na real em cadeia nacional.

Meu namorado catalão, que mora em uma cidade ao lado de Barcelona e de quem terei que ficar provavelmente isolada por um tempo, me envia um zapzap: "Amor, eles falaram 15 dias, mas acho que é pra não alarmar a população. Os casos na Espanha atualmente duplicam a cada três dias: (pensa) dia 14–6.000, dia 17–12.000, dia 20–24.000…. 'Eso va para largo'" — (Tradução: Isso vai se arrastar por um tempo..)

Logo depois, às 22h de sábado, escuto aplausos aqui e ali, somando-se em ondas de entusiasmo mediano, tipo pirilampos sonoros em meio ao mar de edifícios residenciais à minha frente (Barcelona é uma cidade fundamentalmente horizontal, e os amplos horizontes são uma de suas características urbanísticas): é o jeito de a população agradecer ao pessoal da saúde pública, heróis do momento. Depois de aplaudir comigo um momento, minha roomie [colega de apartamento], que é peruana e vive em Barcelona há duas décadas, faz uma cara resignada, ouvindo as palminhas meio chabilsen-hesitantes da noite: “É. Quando é pelo independentismo, aí, sim, usam panelas”.

Dia #2: ‘Não estamos de férias. Estamos em estado de alarme"

Domingo, 15 de março. Cena: roupas no varal, casa desinfetada, tevê ligada na Netflix

Da minha janela no bairro de La Sagrera, em Barcelona, o primeiro dia do estado de alarme espanhol amanheceu silencioso, entre nuvens e muitos posts/mensagens/correntes/memes/teorias conspiratórias (e receitas de bolo de caneca).

Entre os desencontrados temas, uma preocupação generalizada com o ibuprofeno. Tudo graças ao tweet de ontem do ministro da Saúde francês, Olivier Véran, médico neurologista, desaconselhando o uso de antiinflamatórios (leia-se: ibuprofeno, naproxeno, aspirina...) por poderem ser “um fator agravante da infecção”. “Em caso de febre, tome paracetamol”, recomendou.

Fast forward pro meu whatsapp hoje, com alarmadas correntes antiibuprofeno, encaminhadas sabe-se lá de que profundezas das nuvens cinzentas, espalhando que “há casos de pessoas jovens que entraram na área de reanimação (sic)” e incluso “algum que faleceu de coronavírus depois de tomar ibuprofeno”. Muito relaxante.

A celeuma foi tanta que o Departamento de Saúde da Catalunha declarou hoje que “não há nenhuma evidência nem motivos para estabelecer uma contraindicação do ibuprofeno como tratamento de sintomas menores”.

O ideal seria seguir o famoso protocolo de consulte-seu-médico. O único detalhe é que o meu/seu/nosso médico está ou de quarentena ou atendendo 132089 pessoas neste.exato.instante.

Outro apelo circulando é o de uma mãe de uma criança celíaca que pede às pessoas que parem de comprar alimentos sem glúten: “Tive de visitar três Mercadonas [grande rede de supermercado local] para poder encontrar macarrão e coisas para ela (...) Eles não podem comer outra coisa, vocês sim! Isso é uma loucura”.

À boca pequena, algumas pessoas me comentavam que queriam sair hoje, mesmo com o toque de recolher. Muita gente parecia ainda acreditar que o domingo seria o último dia de ‘liberdade’, e que a coisa ia ser pra valer só a partir de segunda-feira. Wrooong...

Pela manhã, um carro-patrulha da polícia equipado com alto-falantes passou em frente ao meu edifício mandando todo mundo pra casa. No fim da tarde, as ruas vizinhas estavam praticamente vazias. Os ocasionais passeadores-de-cachorro, corredores e ciclistas desapareceram.

Vídeos de hoje circulando pela internet mostram policiais em todo o país expulsando gente de praias, bulevares e calçadas. Em um deles, um carro da polícia circulando por uma praia declama algo como “não se pode correr na praia, não se pode permanecer na praia! É obrigatório ir para suas casas. É sancionável. Cavalheiro, vista-se e abandone a praia! Não estamos de férias. Estamos em estado de alarme”.

Esta segunda é dia de aventura: vou sair pra comprar pão e ir ao médico.

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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Leia a parte 3 do diário de confinamento em Barcelona: 'A vida vista de cima'

​Leia a parte 4 do diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

​Leia a parte 5 do diário de confinamento em Barcelona: 'O perigo mora em casa'

Leia a parte 6 do diário de confinamento em Barcelona: 'Solidariedade em tempos de vírus'

Leia a parte 7 do diário de confinamento em Barcelona: 'O lado utópico da crise'

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