Descrição de chapéu Coronavírus

Diretor da OMS melhorou saúde na Etiópia e integrou regime autoritário

À frente do combate a pandemia, Tedros Ghebreyesus tem perfil técnico, mas foi criticado por conivência com repressão

São Paulo

Ao formalizar sua candidatura para o cargo de diretor-geral da OMS (Organização Mundial de Saúde), no final de 2016, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, 55, parecia prever a pandemia que enfrentaria.

"No mundo cada vez mais interconectado de hoje, emergências de saúde pública podem afetar qualquer um em qualquer lugar", escreveu, na ficha de inscrição para o processo seletivo da entidade.

"As crises recentes de zika e ebola mostram os perigos de estar despreparado", concluiu.

O director-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista sobre o coronavírus - Fabrice Coffrini/AFP

Três anos depois, "Dr. Tedros", como é conhecido, é a principal face pública do esforço internacional para combater o coronavírus.

O estilo cauteloso vem recebendo elogios por conseguir passar a mensagem de que não há motivo para pânico, mas também críticas pelo que foi visto como lentidão para reconhecer o tamanho do problema.

No final de janeiro, quando a crise ainda estava em estágio relativamente inicial, a OMS primeiro considerou que o risco para a saúde pública global era moderado. Depois admitiu o erro e elevou a avaliação para risco elevado.

O passado como diplomata pode ter influenciado no modo como ele encara a pandemia. Entre 2012 e 2016, Tedros foi ministro das Relações Exteriores da Etiópia, e no cargo construiu reputação de ser um conciliador.

Mediou o conflito na vizinha Somália, debelou uma possível crise com o Egito causada pelo projeto de construir uma hidrelétrica no rio Nilo e engajou-se ativamente no combate à epidemia de ebola no oeste africano.

Antes disso, entre 2005 e 2012, foi ministro da Saúde de seu país, e recebeu elogios da comunidade internacional pelas políticas de redução da mortalidade infantil e combate à desnutrição.

"O país passou de um estado de extrema miséria para um de pobreza digna. Para quem está de fora parece não fazer muita diferença, mas é uma mudança importante", diz Rômulo Neves, diplomata brasileiro que serviu na embaixada na Etiópia entre 2012 e 2014, período de Tedros como chanceler.

Uma diferença evidente é que as imagens de crianças esquálidas na Etiópia, que nos anos 1980 mobilizaram artistas pop como Michael Jackson e Bono, não existem mais.

Responsável pelo setor comercial da embaixada brasileira na época, Neves recorda-se de uma ação de Tedros quando era ministro da Saúde que o surpreendeu.

"Ele entrou em contato com um empresário brasileiro fornecedor de incubadoras para bebês em UTIs e queria comprar mil unidades. Isso sem licitação nem nada, apenas pesquisando o menor preço na internet", afirma Neves. O negócio acabou fechado.

No documento em que apresentou sua inscrição para a OMS, Tedros mostrou o que seria o resultado dessa abordagem pragmática na gestão da saúde pública: redução de dois terços na mortalidade infantil em seu país, de 90% nas infecções por HIV, de 75% nos óbitos por malária e de 64% nos por tuberculose.

A biografia do diretor-geral ilustra bem as idas e vindas de uma região especialmente turbulenta da África. Ele nasceu em 1965 em Asmara, na época território etíope e atualmente capital da Eritreia.

Nos anos 1970, era estudante de medicina quando conheceu um colega carismático que seria fundamental para sua carreira política. Era Meles Zenawi, que depois lideraria a guerrilha responsável por derrubar uma ditadura marxista em 1991 e seria o homem forte da Etiópia até sua morte, em 2012.

Tedros não teve papel destacado na luta armada e foi especializar-se na área de saúde. Fez mestrado em doenças infecciosas pela Universidade de Londres e doutorou-se pela Universidade de Nottingham, ambas na Inglaterra.

Mas manteve-se como um dos principais membros políticos da cúpula do regime, uma proximidade que lhe causou algumas das principais dores de cabeça na sua campanha para dirigir a OMS.

O longo governo de Zenawi, embora elogiado por reduzir a pobreza, também era marcadamente autoritário. Nunca se ouviu um comentário crítico por parte de Tedros sobre ações como a repressão do governo a protestos da oposição em 2005, que deixaram 199 mortos após uma eleição com fortes indícios de fraude.

Nas redes sociais, surgiu a hashtag #NoTedros4WHO (Não Tedros para a OMS), mencionando também epidemias de cólera que ele teria escondido quando ministro, alegação que negou.

Mas isso não foi suficiente para impedir sua vitória em maio de 2017 para um mandato de cinco anos, o primeiro africano eleito para o posto.

Habilidoso, o etíope foi aos poucos construindo o apoio a seu nome, numa longa campanha eleitoral. Primeiro conseguiu ser aclamado como candidato dos países africanos, em janeiro de 2016.

Depois foi atrás dos emergentes, e conseguiu amarrar o apoio do Brasil.

"Ele tem uma visão técnica aliada à sensibilidade política. É um especialista em doenças tropicais e infecciosas, o que para nós teve grande peso", afirma Ricardo Barros, que era o ministro da Saúde na época.

Às vésperas da Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, o Brasil enfrentava desconfiança internacional por um surto de zika. Tedros, candidato, deu declarações em apoio à posição oficial brasileira de que a situação estava controlada, lembra Barros. "Isso foi muito importante naquele momento", diz o ex-ministro.

Eleito, Tedros retribuiu o apoio nomeando para sua equipe a médica Mariangela Simão, indicação do governo brasileiro.

Com 30 anos de experiência e passagens pelo programa da ONU de combate à Aids e pelo Ministério da Saúde, ela ocupa o cargo estratégico de diretora-geral-assistente de Medicamentos, Vacinas e Produtos Farmacêuticos da OMS. ​

Pai de cinco filhos, o diretor-geral tem como hobbies a leitura, a história mundial e as viagens para conhecer culturas diversas, segundo informou à OMS.

Também é tido como alguém que não se esquece dos aliados, o que já o tornou alvo de críticas.

Como chanceler etíope, era um forte aliado do governo chinês, que tem múltiplos investimentos em infraestrutura no país. Na OMS, teve só elogios para a resposta chinesa à crise do coronavírus, sem mencionar a perseguição do regime a cientistas que denunciaram a demora do governo local em agir.

A derrapada mais constrangedora ocorreu em outubro de 2017, quando nomeou o ex-ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, para o cargo de embaixador da boa-vontade da OMS.

Mugabe era o presidente da União Africana quando o órgão chancelou o apoio à candidatura de Tedros. Em meio a uma torrente de críticas, foi obrigado a recuar da indicação do aliado quatro dias depois.

Erramos: o texto foi alterado

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, nasceu em 1965, e não em 1955. Ele estudou medicina nos anos 1980, e não 1970. O texto foi corrigido.

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