Escolas fechadas e controle em fronteira contra coronavírus crescem na Europa

Grau das medidas varia muito entre países e independe do número de doentes ou de mortos

Amsterdã

Eventos proibidos, aulas suspensas, voos cancelados e checagens nas fronteiras são medidas tomadas nos últimos dois dias por mais governos europeus, para tentar evitar que seus países cheguem a uma situação como a da Itália (10.149 casos, 631 mortes), que colocou toda sua população em quarentena por causa do pandemia do novo coronavírus.

Elas se somam às que já vinham sendo anunciadas desde segunda, mas o grau varia muito de um país a outro.

Enquanto o Reino Unido (456 casos, 6 mortes) declara que vai evitar ações drásticas até o último momento, a Polônia, com número bem menor de casos (27, nenhuma morte), suspendeu aulas em todas as escolas, proibiu qualquer tipo de evento público e implantou controle em todas as fronteiras.

Na Alemanha (1.629 casos, 3 mortos), eventos com mais de mil pessoas foram proibidos na maioria dos estados (incluindo a cidade de Berlim), e a primeira-ministra, Angela Merkel, pediu que a medida fosse estendida a todas as partidas de futebol no país.

Nesta quarta, Merkel disse estimar que até 70% da população pode ser contaminada pelo coronavírus, mas a Alemanha não fechou suas fronteiras ou implantou controles sanitários na divisa com a Itália, como já fizeram Suíça (613 casos, 3 mortos), Áustria (206 doentes, sem mortes) e Eslovênia (57 casos, 0 morte), nem fechou escolas.

Aulas foram suspensas por pelo menos 14 dias em universidades eslovenas e austríacas e em todos os níveis de ensino na Grécia (90 casos, nenhuma morte), em várias cidades (incluindo Madri) da Espanha (2.174 casos, 79 mortos), além da Itália e da Polônia.

Nesses países, o fechamento das escolas, principalmente das creches e instituições infantis, está provocando protestos de pais, que não têm com quem deixar seus filhos para trabalhar. O governo italiano anunciou um auxílio de 600 euros mensais para pagar pelo cuidado de crianças de até 12 anos.

Outra preocupação é a de que as crianças sejam deixadas com os avós, justamente a parcela em que é maior a probabilidade de morrer por complicações da doença, e acabem servindo como vetores de contágio.

Vários países cancelaram voos para a Itália, como a Espanha, ou implantaram controles especiais no aeroporto para viagens vindas de lá, como no caso da Eslovênia.

O governo britânico soltou um comunicado nesta quarta dizendo que não pretende cortar voos nem proibir viagens, mas recomendando que idas à Itália sejam evitadas e que moradores que estiveram naquele país se auto-isolem por 14 dias. Também pediu que turistas obedeçam a recomendação do governo italiano de voltar para casa.

Eventos com mais de mil pessoas foram proibidos na Bélgica (314 doentes, 1 morto), na França (1.784; 33) e na Espanha. Todos os jogos do futebol espanhol devem ser feitos sem torcida.

A Eslovênia estuda proibir aglomerações de mais de cem pessoas em lugares fechados e mais de 500 em locais abertos, como já fez a Áustria, e hospitais suspenderam procedimentos não urgentes.

O surto tem feito baixas também entre os políticos. No Reino Unido, a ministra da Saúde, Nadine Dorries, foi diagnosticada nesta quarta com a doença.

Sessões parlamentares foram canceladas no Parlamento Europeu e na Espanha, onde todos os deputados do partido de direita espanhol Vox se colocaram em auto-isolamento depois que um deles teve a contaminação por coronavírus comprovada.

A Bélgica e a Espanha foram dois dos países que recomendaram que as pessoas prefiram o trabalho em casa, embora pesquisas, como a do instituto YouGov, no Reino Unido, mostrem que a maioria dos trabalhadores diz que sua profissão não pode ser exercida de forma remota.

Apesar da disparidade entre as medidas nos vários países europeus, a Comissão Europeia, que funciona como Poder Executivo do bloco de 27 países, tenta coordenar as políticas de prevenção e combate. Os ministros da Saúde participam diariamente de uma conferência telefônica, e uma comissão de virologistas foi montada para estimar a progressão da epidemia e fazer recomendações.

A União Europeia também está estocando equipamentos de proteção e de terapia respiratória e reforçando sua produção, para atender a serviços de saúde em casos de emergência.

O bloco destinou 140 milhões de euros (cerca de R$ 800 milhões) para pesquisas de vacina, diagnóstico e tratamento.

A progressão da doença e o número de casos fatais também varia muito de país para país. A Alemanha, que tem um dos três maiores números de casos do continente, só contabilizou um morto na terça (11), e Bélgica e Irlanda registraram nesta quarta sua primeira morte.

COTOVELAÇO

Cumprimentos com os cotovelos, ou "the elbow thing" (a coisa com o cotovelo), como vêm sendo chamados, começaram a se tornar comuns em Amsterdã desde que o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, foi à TV  pedir que a população evitasse apertos de mão, que podem transmitir o coronavírus.

O pronunciamento de Rutte ganhou repercussão porque, logo depois de pedir que as pessoas usassem os cotovelos ou o que chamou de "beijo de pés" (em que as pessoas se cumprimentam com uma batidinha lateral dos pés), o primeiro-ministro encerrou sua fala e estendeu a mão para o âncora de TV que estava ao seu lado.

Alertado por ele, riu, pediu desculpas e fez "a coisa com o cotovelo".

Nestas terça e quarta-feira, a Folha viu vários holandeses escolherem o cumprimento com os cotovelos ao encontrarem conhecidos. Em alguns casos, a sugestão era feita por um dos interlocutores, enquanto o outro ficava com a mão estendida no ar. Em outros, o cotovelo já era mostrado antes que a outra pessoa pudesse pensar em estender a mão.

Moça de cabelo curto preto encosta o cotovelo no cotovelo de moço de cabelo crespo loiro e comprido
Holandês cumprimenta amiga argentina com o cotovelo, tática usada em Amsterdã para evitar apertos de mão, por causa do coronavírus - Danilo Verpa/Folhapress

A solução holandesa evita impasses como os presenciados em Lisboa, onde o costume entre conhecidos é se cumprimentar com dois beijos.

Desde que o coronavírus chegou a Portugal, portugueses começaram a hesitar quando se encontravam, já que tanto os beijos quanto os apertos de mão podem transmitir o vírus.

Um estudo publicado em 2014 por pesquisadores da Universidade Aberystwyth (Reino Unido) mostrou que apertos firmes de mão transmitem o dobro de patógenos (como bactérias e vírus) que apertos leves.

Um "high-five", cumprimento com as mãos espalmadas, transmite um pouco menos, e um soquinho, ou  "fist bump", transmite menos de um quarto do cumprimento-referência.

"A coisa com o cotovelo" e o "beijo de pés" não foram testados no estudo de 2014.

homem de roupa preta toca cotovelo no cotovelo de moça de casaco bege
Em Amsterdã, amigos holandeses se cumprimentam com os cotovelos - Danilo Verpa/Folhapress

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