Descrição de chapéu The New York Times

Trabalhar em casa para evitar o coronavírus é um luxo que muitos trabalhadores não têm

Um dia de licença? Não é tão fácil se você ganha por dia trabalhado e não tem seguro saúde

Claire Cain Miller Sarah Kliff Margot Sanger-Katz
Nova York | The New York Times

Não vá trabalhar se você estiver doente. Consulte um médico. Use um banheiro separado das pessoas com quem você mora. Prepare-se para o fechamento das escolas e para trabalhar em casa. Essas são medidas que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC na sigla em inglês) recomendam para conter a epidemia de coronavírus nos Estados Unidos.

Mas são coisas muito mais fáceis de fazer para certas pessoas —em particular, profissionais com altos salários. Os trabalhadores no setor de serviços e quem tem empregos temporários têm muito menor probabilidade de ter licenças médicas pagas, a capacidade de trabalhar a distância ou seguro-saúde pago pelo empregador.

A disparidade pode tornar mais difícil conter o novo coronavírus —que causa uma doença respiratória chamada covid-19— nos Estados Unidos do que em outros países que têm benefícios universais como atenção à saúde, como o Brasil, e licenças médicas remuneradas, segundo especialistas.

Um grande segmento de trabalhadores não pode ficar em casa, e muitos deles têm empregos que incluem intenso contato com outras pessoas. Também pode significar que os trabalhadores de menor renda sejam mais atingidos pelo vírus.

 

"Muito rapidamente ele vai circular muito mais depressa nas comunidades mais pobres do que nas ricas", disse o doutor James Hadler, ex-epidemiologista do Estado de Connecticut e hoje consultor do governo.

 

Seu trabalho descobriu que as infecções pelo vírus influenza tendem a atingir bairros de baixa renda de forma mais agressiva que os bairros afluentes, e que as famílias pobres têm maior probabilidade de viver em locais pequenos com outras pessoas e compartilhar banheiros.

A desigualdade de acesso a medidas de precaução segue as mesmas linhas que dividem os EUA de outras maneiras: renda, educação e raça.

 

É definitivamente uma questão de equidade", disse Alex Baptiste, conselheiro político de programas de locais de trabalho na Parceria Nacional para Mulheres e Famílias, um grupo de defensoria sem fins lucrativos. "Você tem não apenas a disparidade econômica, mas também uma disparidade racial entre os que têm esse acesso e podem cuidar de si mesmos e suas famílias."

Portia Green, 33, funcionária de um restaurante em Nova York, não tem licença remunerada nem seguro-saúde. Se as escolas fecharem, como mãe solteira ela não teria creche. Um dia sem trabalhar significa perder cerca de US$ 100, disse ela, e se tivesse de tirar mais que alguns dias de licença perderia o emprego. Os restaurantes em que ela trabalhou têm pessoal de menos e não podem chamar substitutos com facilidade, explicou ela, e a expectativa é de que você trabalhe a menos que esteja "verde".

"Eles vão pressioná-la para trabalhar de qualquer maneira", disse Green, que é membro do grupo de defensoria Centros Unidos de Oportunidades em Restaurantes, em Nova York. "Você vai trabalhar, toma uma vitamina C, e se conseguir você trabalha."

A maior disparidade para os trabalhadores é o acesso ao atendimento de saúde: nos Estados Unidos, cerca de 27,5 milhões de pessoas não têm qualquer forma de seguro-saúde. Isso as torna menos propensas a buscar atenção médica quando adoecem ou a ter acesso a benefícios de saúde preventiva que poderiam ajudá-las a evitar doenças. Os não segurados têm renda desproporcionalmente baixa.

Os trabalhadores também têm acesso desigual ao trabalho remoto. O governo recomendou que as pessoas trabalhem em casa num surto de coronavírus, mas apenas 29% dos trabalhadores americanos podem fazer isso, segundo dados do Departamento do Trabalho. Eles tendem a ser os de nível educacional superior e de salários maiores.

Em um dia médio, 35% dos mais bem remunerados e 8% dos menos remunerados passam algum tempo trabalhando em casa. Gerentes e profissionais são mais propensos a isso, e trabalhadores das indústrias de serviços e da construção menos propensos. Quase a metade dos trabalhadores com formação superior fazem uma parte do trabalho em casa, assim como um terço dos com formação secundária. Apenas 12% dos que não foram à faculdade trabalham em casa.

Para muitos trabalhadores, estar doente significa escolher entre ficar em casa ou ser pago. Um quarto dos trabalhadores não tem acesso a licenças médicas, segundo o Departamento do Trabalho: dois terços dos que ganham menos, mas apenas 6% dos que ganham mais. Somente alguns estados e governos municipais aprovaram leis de licença médica.

Apenas 60% dos trabalhadores em serviços podem tirar licença paga quando estão doentes —e eles também são mais propensos que os trabalhadores em escritórios a entrar em contato com o corpo ou o alimento de outras pessoas.

"Quando você fala em licença remunerada e quem deve ficar em casa, são os que mais precisam que não têm acesso a isso, os que irão trabalhar doentes e tocando sua comida, suas malas, entrando em contato diário com sua vida", disse Kris Garcia, 43, funcionário de aeroporto em Denver.

Ele não vai receber licença paga enquanto não tiver trabalhado seis meses no emprego, e mesmo então pretende guardá-las para tratar uma doença crônica, a hemofilia. "Acho que as pessoas devem ficar em casa", disse Garcia, que ajuda um grupo de defensoria em questões como licença remunerada chamado Valores Familiares no Trabalho. "Mas eu sei que vou precisar de infusões, enquanto se eu estiver tossindo e com febre posso trabalhar durante cinco horas."

As evidências mostram que as licenças remuneradas diminuem a disseminação de doenças. Um estudo sobre leis estaduais que exigem que os empregadores deem licenças pagas por doença descobriu que as infecções estaduais por influenza caíram 11% no primeiro ano depois da aprovação, em comparação com lugares que não adotaram essa mudança. Um trabalho anterior, sobre leis municipais, mostrou um efeito semelhante, mas menor. (Há diferenças entre influenza e o novo coronavírus, mas as duas doenças são transmitidas de maneiras semelhantes.)

"Está muito claro: quando as pessoas não têm acesso a licença médica elas vão trabalhar doentes e espalham a doença", disse Nicolas Ziebarth, professor associado de economia na Universidade Cornell, que foi coautor dos dois trabalhos.

Mas as licenças pagas só funcionam se as pessoas as tirarem. Mesmo quando os trabalhadores têm licença paga, a cultura americana costuma recompensar quem vai trabalhar a qualquer preço. Em um mês médio, 10% dos trabalhadores disseram que precisariam tirar uma licença, mas não o fizeram, e a razão mais comum foi por estarem doentes, segundo o Departamento do Trabalho.

Os principais motivos para não tirarem licença quando precisavam eram ter trabalho demais, temer repercussões negativas ou não poder ficar um dia sem pagamento.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.