Falta de cotonetes impede hospitais dos EUA de fazerem testes para coronavírus

Profissionais de saúde relatam também escassez de máscaras e outros equipamentos de proteção

The New York Times

A capacidade dos Estados Unidos de testar o coronavírus está se expandindo, mas hospitais e clínicas dizem que outro obstáculo os atrapalha: a escassez de cotonetes e equipamentos de proteção para os profissionais de saúde.

Na UCSF Health —sistema hospitalar da Universidade da Califórnia em San Francisco, que está no centro de um dos surtos de coronavírus do país— as autoridades disseram que teriam de suspender os testes em pacientes daqui a aproximadamente cinco dias, porque ficarão sem cotonetes, os bastões plásticos com ponta de algodão que são inseridos nas cavidades nasais dos pacientes para obter amostras para testes.

Outros hospitais de outras partes dos EUA estavam cancelando a prática de usar um segundo cotonete para testar a gripe, na tentativa de preservar o suprimento.

O principal fabricante dos bastões, a Copan, é uma empresa italiana no norte do país, região que foi bastante afetada pelo surto de coronavírus. A empresa afirma que aumentou a fabricação para enfrentar a demanda extraordinária por um produto corriqueiro, no qual poucos médicos pensavam até agora.

"Nós não estávamos realmente pensando em qual era nosso suprimento de cotonetes porque realmente não enfrentamos nada que os esgotasse antes", disse o doutor Josh Adler, diretor clínico da UCSF Health.
Para dificultar as coisas, os bastões precisam ter os ingredientes certos —não podem ser de madeira, por exemplo— para que o vírus seja detectado corretamente. "Você não pode comprá-los no supermercado", disse ele.

Na quarta-feira, a UCSF Health informou que havia conseguido mais um suprimento de cotonetes por dois dias.

A doutora Ulrike Sujansky, médica particular em San Mateo, na Califórnia, uma das áreas com mais casos de coronavírus, disse que só conseguiu testar alguns pacientes devido a problemas de fornecimento.

"Não pudemos testar", disse ela. Os kits de cotonetes que ela encomendou às duas maiores empresas de laboratório, LabCorp e Quest Diagnostics, chegaram atrasados ou não eram do tipo certo, disse ela. A médica também não tem máscaras ou suprimentos de proteção adequados, apesar de semanas de esforços para comprá-los e apelos recentes a autoridades de saúde estaduais e hospitais locais.

"Não tenho ferramentas para lidar com essa grande crise."

Após uma oferta ineficaz de testes de coronavírus em fevereiro, o governo Trump tentou expandir rapidamente o número de testes disponíveis, reduzindo os obstáculos regulatórios e aprovando testes comerciais feitos por empresas —como Roche e —Hologic, cujas máquinas podem processar milhares de amostras por dia. As principais empresas de laboratório, como LabCorp e Quest Diagnostics, aumentaram sua capacidade, assim como os laboratórios hospitalares de todo o país.

Mas a escassez de suprimentos como cotonetes agora ameaça esse esforço mais amplo de testes. A Premier, que compra suprimentos médicos para muitos hospitais dos EUA, disse que seus membros também estão enfrentando problemas.

"Nossos hospitais estão ansiosos para ajudar a expandir o acesso aos testes, mas estão lutando para fazê-lo sem os suprimentos necessários", disse Soumi Saha, diretora sênior de advocacia da Premier. Ela disse que a empresa solicitou informações adicionais à Agência de Alimentos e Drogas (FDA na sigla em inglês) sobre como lidar com a escassez de cotonetes dias atrás, mas não obteve resposta.

Na quarta-feira (18), a FDA afirmou em comunicado: "Ouvimos preocupações de laboratórios que têm dúvidas sobre a disponibilidade de certos suprimentos. Estamos atualizando as orientações para laboratórios e desenvolvedores de testes, fornecendo informações sobre fontes alternativas de reagentes, kits de extração, cotonetes e outros". A agência disse que também criou uma linha telefônica gratuita, 1-888-INFO-FDA, para ajudar os laboratórios com perguntas sobre aprovações ou suprimentos.

Gabriela Franco, porta-voz da Copan, que faz os bastões para testes, disse que a empresa aumentou a produção em sua fábrica em Brescia, na Itália, para 24 horas por dia, sete dias por semana.

"Estamos pedindo aos nossos clientes e distribuidores que racionalizem seus pedidos para que possamos maximizar a entrega", disse ela, acrescentando que nos Estados Unidos uma temporada agitada de gripe já tinha esgotado o estoque. A empresa detém cerca da metade do mercado de cotonetes para testes nos Estados Unidos.

Ela disse que o isolamento na Itália --que foi duramente atingida, com mais de 2.500 mortes-- não afetou os negócios ou a exportação de mercadorias.

Segundo ela, a empresa toma precauções para proteger seus trabalhadores e manter a produção.

"Estamos trabalhando com as autoridades regionais e nacionais italianas para preservar as condições atuais de fabricação, a fim de servir o mundo com nossos produtos, mesmo que sejam aplicadas restrições mais pesadas", disse ela.

O déficit de cotonetes é apenas um exemplo da tensão na cadeia de suprimentos com a demanda global por testes de coronavírus. Os testes também foram prejudicados pelo fornecimento cada vez menor de kits de extração de RNA, necessários para retirar o RNA das amostras para executar os testes em muitos casos. Em resposta, o FDA aumentou o número de produtos de extração que podem ser usados nos testes.

A escassez de máscaras, aventais e outros equipamentos de proteção individual —que pressionam muitas outras áreas de atendimento médico— também está prejudicando os testes. Os pacientes geralmente espirram ou tossem quando o bastão é inserido profundamente no nariz, o que pode expor os trabalhadores que aplicam os testes do vírus.

"Esse tem sido o gargalo do que chamo de crise dentro da crise", disse Christopher Crow, presidente da Catalyst Health Network, que está instalando testes "drive-through" [feitos dentro do carro] em locais no norte do Texas. Sua rede de mais de 800 consultórios médicos atende um milhão de pessoas.

Até terça-feira, Crow enfrentava tal escassez de máscaras e outros equipamentos que estava avaliando a possibilidade de fechar os locais na quarta, justamente quando se preparava para expandir muito sua capacidade atual, de cerca de 30 pessoas por dia.

"Você não pode fazer mergulho sem oxigênio, um regulador e uma máscara", disse ele. "Se você não tem o equipamento para testar, não pode fazer o teste."

Na tarde de terça (24), ele soube que havia recebido permissão de uma autoridade regional para usar uma remessa de equipamentos do estoque nacional, resolvendo seu problema por enquanto.

Alguns pacientes dizem que a escassez os impediu de fazer o teste, mesmo quando apresentavam sintomas do coronavírus. Aliesha O'Raw, estudante de pós-graduação em Durham, na Carolina do Norte, disse que seu médico a enviou para uma clínica de emergência depois que ela teve febre e tosse seca durante duas semanas.

O'Raw, 26, tem asma e síndrome de Ehlers-Danlos, doença hereditária que afeta os tecidos conjuntivos do corpo, como pele e articulações. Ambas são condições subjacentes que podem agravar a doença do coronavírus. Ela deu negativo no teste para gripe e antibióticos não funcionaram.

Quando ela visitou a clínica de pronto atendimento na segunda-feira, o médico se recusou a testá-la porque havia escassez de cotonetes e eles estavam racionando, disse ela. Como não tinha contato conhecido com uma pessoa exposta, não lhe aplicaram o teste.

O'Raw gostaria de ser testada "não para o meu próprio conhecimento", disse. "É que eu sei que tenho pessoas ao meu redor que estão começando a ficar doentes."

Seu namorado, que cuidou de suas tarefas enquanto ela estava doente, agora também está doente, disse ela, assim como alguns colegas de classe que estavam ao seu redor antes que apresentasse os sintomas.

Seu médico solicitou outro teste e ela conseguiu usar um drive-through que acabou de abrir. Ela foi testada na quarta-feira e aguarda o resultado. "Está acontecendo", disse. "Está demorando mais do que esperávamos."

Colaborou Sheri Fink

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.