Itália fecha 16 milhões de pessoas em suas cidades por causa do coronavírus

No Reino Unido, supermercado raciona produtos para evitar que pânico esvazie prateleiras

Amsterdã

Cerca de 16 milhões de italianos acordaram neste domingo (8) impedidos de viajar livremente na região mais rica do país, a Lombardia, e em outras cidades do norte da Itália, como Veneza, por causa do novo coronavírus.

A medida foi tomada por decreto pelo governo italiano e também impede a livre entrada nas chamadas zonas vermelhas, por causa da epidemia da covid-19, a doença causada pelo Sars-Cov-2.

Com 7.375 doentes confirmados neste domingo, a Itália viu o número de mortes aumentar 50% em um dia, para 366, e se manteve como o segundo país do mundo em número de mortos, atrás da China (80.695 doentes, 3.097 mortes). A Coreia do Sul é a terceira em número de casos, 7.313 casos, mas conta apenas 50 mortes.

Até o dia 3 de abril, idas e vindas na região afetada (Lombardia e as províncias de Modena, Parma, Placência, Reggio Emilia, Rimini, Pesaro e Urbino, Alexandria, Asti, Novara, Verbano Cusio Ossola, Vercelli, Pádua, Treviso e Veneza) terão que ser autorizadas pelo governo por motivos de saúde ou de trabalho.

Devem ser montados pontos de fiscalização em estrada e estações, mas o transporte público continuará funcionando. Segundo a agência italiana de aviação, todos os aeroportos do país continuavam funcionando normalmente neste domingo, inclusive na zona de quarentena. O mesmo ocorria com as viagens de trem.

A Alitalia informou que reduzirá drasticamente voos que passam por Milão e Veneza a partir desta segunda (9) e que viagens internacionais serão redirecionadas para Roma.

Museus, casas de espetáculo e outros pontos de aglomeração foram fechados em todo o país, e casamentos, missas e funerais, suspensos. O decreto também estabelece que as pessoas fiquem a pelo menos um metro de distância das outras em mercados, restaurantes ou igrejas.

Neste domingo, o papa rezou o Angelus de dentro do palácio apostólico, e não da janela em que costuma aparecer para o público na praça São Pedro, em Roma.

Segundo a imprensa europeia, o vazamento do decreto de quarentena acabou provocando na noite de sábado uma corrida às estações de trem de pessoas que tentavam "escapar" para outras regiões da Itália.

Na manhã de domingo, dezenas de policiais e médicos usando máscaras esperavam por esses passageiros em cidades do sul como Salerno. “O efeito vai acabar sendo justamente o oposto do pretendido pela medida, já que alguns dos que tentaram sair da Lombardia podem estar infectados”, disse ao jornal britânico Guardian o professor de virologia Roberto Burioni, de Milão.

A medida drástica tomada pelo governo italiano aumentou o nível de alerta em outros países, tanto pelo medo de contágio semelhante quanto pelos prejuízos que esse tipo de ação pode trazer.

No Reino Unido, que tem 209 casos da doença e duas mortes, uma das maiores redes de supermercados britânicos, a Tesco, implantou racionamento na venda de alguns produtos, para evitar que pessoas em pânico provoquem desabastecimento. Cada pessoa pode comprar no máximo cinco unidades de itens como leite UHT, macarrão, alimentos em lata, água, remédios infantis e gel antisséptico.

Outra rede de varejo, a Ocado,  limitou a compra de papel higiênico a dois pacotes de 12 rolos e avisou aos consumidores que, por causa do aumento nas compras online, pode haver atrasos nas entregas de produtos.

Embora com números muito menores que os italianos, países europeus como a França ( 1.126 casos, 19 mortes), a Alemanha (951 doentes, nenhum morto) e a Espanha (617 casos, 17 mortes) têm se preocupado com a população idosa, a mais vulnerável à doença: entre os maiores de 80 anos, a probabilidade de morrer por causa da covid-19 está entre 15% e 22% dos infectados, segundo estudos da OMS e do centro de controle de doenças da China.

É na Europa que vive a população com maior porcentagem dessa faixa etária, 5% do total, ou quase 40 mil pessoas, segundo estimativa da ONU. Na Itália, a idade média dos mortos pela covid-19 é 81 anos.

Outros 8% dos europeus têm entre 70 e 79 anos, faixa na qual a probabilidade de morte por causa do coronavírus é de 8%. O governo britânico estuda proibir a entrada de maiores de 70 anos em eventos públicos, entre outras medidas, e Alemanha e Áustria estudam proibir concentrações de mais de mil pessoas.

“Precisamos proteger a saúde de nossos avós”, disse o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, ao anunciar o decreto.

O impacto na economia também já elevou gastos públicos e deixou vítimas entre empresas.

Na Itália, que já tem uma das economias mais frágeis da União Europeia, o governo anunciou pacotes de 4,5 bilhões de euros (mais de R$ 22 bilhões) para tentar reduzir o impacto negativo da doença nos negócios.

Com fábricas e escritórios parados e lojas mais vazias, a economia europeia, que vinha lutando para se reerguer, deve perder fôlego. Nos cálculos da OCDE, no cenário mais otimista, a expansão da economia global neste ano deve ser de 2,4%, e não 2,9% como previsto anteriormente. No mais pessimista, não passaria de 1,5%.

As restrições de viagem e o medo de contágio provocaram a derrocada da companhia aérea de baixo custo Flybe e cortaram ao menos um quarto dos voos de empresas como British Airways, Ryanair e Virgin.

A Lufthansa anunciou neste domingo que deixará em solo metade de seus aviões em abril, por causa da baixa na procura e dos cancelamentos. No total, as perdas do setor por causa do coronavírus podem chegar a US$ 113 bilhões (mais de R$ 540 bilhões), segundo a Iata (entidade internacional do mercado aéreo).

Em países como Bélgica (169 casos), Portugal (20 casos) e Holanda (188 casos, uma morte), a preocupação ainda não é visível nas ruas.

Em Amsterdã, milhares de pessoas se aglomeravam neste final de semana nas zonas centrais, sem proteção especial. A Folha percorreu a cidade durante toda a tarde e noite de sábado (7) e até as 15h deste domingo e encontrou apenas uma pessoa usando máscara na zona turística.

Com 840 mil habitantes, a capital da Holanda registrou no ano passado 5,4 milhões de turistas, com 1,5 milhão deles frequentando os coffee shops (onde é permitido vender maconha).  Nem atendentes nem consumidores desses cafés evitavam proximidade ou a partilha de objetos ou cigarros.

O distrito da luz vermelha, zona organizada de prostituição famosa pelas vitrines em que as mulheres se expõem, recebe por ano cerca de 200 mil clientes, segundo dados oficiais. Também nessa região não havia avisos sobre coronavírus ou outras medidas preventivas evidentes.

Na tarde deste domingo, atendentes de um salão de manicures trabalhavam de máscara em uma zona residencial perto do Central Park. Segundo uma delas, que se identificou como Anouk, 26, o cuidado passou a ser tomado em fevereiro, voluntariamente. "As clientes não estão preocupadas com isso."​

O movimento e o abastecimento eram normais em oito farmácias e cinco supermercados visitados.

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