Descrição de chapéu Coronavírus

Médico contaminado amplia lista de problemas na Itália

Falta de material de proteção adequado é um dos principais motivos; quase 5.000 profissionais de saúde já foram infectados

Milão

​Os profissionais de saúde representam quase 10% de todos os contaminados pelo novo coronavírus na Itália. No domingo (22), o número de médicos e enfermeiros positivos somava 4.824, um aumento de 32% desde sexta-feira (20).

Nas últimas semanas, tem crescido também a quantidade de vítimas: ao menos 22 médicos já morreram pela infecção.

São clínicos gerais, pneumologistas, epidemiologistas e anestesistas que foram expostos ao vírus sem proteção, seja porque a circulação interna não havia sido detectada nas primeiras semanas de fevereiro seja porque, devido ao grande volume de casos, agora falta material sanitário.

A epidemia na Itália foi identificada em 21 de fevereiro e, desde então, já são quase 60 mil casos e quase 5.476 mortes (até 22/3).

"Se cerca de 10% dos contaminados, um número provavelmente subestimado, pertencem à categoria dos profissionais de saúde, isso quer dizer que as instituições não os protegeram adequadamente", afirma o médico Giovanni Leoni, vice-presidente da Federação Nacional de Ordens dos Médicos Cirurgiões e Odontologistas.

A entidade, desde o início da emergência, tem sido a principal voz na denúncia das condições de trabalho inapropriadas da classe. "Como sempre dissemos, isso não deve ser só do interesse dos profissionais que curam. Uma vez infectados, eles se tornam vetores e ameaçam outros cidadãos", disse Leoni à Folha.

O problema já foi reconhecido pelo Instituto Superior de Sanidade (ISS), o principal órgão de controle de saúde pública da Itália. Em documento divulgado na última quinta (19), ao atualizar o número de profissionais contaminados, o instituto alertou: "É evidente o elevado potencial de transmissão no âmbito assistencial desse patógeno".

Segundo dados do ISS, o perfil dos contaminados da área da saúde diverge bastante da média da população afetada, na qual predominam idosos e homens.

Em geral, a idade média dos casos positivos é de 63 anos (36% têm mais de 70), mas, entre profissionais de saúde, cai para 49 anos. Na divisão entre os sexos, em geral, 59% dos contaminados na Itália são homens, percentual que cai para 36% entre médicos e enfermeiros.

"Os médicos que morreram tinham cerca de 60 anos, alguns menos. E não tinham outras doenças. Morreram porque ficaram expostos a uma grande carga infecciosa", avalia Leoni. "Foram enviados para fazer o próprio trabalho desarmados e desprotegidos."

Como profissionais de saúde devem se proteger

Regras de manual elaborado pela Universidade de Zhejiang, na China, para Covid-19

  • Nível 1

    Triagem e ambulatório geral: touca e máscaras cirúrgicas descartáveis, uniforme padrão, luvas de látex descartáveis e/ou macacão de isolamento descartável (se necessário)

  • Nível 2

    Ambulatório para medição de febre, enfermarias ou terapia intensiva de pacientes isolados, realização de exames em suspeitos (coleta de amostras e imagem), limpeza de instrumentos cirúrgicos usados em suspeitos: touca cirúrgica descartável, máscara de proteção N95, uniforme padrão, avental protetor descartável, luvas de látex descartáveis e óculos de proteção

  • Nível 3

    Intubação traqueal, traqueostomia, broncofibroscopia, endoscopia e outros procedimentos em pacientes suspeitos ou confirmados em que possa haver contato com secreções, fluidos ou sangue; cirurgias e autópsias: touca cirúrgica descartável, máscara de proteção N95, uniforme padrão, avental protetor descartável, luvas de látex descartáveis e dispositivos faciais protetores ou respiradores purificantes

A falta de material de proteção tem se agravado com o aumento dos casos positivos, o que tem deixado hospitais do norte do país perto do colapso. Até domingo (22), eram mais de 19 mil pessoas internadas positivas para coronavírus e outras 3.000 em unidades de terapia intensiva. Sem contar os demais doentes ou acidentados.

"Os materiais sanitários são poucos, e alguns profissionais ainda não contam com eles. E não podemos pensar só no hoje, esses equipamentos serão necessários por pelo menos dois meses. É um número monstruoso de produtos que devem ser continuamente repostos", diz o médico.

Com o coronavírus se alastrando rapidamente pela Europa, atual epicentro da pandemia, a disputa por material de proteção se tornou acirrada entre os países. No início do mês, Alemanha e França ensaiaram vetar a venda de máscaras, luvas e aventais descartáveis para os vizinhos, incluindo a Itália, e a União Europeia precisou intervir.

"É necessário dividir o material de proteção na Europa. As proibições nacionais de venda para outros países europeus são prejudiciais", declarou na semana passada Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. Ao mesmo tempo, ela implementou um mecanismo para controlar a exportação para fora do bloco.

O governo italiano percorreu o mundo atrás de máscaras de proteção e anunciou que nesta segunda (23) serão distribuídas 4 milhões de peças, vindas do Egito, da Índia, da China. No domingo, a UE aprovou incentivos de cerca de 50 milhões de euros para a Itália produzir material e equipamentos sanitários.

Segundo Leoni, da ordem dos médicos, diante do prolongamento da emergência, que agora começa a afetar as Américas, a solução é cada um procurar rapidamente um meio de produzir material de proteção internamente.

"Cada país deve operar uma conversão industrial, encontrar fábricas que fazem produtos similares, pagar os royalties a quem produz e entender o processo de fabricação, especialmente das máscaras cirúrgicas, que servem à maior parte das pessoas", afirma.

Nesse caminho, a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) anunciou que está convertendo uma de suas fábricas para produzir máscaras a partir da semana que vem. "Vamos produzir mais de 1 milhão de máscaras por mês e doar aos socorristas e aos operadores sanitários", divulgou em nota.

Outra reivindicação de enfermeiros e médicos italianos é que eles possam ser submetidos a testes mesmo sem que apresentem sintomas. Segundo Leoni, o exame estava sendo negado até para aqueles que tinham tido contato comprovado com pacientes positivos.

No sábado, Giulio Gallera, secretário de Bem-estar da Lombardia, a região mais afetada da Itália, avisou que o procedimento está sendo revisto.

"Estamos prevendo fazer testes nos clínicos gerais [que atendem nos consultórios da rede pública] e, para os funcionários de hospitais, iremos medir diariamente a temperatura e fazer teste em todos aqueles que tiverem mais de 37 graus de febre. É uma forma de cuidar e de garantir a saúde dos operadores sanitários", disse.

Com números de casos e mortes subindo dia a dia, o governo italiano fez um chamado na sexta-feira (20) para que médicos de outras regiões se apresentassem para trabalhar voluntariamente nas cidades mais afetadas do norte. Quase 8.000 se inscreveram para preencher 300 vagas já a partir desta segunda (23).

Outro reforço veio de Cuba, que enviou cerca de 50 enfermeiros e médicos especializados em atuar em situações de crise epidemiológica. O grupo chegou neste domingo.

Segundo Leoni, o reforço será necessário. "O pico de casos está calculado para até 15 de abril. Não sou eu quem diz, mas especialistas em infectologia. Os piores dias ainda estão por vir. Sinto muito."

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