Descrição de chapéu Coronavírus

O que Bolsonaro, Mandetta, a OMS e os hospitais de ponta dizem sobre a cloroquina

Presidente tem apostado no remédio, ainda em fase de testes, para tratar a Covid-19

São Paulo

Crítico das medidas de isolamento social como forma de mitigar os danos da pandemia de coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem se agarrado na hidroxicloroquina como solução para a Covid-19.

No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer antes de declarar que o remédio, usado por pacientes com malária, lúpus e artrite, possa ser indicado para a doença.

Além de tuítes, Bolsonaro citou o medicamento em pronunciamento em rede nacional e em entrevistas a jornalistas. A estratégia, porém, não é inédita.

A hidroxicloroquina entrou no debate da pandemia de coronavírus desde que o presidente americano Donald Trump levantou a possibilidade de o remédio ser eficaz para a Covid-19, no dia 19 de março. A fala provocou corrida às farmácias, deixou pacientes sem o medicamento e levou a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a proibir a exportação e a venda sem receita no Brasil.

Veja como diferentes líderes e entidades têm tratado o assunto.

OMS

"Para deixar claro: não há tratamento efetivo, drogas comprovadas contra a Covid-19. Mas há inúmeras drogas que se mostraram promissoras tanto no tratamento do coronavírus da Sars, na luta contra o HIV. Há alguns dados preliminares de estudos não randomizados, observacionais, que indicam que algumas drogas e alguns coquetéis de drogas podem ter um impacto", diz Mike Ryan, diretor-executivo do programa de emergências sanitárias da OMS, em coletiva na segunda (30) após ser questionado sobre a hidroxicloroquina.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) lançou o estudo internacional e multicêntrico Solidarity (solidariedade, em inglês), que busca acelerar a identificação de alguma droga que possa ajudar no tratamento da Covid-19.

Entre as drogas elencadas para serem objeto de estudo da OMS estão: remdesivir, a cloroquina ou hidroxicloroquina, a combinação de lopinavir e ritonavir e a combinação de lopinavir e ritonavir mais interferon-beta.

Ryan afirmou que alguns países estão com medidas de uso compasivo de certas drogas. Ele diz, contudo, que a OMS não encoraja tal ação caso ela leve a um uso mais amplo do medicamento, porque isso o tiraria do público que depende do remédio.

"Nós realmente queremos acelerar os estudos que podem nos dar as respostas que precisamos", diz Ryan. "Também precisaremos ver como escalar a produção de drogas que se provem efetivas."

Ministério da Saúde

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem lidado com o assunto com cautela. "Continuamos com indícios [de eficácia contra o novo coronavírus]. Foram poucos pacientes, não sabemos se o medicamento foi decisivo ou não", disse.

Ele também pediu para as pessoas não usarem o medicamento. "Esse medicamento tem efeitos colaterais intensos e não devem ficar na casa para serem tomados sem orientação médica. Vão fazer uma série de lesões [se automedicando]. Leiam a bula, não é uma Dipirona."

Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde anunciou que vai começar a distribuir 3,4 milhões de unidades de cloroquina e hidroxicloroquina aos estados para uso em pacientes com quadro grave pelo novo coronavírus em um protocolo experimental.

Segundo o secretário de ciência e tecnologia do Ministério da Saúde, Denizar Vianna, o protocolo será restrito a pacientes internados em hospitais. O tratamento deverá ocorrer por cinco dias e sob supervisão médica, porque ainda não há dados robustos sobre o uso da droga contra a Covid-19.

Hospitais e institutos de pesquisa do Brasil

Nesta semana foi anunciada a Coalizão Covid Brasil, que analisará, por meio de três estudos controlados, a eficácia da hidroxicloroquina em centenas de pacientes com quadros leves e graves do novo coronavírus.

A coalização tem a participação de hospitais como o Albert Einstein —citado por Bolsonaro em vídeo publicado na internet—, Sírio-Libanês, HCor, a rede de pesquisa BRICNet e outras dezenas de centros médicos, em parceria com o Ministério da Saúde. Os primeiros resultados dessas pesquisas devem estar prontos em cerca de 60 a 90 dias.

"As pessoas não entendem o que quer dizer ciência", diz Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. "Quando você tem reports mostrando que a cloroquina funciona em 10, 50, 100 pessoas, na realidade você só está mostrando um caminho para ser validado."

Rizzo afirma que há alguns relatos que mostram o potencial uso terapêutico da cloroquina e seus derivados, mas isso não significa que ela vá efetivamente ajudar pacientes com Covid-19. Ele também diz que é preciso ter consciência que a droga tem inúmeros efeitos colaterais, como síndrome hemorrágica e danos no fígados e rins.

Luciano Azevedo, pesquisador e superintendente de ensino do Sírio-Libanês, afirma que, no momento, a hidroxicloroquina tem uso somente compassivo (em pacientes em estado grave que não respondem a outras drogas) autorizado por ser uma situação de calamidade pública.

Segundo o Azevedo, o problema não é a possibilidade do remédio não funcionar, mas, sim, de agravar a situação de pessoas que poderiam melhorar. "Entendemos o desespero das pessoas em um cenário que você não tem medicamento, mas nossa principal preocupação é ser um remédio que pode fazer mais mal do que bem", diz o especialista do Sírio-Libanês. "Não tem embasamento ainda para falar que esse remédio funcione."

Bolsonaro

"O tratamento da COVID-19, a base de Hidroxicloriquina e Azitromicina, tem se mostrado eficaz nos pacientes ora em tratamento. Nos próximos dias, tais resultados poderão ser apresentados ao público, trazendo o necessário ambiente de tranquilidade e serenidade ao Brasil e ao mundo", disse Bolsonaro em sua conta de Twitter.

Trump

O presidente americano escreveu o nome da droga com letras maiúsculas e afirmou que ela, tomada junto com a azitromicina, tem uma chance real de provocar uma das maiores mudanças da história da medicina.

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