Descrição de chapéu Coronavírus

Para cientistas, robôs podem ajudar no combate à pandemia de Covid-19

Máquinas, já usadas para monitorar febre e outros sintomas, poderiam substituir humanos em tarefas de risco, como colher amostras

São Paulo

Há pouco mais de um mês, em 19 de fevereiro, robôs começaram a chegar à China para ajudarem na desinfecção de hospitais.

Não são robôs humanoides, com cara de gente, mas uma espécie de enceradeira gigante autônoma que, por onde passa, emite luz ultravioleta, onda eletromagnética capaz de destruir bactérias e vírus. Serão atendidos com a tecnologia dinamarquesa 2.000 hospitais.

Esses robôs de limpeza de US$ 80 mil (R$ 408 mil) cada um são apenas um exemplo entre as máquinas (em alguma medida) inteligentes que podem ajudar no combate à pandemia de Covid-19, argumentam cientistas proeminentes da área da robótica da China, Japão, Suíça, Suécia, EUA e Itália em artigo publicado nesta quarta (25) no periódico especializado Science Robotics.

“As guerras, assim como a corrida espacial, são considerados eventos importantes para o desenvolvimento de novas tecnologias e para o avanço da medicina. A guerra contra o Sars-CoV-2, vírus causador da Covid-19, também pode ser considerada um marco histórico na aplicação de sistemas robóticos e de automação no combate a epidemias”, diz o biólogo Rubens Monte-Neto, coordenador das plataformas de sequenciamento de DNA e impressão 3D da Fiocruz Minas.

“Nós aprendemos com outras epidemias, e hoje é comum ter em aeroportos a triagem automatizada de pessoas pela utilização de sensores térmicos [a temperatura elevada indica quem tem febre, um dos sintomas mais comuns da Covid-19], sem a necessidade da intervenção direta de um agente de fronteira. Recentemente nos deparamos com a utilização de drones na Espanha para alertar a população sobre a importância do isolamento social voluntário”, diz o biólogo.

Seria possível embarcar a mesma tecnologia de detecção de temperatura em robôs, que se deslocariam pelo corredores e quartos do hospital, avaliando pacientes acompanhando sua evolução.

Talvez o robô dos sonhos fosse aquele que, além de medir temperatura e entregar comida e medicamentos, fosse capaz de coletar exames de pacientes com doenças infecciosas, como a causada pelo novo coronavírus.

Um dos procedimentos necessários para acompanhar a evolução dos pacientes doentes é a coleta de material do trato respiratório com cotonetes específicos (swabs). É uma ação que expõe os profissionais de saúde ao risco de contaminação. Uma das vantagens de empregar máquinas é que, com a padronização da coleta, os resultados dos exames seriam mais certeiros.

Profissional de saúde na Letônia usa cotonete para testar Covid-19 em passageiro que veio em ferry boat da Alemanha; na foto temos o paciente, um homem ligeiramente grisalho, e uma médica, à direita, paramentada com roupa de segurança, luvas, máscara, óculos, enfiando um cotonete na garganta do homem para colher amostra
Profissional de saúde na Letônia usa cotonete para colher amostra e testar se passageiro que veio em ferry boat da Alemanha tem Covid-19 - Ints Kalnins - 24.mar.20/Reuters

Outra é que esses robôs-enfermeiros poderiam facilmente ser esterilizados com luz ultravioleta, soluções do hipoclorito de sódio (água sanitária) e outros métodos inapropriados para uso humano entre um paciente e outro, reduzindo riscos para todos os envolvidos.

Já estão em testes sistemas capazes de colher sangue de humanos com 85% de acurácia, segundo o médico Gustavo Meirelles, gestor de inovação do Grupo Fleury. “Ainda não se sabe como os pacientes vão lidar com uma máquina tirando sangue delas, mas, com o aumento da qualidade, a quantidade de recoletas cai e todos saem ganhando”, diz.

“A Covid-19 pode ser um catalisador para o desenvolvimento de sistemas robóticos que podem ser rapidamente implantados com acesso remoto por especialistas e provedores de serviços essenciais, sem a necessidade de viajar para as linhas de frente”, escrevem os autores do artigo da Science Robotics.

Robôs são especialmente úteis nas tarefas consideradas sujas, monótonas, bobas e perigosas, chamadas de trabalhos 4D (do inglês "dirty, dull, dumb, dangerous"), diz o professor Fernando Santos Osório do Laboratório de Robótica Móvel, da USP em São Carlos.

“Robôs não precisam de máscaras, não transmitem doenças pela respiração, em espirros ou em apertos de mão. As máquinas se encaixam perfeitamente nessa situação de crise, quando uma pandemia se espalha rapidamente. Elas podem ter contato com pessoas doentes, pois, depois, podem ser rapidamente descontaminados com um banho de produtos químicos que matam qualquer vírus, e o melhor: não reclamam de nada disso!”, diz Osório.

Para a professora Carla Koike, da UnB, as vantagens do emprego de máquinas não podem ser ignoradas, mas, em sua opinião, "pessoas seriamente doentes necessitam de cuidado humano, ainda que ocasional". "Espero que sempre sobre lugar para a presença humana afetiva nos cuidados de saúde.”

Apesar do apelo dos pesquisadores para que esta seja a hora de os robôs começarem a ganhar o mundo de vez, há pedras no caminho.

Um dos problemas da área é que as soluções estudadas e comercializadas ainda são pontuais e não se conversam entre si. Daí o motivo do atual baixo impacto social dessas alternativas, argumenta Jés de Jesus Fiais Cerqueira, pesquisador da UFBA que estuda a relação humano-robô.

Outro entrave, argumenta, é o custo. “A construção de um robô humanoide requer algo em torno de US$ 50 mil apenas com motores. É intuitivo que no momento o preço de uma solução útil seria elevado demais para a grande massa da população ou empresas. Portanto, não é sensato pensar que alguma solução poderia surgir a curto prazo, mesmo com estímulos de governos e outras ações correlatas”, diz Cerqueira.

Daí a importância, destaca Gustavo Meirelles, do Fleury, de criar grandes colaborações para atingir os objetivos. Ele cita o exemplo do emprego da inteligência artificial para estimar o risco ao qual pacientes infectados pelo novo coronavírus estão sujeitos, com base em dados clínicos, laboratoriais e de exames de imagem.

Clínicas, hospitais e laboratórios teriam que compartilhar dados e atuar juntos para tirar algum sentido dos dados a tempo. “Ou trabalhamos em conjunto ou demoramos e a pandemia passa. Não podemos demorar a agir, ou os danos podem ser enormes.”

A capacitação dos profissionais de saúde para lidar com essas novas tecnologias também é um desafio. São muitos equipamentos diferentes e cada um exige conhecimento específico, diz Rafhael Milanezi, do departamento de engenharia mecânica da UFES. “Muitos são complexos de operar, como robôs sociais/interativos, robôs de reabilitação, equipamentos de UTI etc, o que requer tempo, capacitação e investimento. As grades curriculares dos cursos técnicos e de graduação vão precisar se adaptar a essa nova realidade.”

“Projetos que incentivem jovens a seguirem carreiras tecnológicas, especificamente a robótica e a automação, são primordiais para não nos tornarmos uma nação apenas de consumidores, mas também de desenvolvedores de tecnologias robóticas e de sistemas automatizados. Nós precisamos nos conscientizar de que a pandemia de Covid-19 não é a primeira e não será a última na história —outras virão e precisamos estar preparados”, afirma Brehme D'napoli Reis de Mesquita, do Instituto Federal do Maranhão.

Há ainda a questão trabalhista. Em todo o mundo, a robótica ainda é encarada como tecnologia tomadora de empregos e renda das famílias, relata Cerqueira, e não como auxiliadora da humanidade. “Isso tem dificultado em muito o desenvolvimento da robótica em suas diversas vertentes em todo o planeta, em especial em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como o Brasil.”

Os aspectos legais envolvidos também são críticos. Por exemplo, se o robô, por alguma falha, machucar o paciente. De quem é a culpa? De quem construiu o robô? De quem desenvolveu os algoritmos? Do vendedor da tecnologia?

“Essa é uma discussão que já existe no contexto dos carros autônomos e vai estar cada vez mais presente com a disseminação de robôs em nosso dia a dia.”, diz Luiz Chaimowicz, do Laboratório de Visão Computacional e Robótica da UFMG.

Já para um pouco mais adiante, existem pesquisas tentando criar micro e nanorrobôs que poderão ser introduzidos no corpo humano para entregar fármacos em órgãos específicos (ou em tumores), desentupir artérias, ou mesmo combater vírus e bactérias. “Isso ainda parece um cenário de ficção científica, mas serão realidade no futuro”, diz Chaimowicz.

Robôs no combate à pandemia

Dispositivos podem ajudar na análise dos exames, na desinfecção e até na hora de trazer comida

Desinfecção

Robôs autônomos dinamarqueses capazes de desinfetar o ambiente com luz ultravioleta (que destrói o vírus e outros patógenos) vêm sendo usados em hospitais chineses. Sabe-se que as partículas virais podem permanecer íntegras por dias em superfícies como papelão, metal e plásticos

Temperatura

Robôs com sensores de temperatura conseguem identificar, em portos de entrada de saída de um país, quem tem febre —um dos sintomas da Covid-19—, o que permite a adoção de medidas como isolamento e/ou de redução do potencial de disseminação do vírus, como o uso de máscaras

Entregas

Uma das aplicações mais estudadas para robôs é a orientação e o deslocamento em ambientes não controlados. Eles poderiam levar de medicamentos a documentos; cientistas estudam a melhor maneira de otimizar o movimento desses robôs e fazer com que eles operem em harmonia quando há vários deles próximos uns dos outros

Transporte

Veículos autônomos podem se deslocar na cidade sem a necessidade de motorista, ajudando a reduzir a intensidade de contato entre humanos; cadeiras de rodas autônomas também poderiam deslocar o paciente dentro de um hospital, evitando exposição desnecessária de profissionais da saúde

Pets

Existem protótipos de robôs cuja missão é levar os animais de estimação para passear. Como a chance de eles pegarem a virose é bem mais baixa que a de humanos, pode ser uma medida a ajudar os animais a aguentarem o período de isolamento dos donos

Companhia

Uma função para a qual robôs estão sendo estudados é a de fazer companhia para pessoas que moram sozinhas e que, por exemplo, têm dificuldade de locomoção. Ainda há muito debate de quais funções naturalmente humanas um robô pode assumir

Sangue

Já existem dispositivos que auxiliam profissionais de saúde na detecção de veias para na hora de tirar sangue. Agora cientistas investem em robôs capazes de fazer todo o serviço. Resultados parciais mostram desempenho próximo ao de humanos

Coleta de amostras

Um robô que colhesse adequadamente amostras do trato respiratório de pacientes com Covid-19 poderia evitar riscos que profissionais da saúde correm ao fazê-lo; além disso, por meio de padronização dos movimentos, haveria mais segurança de que as amostras seriam adequadas para pesquisa da presença do vírus

Higiene

Dispositivos simples e automatizados, como um dispenser de sabão ou de álcool no qual não é necessário encostar para se obter uma esguichada do conteúdo, também podem ajudar a evitar contaminações, já que o vírus persevera em diversas superfícies

Inteligência artificial

Dados produzidos pelo paciente (como oxigenação, batimento cardíaco, exames de imagem do pulmão, índices verificados em exames laboratoriais etc) podem ser analisados por algoritmos de aprendizado de máquina para tentar prever qual é o tamanho do risco ao qual ele está sujeito, permitindo que se possa acelerar ou postergar sua ida à UTI, por exemplo, além de escolher o melhor tratamento

Antidesinformação

Software automatizados auxiliam a encontrar e classificar conteúdo potencialmente falso, o que ajuda provedores e redes sociais a lidarem, por exemplo, com informações que pretendem enganar o público a respeito da pandemia


Fontes: Fernando Santos Osório (USP), Raphaell Maciel de Sousa (Instituto Federal da Paraíba), Gustavo Meirelles (Grupo Fleury), Véronique Donard (Unicap), Geovany Araujo Borges (UnB), Douglas G. Macharet (UFMG), Rafhael Milanezi (UFES), Luiz Chaimowicz (UFMG), Brehme D'napoli Reis de Mesquita (Instituto Federal do Maranhão), Danielli Araújo Lima (IF), Jés de Jesus Fiais Cerqueira (UFBA), Carla Maria Chagas e Cavalcante Koike (UnB)

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