'Peguei H1N1 no auge da pandemia; temor na época lembra o do coronavírus'

Jornalista conta que medo era visível no semblante das pessoas em Londres, em 2009

Rio de Janeiro

Acordei extremamente indisposto naquela manhã de julho de 2009, em Londres, onde eu morava. De início, pensei tratar-se de simples mal-estar pelo excesso de cervejas da noite anterior, mas aos poucos senti que não era uma ressaca qualquer. Jamais imaginaria que estava prestes a viver dias terríveis, contaminado pela pandemia de gripe suína que assolou o mundo há 11 anos.

A piora do meu quadro durante o dia chamou a atenção dos amigos, que aconselharam a procurar ajuda médica. Um simpático motorista indiano me levou para o hospital e propôs me esperar por mais uma corrida. "Não vai dar nada, você parece ser um sujeito saudável", disse. A simpatia virou pavor quando voltei com um diagnóstico positivo para a doença.

O medo de contrair a gripe era visível no semblante das pessoas. Até no próprio hospital onde fui atendido o percebi não só nos pacientes, como também em enfermeiros e médicos. Quando narrei os sintomas, me entocaram em uma sala e ali deixaram por mais de uma hora. Mal me olharam nos olhos. Mas o temor era justificado.

Diego Garcia, repórter da Folha no Rio, quando morou em Londres, em 2009, e contraiu o H1N!
Diego Garcia, repórter da Folha no Rio, quando morou em Londres, em 2009, e contraiu o H1N1 - Arquivo pessoal

No mês anterior, em 11 de junho, a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou nível de pandemia na gripe suína. Eram 27.737 casos da doença em 74 países até então, com 141 mortes. Londres registrou seu primeiro óbito em 3 de julho, um jovem de 19 anos. Já eram 2.000 enfermos confirmados na cidade, tomada por caos e pânico público.

O então ministro da Saúde, Andy Burnham, previu 100 mil casos por dia no Reino Unido em agosto. A "swine flu" ocupava diariamente as capas dos tabloides britânicos. "Gripe suína mata 12 em 4 dias" e "criança saudável morre por gripe suína" foram manchetes que me assombraram naqueles dias.

A memória não me faz lembrar quanto tempo ao certo fiquei doente. Acredito que cinco dias. O que eu tenho certeza é que foram horríveis. Não conseguia comer absolutamente nada. Compensava bebendo quatro ou cinco litros de água diários —orientação dos médicos —, que não duravam muito no meu organismo, reflexo de vômitos e diarreia severos. Assim, emagreci de cinco a seis quilos, apesar de magro naquela época.

Um dia, senti leve melhora nos sintomas. Com a cabeça dura do auge dos meus 21 anos, tentei ir de ônibus à Escócia com amigos, em viagem agendada semanas antes. Para convencer a mim mesmo de que estava bem, comprei logo três sanduíches do McDonalds no metrô a caminho da rodoviária. Minhas forças duraram até a terceira mordida, e a viagem escocesa ficou só em pensamento mesmo.

No dia seguinte, acordei com forte tosse seca e bastante dificuldade para respirar. O médico apontou infecção pulmonar, herança da gripe. Confesso que cheguei a temer pelo pior. Não só pelos fortes sintomas, como também pelo desespero coletivo que tomava conta das pessoas. Ainda não vivíamos a era do WhatsApp, mas vários boatos surgiam do nada. Até hoje não sei se a lenda urbana da estudante italiana que morreu no meu prédio de gripe suína foi ou não verdadeira.

Era ruim ainda estar em quarentena em um país diferente, longe das pessoas que amo. Foram dias bem solitários. Sem querer preocupar a família, não avisei da doença. Minha irmã só soube quando eu já estava recuperado, bebendo Guinness em um pub de Londres. Isso após mais alguns dias em recuperação dos pulmões até voltar a me sentir bem. Outras 392 pessoas não tiveram a mesma sorte, entre os 28.456 infectados de 2009 no Reino Unido.

Acompanhando os desdobramentos da atual pandemia de coronavírus, tenho lembrado muito daquele ano em Londres. A verdade é que somos céticos por natureza e nunca achamos que algo de ruim vai acontecer com a gente. No meu caso, só quero acabar esse texto para lavar as mãos mais uma vez.

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