Bairros movimentados de São Paulo têm segunda-feira com cara de domingo

Ruas e comércio ficam vazios e orientações sanitárias são cumpridas por moradores

São Paulo

Nos restaurantes, mesas vazias. Nas lojas de departamento, sem clientes, vendedores faziam rodinhas e conversavam. Mesmo o trânsito caótico de São Paulo foi abaixo da média.

Conforme as notícias sobre coronavírus se espalham, os paulistanos se recolhem. Os que saem às ruas olham para a frente e se esquivam de quem chega muito perto.

A Pompeia, por exemplo, teve uma manhã de movimento abaixo do normal. Nas ruas do bairro, poucos circulavam. Pontos de ônibus e coletivos estavam menos cheios que o normal.

Nos prédios, muitas crianças e adolescentes ficaram em casa e brincavam nos parquinhos e nas piscinas, aproveitando o calor.

Em uma academia do bairro, só quatro alunos treinavam na hora do almoço, que geralmente tem em torno de 20 pessoas fazendo musculação, esteira ou bicicleta. Um personal trainer comentava com preocupação sobre a perspectiva de alunos cancelarem aulas (eles recebem normalmente por hora de aula dada). Outro afirmava que todos os seus clientes mantiveram os treinos por enquanto.

A orientação de manter distância, ao menos, era cumprida à risca: a reportagem não viu ninguém se cumprimentando com beijo, abraço ou aperto de mão, substituídos por tchauzinho de longe ou toque de cotovelo ou pé.

Na rua Desembargador do Vale, típica rua comercial de bairro, cerca de metade das lojas e salões de cabeleireiros estavam fechados; todos os pet shops, no entanto, estavam abertos. Restaurantes também tinham as portas abertas, mas o movimento era muito menor do que de costume.

O movimento pela cidade parecia se concentrar em dois lugares: mercados e farmácias. Em uma unidade na Pompeia, um aviso limitava as compras de álcool gel e máscaras a cinco unidades por cliente; a reportagem chegou ao local no momento em que se descarregava um lote de álcool gel. "Graças a Deus chegou", comemorou o gerente aliviado.

Já na rua Clélia, corredor comercial mais movimentado, todas as lojas e restaurantes estavam abertos, mas o movimento parecia menor que o de costume.

A situação se repetia em outros bairros. Na rua Voluntários da Pátria, em Santana (zona norte de SP), a dona de um trailer de lanches Aucilene Flor, 38, notou grande queda na clientela.

"Caiu, e muito. A clientela está com medo. Agora há pouco, sentou uma mulher aí e tossiu. A outra, que estava do lado, fechou a cara e foi embora", diz.

O medo é muito maior nos restaurantes self-service, que estavam às moscas. O medo da clientela é muito maior no caso da comida exposta, possível alvo de gotículas de saliva de quem se serve.

Na zona leste, a rua da Mooca também estava praticamente vazia. "O coronavírus já está atrapalhando a nossa vida, parece que desde de sábado", disse Neusa Oliveira, 40, vendedora de uma loja de roupas infantis.

Motorista de aplicativo Valdinilda Gomes, 50, diz que esperou muito mais pela clientela. Agora, mesmo com calor, mantém os vidros sempre abertos. "Por causa do corona, né? Também tenho usado álcool e lenço umedecido o tempo todo".

Ela diz que, se demora mais para ser acionada, também chega muito mais cedo aos destinos. "O trânsito diminuiu. Mas, se continuar assim, mesmo tendo que trabalhar, uma hora não compensará mais ir pra rua", diz.

Lentidão na cidade ficou abaixo da média nesta segunda-feira (16), segundo a CET
Lentidão na cidade ficou abaixo da média nesta segunda-feira (16), segundo a CET - Divulgação

O trânsito passou a maioria do dia abaixo da média de lentidão, segundo dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). Por exemplo, às 9h, a lentidão era de 49 km --quando tem limite inferior de 67 km, que pode chegar 83 km.

Às 18h, a lentidão era de 36 km, quando costuma ficar entre 45 km e 65 km.

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