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Coronavírus

Projeção de Mandetta para coronavírus não faz sentido

No ritmo atual, país inteiro teria sido contaminado até o final de abril; ministro fala de queda de ritmo em junho

São Paulo

Não faz sentido a projeção que o ministro da Saúde fez sobre o aumento do número de casos de Covid-19, nesta tarde.

Luiz Mandetta disse que abril deve ser de “subida rápida” e que isso vai durar até junho, quando começaria a “tendência de desaceleração”. Deve haver algum equívoco grave de comunicação aqui.

No ritmo atual do aumento do número de casos da doença, a população brasileira inteira teria ficado doente de Covid-19 entre os dias 28 e 29 de abril, daqui a cerca de 40 dias. Logo, a desaceleração deve ocorrer antes do fim desse mês. Certamente antes de junho. Mas essa projeção é mera aritmética.

Pensando um pouco mais em aspectos óbvios da evolução da epidemia, a afirmação de Mandetta faz ainda menos sentido. Há outros motivos que podem fundamentar a especulação razoável de que a desaceleração (a inflexão da curva para baixo) deve ocorrer antes do final de abril.

Pensando no limite algo absurdo: mantido o ritmo atual de contágio, a população brasileira inteira teria sido contaminada até antes do final de abril, pois pelo menos uma parte de nós teria morrido de Covid-19.

Além do mais, uma tal projeção teria de ter como premissa a ideia de que não há modo algum de deter a expansão do novo coronavírus. Isto é, teríamos de pressupor que as atuais medidas que favorecem o distanciamento social não façam efeito algum.

Seria preciso especular ainda que o vírus é capaz de alcançar todo e qualquer habitante do país, mesmo em populações isoladas. Mais ainda, seria preciso pressupor que o vírus fosse capaz de infectar qualquer pessoa —que não existiria ninguém com alguma imunidade natural por aí (pode ser raro, mas acontece).

Talvez o ministro estivesse se referindo à curva de novos casos diários da doença —chegou a fazer uma menção à China, onde o número de novas confirmações da doença caiu muito em março. Ainda assim, a desaceleração chinesa teve início no começo de fevereiro.

O Japão parece apenas ainda se aproximar de uma desaceleração. No entanto, o crescimento do número de casos é bem menor do que foi o chinês e está sendo o do Brasil (um quarto da velocidade). Os demais casos de desaceleração precoce ou de achatamento da curva de crescimento também ocorreram em países asiáticos.

Na Alemanha, o crescimento de número de casos confirmados ainda se acelera, a um ritmo maior que o do Brasil (a epidemia começou lá um pouco mais cedo).

Talvez o ministro tenha informação sobre o número de contágios originados por cada doente? Na verdade, um número europeu?

Pode ser que o atual ritmo do crescimento do número de infecções diminua em breve, mas permaneça veloz, fazendo muitas vítimas por um tempo mais longo. Mas essa é outra história. Há pelo menos um equívoco de comunicação no que disse o ministro.

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