Descrição de chapéu Coronavírus

Russos resistem a mudanças de rotina enquanto governo aperta cerco contra coronavírus

Há ainda certa predisposição da população em desconfiar das informações do Kremlin, mesmo entre apoiadores do presidente Putin

São Petersburgo

Os locais turísticos lotados no último domingo (8) em São Petersburgo indicavam que os russos não estavam dispostos a desperdiçar um dia de sol em pleno inverno dentro de casa.

O feriado do Dia Internacional da Mulher salpicou a paisagem com as cores das flores tradicionalmente dadas de presente às russas nesse dia. A praça do Palácio de Inverno, local onde fica um dos maiores museus do mundo, o Hermitage, estava lotada.

Na Catedral de Kazan, uma das maiores de São Petersburgo, prosseguia como de costume o tradicional ato de beijar a imagem da Nossa Senhora de Kazan para obter boa sorte.

Também em busca de boa fortuna muitos passavam a mão no focinho da estátua do cachorro em uma das maiores estações de metrô de Moscou dias antes.

Não houve até o momento, ao menos nos dois grandes centros urbanos da Rússia, corrida às farmácias para compra de máscaras, ainda usadas por uma minoria, mas a tentativa de uma rede de lojas aumentar o preço do produto causou revolta.

Vista geral do Praça do Palácio de Inverno, em São Petersburgo, com uma ampla área calçada e prédios em formato quadrandular
Praça do Palácio de Inverno no último domingo (8) em São Petersburgo - Guilherme Magalhães/Folhapress

O clima no país, porém, começou a mudar nos últimos dias, em meio a uma série de medidas do governo federal. A principal delas começa a valer nesta sexta-feira (13), o fechamento das fronteiras para qualquer pessoa vinda da Itália, mesmo cidadãos russos.

A Itália é o país europeu mais afetado pelo coronavírus, com mais de 15 mil casos e 1.016 mortes.
Na Rússia, segundo o boletim divulgado pelo governo nesta sexta, há 45 casos confirmados, sendo 42 russos, dois chineses e um italiano. A maioria são de pessoas que estiveram em países como Itália e França. Nenhuma morte foi registrada.

Ao especular possíveis razões para o fato de a situação parecer sob controle na Rússia, a imprensa não alinhada ao Kremlin cita como hipóteses o fechamento da extensa fronteira terrestre com a China no fim de janeiro e o banimento da entrada de chineses desde 18 de fevereiro.

Mais preocupante, porém, é o uso de protocolos de teste menos eficazes do que aqueles usados na Europa Ocidental.

Os laboratórios testam pacientes com kits desenvolvidos por uma empresa local que utiliza um exame em dois estágios independentes (e não de estágio único como na Alemanha, França, EUA e Japão, entre outros) e sem um controle positivo —amostra que contém o vírus e serve de parâmetro para verificar a eficácia do teste.

Dado o histórico de pouca transparência do governo em relação a crises dessa natureza —vide o acidente nuclear de Tchernóbil em 1986—, há ainda certa predisposição da população em desconfiar das informações do Kremlin, mesmo entre apoiadores do presidente Vladimir Putin.

A desconfiança é maior em moradores do interior, mais vulneráveis às fake news que circulam pelos grupos de Telegram, aplicativo bem mais popular que o WhatsApp na Rússia.

Nesta semana o governo proibiu eventos que reúnam mais de 5.000 pessoas, limitando o público das partidas de futebol a esse número.

Já a Prefeitura de Moscou não autorizou a realização de um protesto no dia 22 de abril contra as emendas constitucionais propostas pelo governo Putin —entre elas a que permitiria sua candidatura à reeleição por mais dois mandatos. A medida foi criticada por opositores, que veem o Kremlin se aproveitando da epidemia para sufocar vozes dissidentes.

O prefeito da capital, Sergei Sobyanin, afirmou nesta semana que o sistema de câmeras de vigilância está sendo usado para monitorar via reconhecimento facial indivíduos que violam medidas de quarentena. Violar as regras pode render até cinco anos de prisão.

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