Trump diz que hidroxicloroquina, droga para malária, pode ser testada contra coronavírus

Ainda não é possível afirmar que o uso do medicamento seja eficaz no tratamento da Covid-19

Washington e São Paulo | The New York Times

Com o desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus a pelo menos um ano de distância, o presidente americano Donald Trump disse nesta quinta-feira (19) que seu governo havia “acabado com a burocracia” para expandir o teste de possíveis tratamentos para Covid-19.

Trump disse que diversos medicamentos tinham o potencial de “virar o jogo”, antes de acrescentar uma nota de cautela: “Ou talvez não”.

O presidente americano Donald Trump e o seu vice Mike Pence
O presidente americano Donald Trump e o seu vice Mike Pence - Evan Vucci/Pool/Reuters

Stephen Hahn, da Food and Drug Administration (FDA), a agência americana de fiscalização e regulamentação de alimentos e remédios, buscou moderar parte do otimismo de Trump, declarando que embora seja importante que os médicos tragam esperanças, era igualmente importante que eles “não criem falsas esperanças”.

“Precisamos garantir que o mar de novos tratamentos leve o remédio certo ao paciente certo no momento certo”, disse Hahn, mencionando a importância de estabelecer a segurança e eficácia de possíveis tratamentos. “Como exemplo, talvez tenhamos o remédio certo, mas ainda não seja possível estabelecer a dosagem certa de imediato, e isso pode causar mais mal do que bem.”

Não existe tratamento medicamentoso comprovado para o coronavírus, e médicos de todo o mundo vêm testando desesperadamente uma série de vacinas, na esperança de encontrar alguma coisa que ajude os pacientes, especialmente aqueles que estiverem severamente doentes.

Durante a conversa com jornalistas, Trump e Hahn disseram que a FDA havia aprovado o uso em pacientes do coronavírus dos remédios cloroquina e hidroxicloroquina, vendidos sob receita para o tratamento de malária, lúpus e artrite reumatoide. Não houve testes clínicos para determinar se esses remédios de fato funcionam contra a doença, e Hahn não explicou por que a FDA decidiu apoiar seu uso, e tampouco explicou se a medida anunciada representava aprovação formal de um novo uso para os medicamentos.

Médicos na China e na França disseram que havia indicações de que os remédios podem ajudar, e muitos hospitais nos Estados Unidos já haviam começado a ministrá-los. Os medicamentos são baratos e relativamente seguros. Como seu uso no tratamento de outras doenças já foi aprovado, os médicos americanos estão liberados para usá-los em funções não previstas em bula, com base em seu critério.

Em documento sobre análise de medidas e recomendações, o CFM (Conselho Federal de Medicina, no Brasil) afirma que "nenhum tratamento antiviral específico é recomendado pela OMS [Organização Mundial da Saúde], CDC [Centro de Controle de Doenças, dos EUA] ou pelo governo brasileiro".

O conselho, diz, porém, que há diversos medicamentos e vacinas em estudo que, mesmo sem registro, têm sido usados sob uso compassivo, como é o caso com "lopinavir/ritonavir, na Itália, e de cloroquina e hidrocloroquina, na China".

No documento, o CFM afirma que, segundo um consenso de um grupo multicêntrico na China, o fosfato de cloroquina "pode ser considerado em pacientes com pneumonia por Covid‐19". Também diz que pesquisadores relataram que a cloroquina inibe o Sars-CoV-2 in vitro.

Mesmo com tais resultados, o médico infectologista Leonardo Weissmann, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), afirma que ainda não é possível afirmar que o uso de cloroquina seja eficaz no tratamento da Covid-19.

Um estudo clínico aberto e não randomizado francês usou a hidroxicloroquina associada a azitromicina em 20 pacientes. Houve redução ou desaparecimento da carga viral nos pacientes doentes.

A pesquisa feita com poucos pacientes já limita as conclusões sobre a efetividade. Além disso, segundo Weissmann, o estudo apresenta falhas. "Não há diferença entre cloroquina e placebo. A tal melhora com o antimicrobiano azitromicina foi observada em somente seis pacientes", diz.

Maurício Nogueira, virologista e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, diz que não é novidade a ação inibitória in vitro da cloroquina e derivados sobre coronavírus (o Sars-CoV-2 não é o único membro dessa família viral).

O estudo francês, porém, só mostra a redução da presença do vírus na nasofaringe e não fala sobre a evolução clínica dos pacientes. Tal redução significa melhora? "Provavelmente sim, mas por que os autores não mostraram?", questiona Nogueira.

O virologista afirma também que a cloroquina não significa cura e que o medicamento tem efeitos colaterais. "A população não deve tomar a medicação para prevenir nem usar sem receita médica."

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirmou que os medicamentos são registrados para o tratamento da artrite, lupus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária e que, apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da Covid-19.

"Assim, não há recomendação da Anvisa, no momento, para o uso em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação. Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde."

Hahn também disse que a FDA estava considerando o uso de “plasma convalescente”, ou seja, sangue de pessoas que se recuperaram da doença, que contém anticorpos que combatem o coronavírus e pode ser capaz de ajudar outros pacientes a combater a doença.

Trump e Hahn também disseram que planejavam permitir que os pacientes tivessem acesso ao remdesivir, um medicamento experimental, com base em uma norma de “uso compassivo”. O uso compassivo em geral é invocado para conceder acesso a medicamentos experimentais ainda não aprovados, capazes de salvar a vida de pacientes que de outra forma morreriam.

Quando o presidente foi questionado sobre se considerava aceitável a grande escassez de máscaras —que está forçando alguns profissionais de saúde a reutilizá-las—, ele passou a pergunta ao vice-presidente Mike Pence. Pence disse que já estava acontecendo “um aumento dramático na produção” de máscaras, mas não disse quando elas chegariam às mãos dos profissionais de saúde.

Tradução de Paulo Migliacci  

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