Descrição de chapéu Financial Times Coronavírus

Verdadeira taxa de letalidade do novo coronavírus é mistério

Proporção de mortos por Covid-19 varia muito de país para país; desconhecimento do número total de doentes pesa, mas não é único fator de distorção

Camilla Hodgson
Londres | Financial Times

O número na origem da angústia global sobre o coronavírus é atualmente 4,7%. Essa era, até a tarde de domingo (29), a porcentagem de pessoas que morreram depois de diagnosticadas com o vírus —32.137 das 685.623 que tiveram diagnóstico positivo para Covid-19 em todo o mundo.

Ele pode ser comparado à taxa de letalidade de 0,1% da gripe sazonal e 0,2% da pneumonia em países de alta renda. No entanto os 4,7% não só são uma taxa mutável mas também frustrantemente pouco confiável, tanto para os governos que tentam calibrar sua resposta política como para os cidadãos que tentam avaliar quanto devem se preocupar.

A proporção de pessoas que morreram da doença varia muito de país para país. Pesquisadores advertem que há tantas incertezas —e o número real de infecções não é a menor delas— que é quase impossível tirar conclusões firmes sobre a taxa de letalidade.

Mike Ryan, diretor-executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial de Saúde (OMS), citou quatro fatores que poderiam contribuir para as diferentes taxas de mortalidade: quem é infectado; que estágio a epidemia atingiu em um país; quantos testes o país está fazendo; e como sistemas de saúde diferentes estão se saindo.

Mas também há outras fontes de dúvida, incluindo quantas vítimas do coronavírus teriam morrido por outras causas se a pandemia não tivesse ocorrido. Em um ano típico, cerca de 56 milhões de pessoas morrem em todo o mundo —aproximadamente 153 mil por dia, em média.

Testes insuficientes

Possivelmente, a maior incógnita sobre a Covid-19 é o verdadeiro número de pessoas no mundo que contraíram o vírus. Sem essa informação, não se pode calcular uma taxa de letalidade precisa.
Muitas pessoas infectadas apresentarão sintomas brandos ou nenhum, e ficarão fora dos dados, a menos que sejam testadas. Como os recursos são limitados, e diferentes países estão testando em graus variados, o tamanho da lacuna de informação varia conforme o lugar.

John Ioannidis, professor de epidemiologia na Universidade Stanford, rotulou os dados que temos sobre a epidemia como "totalmente não confiáveis".

"Não sabemos se estamos deixando de captar infecções por um fator de 3 ou 300", escreveu ele na semana passada. Se milhares de pessoas a mais do que sabemos estiverem sobrevivendo, as atuais estimativas da taxa de letalidade estão elevadas demais, talvez por uma grande margem.

Pesquisadores da Universidade de Hong Kong estimaram que, em Wuhan, onde a pandemia começou, a provável taxa de letalidade era de 1,4% —muito menor que a estimativa anterior de 4,5%, que foi calculada usando estatísticas oficiais sobre os casos e as mortes na região.

No Reino Unido, cujo governo foi criticado por uma reação inicial demorada, só os casos mais sérios estão sendo testados. Ao todo, 1.231 pessoas morreram dos 19.758 casos confirmados, resultando em uma taxa de mortalidade de 6,2%.

Rosalind Smyth, professora de saúde infantil no University College London, disse que os dados oficiais do coronavírus no Reino Unido são "tão enganosos que não deveriam ser usados". Sob estimativas conservadoras, o verdadeiro número de pessoas infectadas "é provavelmente de cinco a dez vezes maior", disse ela.

Idade das pessoas infectadas

Muito depende de quem são os infectados, que idade eles têm e se tinham problemas de saúde anteriores. É bem sabido que os mais velhos são mais propensos a adoecer gravemente e morrer. Mas Robin May, professor de doenças infecciosas na Universidade de Birmingham, lembra: "Há pessoas de 70 anos que usam cadeiras de rodas e outras que correm quilômetros todos os dias".

A OMS também advertiu que pessoas mais jovens não são "invencíveis" e devem levar a sério o vírus.

A Itália é até agora o país mais seriamente afetado da Europa, com 10.023 mortes e 92.472 infecções, o que resulta em uma dura taxa de letalidade de 10,8%. Mas a idade média dos italianos que receberam diagnóstico de Covid-19 é 62, e a vasta maioria dos que morreram tinham 60 anos ou mais.

"A Itália era um exemplo de que pessoas saudáveis viviam muitos anos", disse o doutor Ryan. "Infelizmente, neste caso, ter essa população mais idosa pode fazer que a taxa de letalidade pareça maior por causa da distribuição etária real da população."

Mas países diferentes também estão relatando casos e mortes de maneiras diversas: na Itália, a Covid-19 é citado como a causa da morte mesmo que um paciente já estivesse doente e tenha morrido de uma combinação de doenças.

"Só 12% dos atestados de óbito mostraram um óbito diretamente advindo do coronavírus", disse na semana passada o assessor científico do ministro da Saúde da Itália.

O governo da Espanha simplesmente relata quantas pessoas com casos confirmados de coronavírus morreram, e não dá mais informações sobre qualquer outra condição médica.

Na Coreia do Sul, que tem uma população mais jovem que a italiana, cerca de um terço dos casos confirmados eram de pessoas com 30 anos ou menos: 152 morreram até agora das 9.583 infecções, dando uma taxa de mortalidade de 1,6%.

Na Alemanha, que registrou 455 mortes, a maioria das infecções ocorreu em pessoas entre 15 e 59 anos. Com base nos dados disponíveis, a taxa de letalidade no país é de aproximadamente 0,8%, mas isto também pode refletir sua abordagem de testar pessoas com sintomas brandos.

Risco de morte por outras causas

No Reino Unido, cerca de 150 mil pessoas morrem todos os anos entre janeiro e março. Até agora, a vasta maioria dos que morreram de Covid-19 na Grã-Bretanha tinham 70 anos ou mais, ou já apresentavam problemas de saúde sérios.

O que não está claro é quantas dessas mortes teriam ocorrido de qualquer modo se os pacientes não tivessem contraído o Covid-19.

Em uma audiência parlamentar na semana passada, o professor Neil Ferguson, diretor do Centro de Análise Global de Doenças Infecciosas no Imperial College London, disse que ainda não está claro quantas "mortes a mais" causadas pelo coronavírus haveria no Reino Unido. No entanto ele disse que a proporção de vítimas da Covid-19 que teriam morrido de qualquer forma pode ser "de até a metade ou dois terços".

Início dos preparativos

O estágio do ciclo epidêmico no qual um país começa a preparar seu sistema de saúde é crucial.

Se um sistema de saúde ficar sobrecarregado, como aconteceu na Itália e em partes da China, o padrão do tratamento dado aos pacientes provavelmente cairá. Isso tende a aumentar a taxa de letalidade.

Em um hospital da Lombardia, no norte da Itália, uma falta crônica de equipamento fez a equipe de atendimento usar máscaras de mergulho compradas numa loja esportiva para conectar os pacientes ao suprimento de oxigênio.

Diante do número de pacientes em tratamento intensivo na região, o doutor Ryan, da OMS, disse na semana passada que o fato de os médicos estarem salvando "tanta gente já é um milagre".

Dr. Clarke [programa online de educação médica para estudantes do Reino Unido e Irlanda], por sua vez, disse que "não é fato consumado que [o Reino Unido e a Alemanha] acabarão exatamente no mesmo lugar em que está a Itália", porque "não se podem tirar conclusões sólidas de uma curva num gráfico".

Estar abaixo da curva dá aos países mais tempo para se preparar para um surto e aprender com os erros dos outros.


Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Colaboraram Daniel Dombey, de Madri, e Miles Johnson, de Roma

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