Descrição de chapéu DeltaFolha Coronavírus

22 milhões vivem em regiões críticas para epidemia do coronavírus

Locais enfrentam falta de estrutura e têm altos índices de doenças crônicas

São Paulo

Cerca de 22 milhões de brasileiros moram em locais que podem estar especialmente vulneráveis à epidemia de coronavírus. São regiões que apresentam fatores como altos índices de doenças crônicas, condição de risco para a Covid-19, e número insuficiente de equipamentos necessários para tratar os casos mais graves.

Em sua maioria, são áreas fora dos grandes centros, o que em geral evita que sejam atingidas num primeiro momento pelo coronavírus (cidades populosas como São Paulo, Rio e Nova York tendem a sofrer primeiro). Mas a doença poderá ser dramática se chegar forte a esses locais, pela falta de estrutura ou condições de saúde da população.

Estão nesse perfil municípios no interior de todas as regiões do país, incluindo estados tão diversos como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Piauí.

A análise, moldada a partir de entrevistas com epidemiologistas, leva em conta o cenário das regiões de saúde, divisões que agrupam municípios e servem como referência para a formulação de políticas públicas. Das 450 existentes no país, 53 (12%) apresentam pontos de vulnerabilidade —destas, 49 já têm casos confirmados da doença.

Ao todo, as 53 regiões abarcam 648 municípios de 22 estados. São locais onde vivem quase 2 milhões de idosos, grupo que apresenta os mais altos índices de letalidade da Covid-19.

Para chegar ao resultado, a Folha analisou quatro quesitos: taxas de mortalidade por diabetes e por doenças cardíacas, taxa de mortalidade de idosos por gripe, proporção de respiradores e proporção de leitos de UTI do SUS por habitante.

Foi considerado como referência para os leitos de UTI o parâmetro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de 1 leito a cada 10 mil habitantes. Como não há parâmetros internacionais para os outros fatores, o indicador adotado foi a média do país.

As taxas de mortalidade têm como base os registros de 2014 a 2018.

A incidência de doenças crônicas (no caso, diabetes e problemas cardíacos) é considerada por especialistas um fator de alerta, visto que pacientes com comorbidades têm mais chances de apresentar quadros graves da infecção pelo novo coronavírus.

A mortalidade por gripe, por sua vez, dá indicativos de quão eficiente tem sido o sistema de saúde local para tratar casos de síndrome respiratória aguda grave, forma mais severa da doença.

Embora a evolução do quadro da Covid-19 seja mais rápida e mais crítica, infectologistas consultados pela reportagem afirmam que as duas enfermidades guardam algumas semelhanças em seu estado grave e podem demandar os mesmos equipamentos, como leitos de UTI e respiradores.

Foram observados os indicadores de mortalidade por gripe apenas em pessoas com mais de 60 anos. No caso das outras doenças, as taxas são para a população de todas as idades.

Os resultados mostram regiões especialmente vulneráveis à epidemia, onde um cenário de alto contágio pelo coronavírus pode superlotar rapidamente o sistema de saúde e levar a altos índices de letalidade. A estimativa é que 20% dos doentes precisam de internação, e 5% demandam leitos de UTI com respirador.

Isso não significa que outros locais não apresentem problemas para lidar com o coronavírus. O Amazonas não tem regiões de saúde que combinem falta de equipamentos e altas taxas de doenças crônicas, mas já tem hospitais em colapso.

Especialistas ressaltam que, embora o cenário acenda o sinal de alerta, nem todo município ou região de saúde precisa ter equipamentos de alta complexidade, como UTIs. Em locais que têm pouca demanda, é mais eficiente que as redes se articulem e concentrem equipamentos em poucas cidades.

“São serviços muito caros, exigem aparelhos sofisticados, profissionais capacitados. Pensando no custo, não faz sentido [ter em todos os municípios], porque normalmente não há demanda para manter um serviço desse nível em cidades menores”, diz Bruno Pereira Nunes, doutor em epidemiologia e professor da Universidade Federal de Pelotas.

Em meio à epidemia, ele diz, estratégias emergenciais como hospitais de campanha podem ser úteis para atender locais desabastecidos.

Embora mais da metade dos municípios com fatores de vulnerabilidade sejam pequenos, com menos de 50 mil habitantes, 49 das 53 regiões de saúde sob risco têm mais de 100 mil moradores.

A rigor, segundo o padrão da OMS, deveria haver em cada uma ao menos 10 leitos de UTI, mas a realidade é outra, mesmo nos locais mais populosos.

Sessenta e sete por cento dos cidadãos do Amapá vivem em uma região de saúde vulnerável, que engloba a capital e outros seis municípios.

São 566 mil pessoas atendidas por uma rede pública com estrutura de UTI e de respiradores abaixo da média do país. Há 6,5 leitos de terapia intensiva e 1,6 respirador para cada 100 mil pessoas.

Como a Folha mostrou, a ocupação dos leitos de UTI por pacientes com coronavírus no estado está acima de 50%. Até o momento, são 457 casos confirmados, com 13 mortes.

Outro local vulnerável é a região de saúde do Alto do Tietê, em São Paulo, onde vivem cerca de 3 milhões de pessoas.

É lá que fica Guarulhos, segunda cidade mais populosa do estado, que tem 37 mortos pela Covid-19 e mais de 300 casos —em número de registros, perde apenas para a capital.

A região, embora não tenha altas taxas de doenças crônica, tem uma rede pública com menos equipamentos que a média do país. Outra questão é a concentração populacional, que facilita o alastramento da doença.

O Paraná, por sua vez, tem mais de um milhão em duas regiões de saúde que já registram a Covid-19 e reúnem todos os fatores de vulnerabilidade: falta de equipamentos e grande número de doentes crônicos. Estão nesse cenário cidades como Paranavaí, no noroeste do estado.

Em Sergipe, 22% da população (cerca de 500 mil pessoas) vive em locais nessas condições.

Para minimizar o problema, secretarias de Saúde estão adquirindo leitos de UTI e respiradores. Enfrentam, contudo, concorrência de outros países, escassez da produção mundial e dificuldade em encontrar profissionais capacitados.

O Maranhão, por exemplo, fez uma operação de guerra para trazer da China 107 ventiladores mecânicos, após sucessivas tentativas frustradas.

Já a Bahia teve a compra cancelada pelos chineses, e a carga ficou retida nos Estados Unidos. O mesmo aconteceu com o Ceará, que hoje tem a rede hospitalar lotada por casos de coronavírus.

Doutor em saúde coletiva e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Dário Pasche diz que não é possível corrigir problemas estruturais da noite para o dia e equipar todos os locais vulnerabilizados. Ele defende que é preciso apostar em lógicas de regionalização, com concentração de equipamentos e integração entre regiões e municípios.

“Imaginar que no interior de Alagoas eu tenha que montar uma UTI para dar conta dessas pessoas [com coronavírus] talvez não seja o caminho. Eu não vou corrigir agora deficiência estruturais do sistema para responder uma epidemia. Não tenho intensivista para botar numa UTI de hoje para amanhã. A gente responde com medidas emergenciais”, diz.

Para ele, a lição que o Brasil precisa aprender com a epidemia é a necessidade de fortalecer e preservar o SUS, sem o qual a situação seria muito mais crítica.

“Você precisa de um sistema de saúde desenvolvido, e o que temos hoje é um sistema capenga. Talvez o aprendizado que a gente saia disso é que nós precisamos fortalecer um sistema público de qualidade, com capacidade técnica e tecnológica e com pesquisa”, diz.

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