Descrição de chapéu Coronavírus

Ar condicionado pode explicar por que coronavírus infectou só alguns clientes num restaurante

Estudo limitado indica o papel desempenhado pelas correntes de ar na difusão da doença em espaços fechados

Kenneth Chang
Nova York | The New York Times

Em janeiro, em um restaurante em Guangzhou, China, uma pessoa que havia sido infectada pelo novo coronavírus mas ainda não estava se sentindo doente parece ter infectado nove outros fregueses. Um dos aparelhos de ar condicionado do restaurante aparentemente espalhou as partículas do vírus pela sala de refeições.

Havia 73 pessoas presentes no mesmo pavimento do restaurante de cinco andares naquele dia, e a boa notícia é que nem todos eles adoeceram. O mesmo se aplica aos oito empregados que estavam trabalhando naquele local.

Pesquisadores chineses descreveram o incidente em um estudo que será publicado em julho pela revista acadêmica Emerging Infectious Diseases, uma publicação do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês).

O surto ilustra alguns dos desafios que os restaurantes enfrentarão quando tentarem reabrir. Os sistemas de ventilação podem criar padrões complexos de circulação de ar e manter o vírus na corrente de vento, e por isso distanciar as mesas em dois metros — a distância mínima que o CDC aconselha seja mantida com relação a outras pessoas —pode não ser suficiente para salvaguardar os fregueses de restaurantes.

Restaurantes fechados em Guangzhou, China, em abril de 2020 - Reuters

A natureza social dos almoços e jantares em restaurante pode elevar o risco. Quanto mais tempo as pessoas permanecerem em uma área contaminada, mais partículas de vírus elas provavelmente inalarão. Comer é uma atividade que não pode ser realizada enquanto uma pessoa usa máscara. Gotículas carregadas do vírus podem ser expelidas no ar como parte da respiração e da fala, e não apenas em forma de tosse e espirros.

Como o CDC aconselha agora, “evite agrupamentos grandes e pequenos em lugares privados e espaços públicos, como a casa de um amigo, parques, restaurantes, lojas, ou qualquer ouro lugar”.

Por outro lado, todas as pessoas que adoeceram no restaurante da China estavam ou na mesma mesa da pessoa contagiada ou em uma de duas mesas vizinhas. O fato de que pessoas mais afastadas tenham se mantido saudáveis é uma indicação positiva de que a transmissão primária do coronavírus ocorre por gotículas respiratórias de maior porte, que caem do ar mais rápido do que as gotículas menores conhecidas como aerossóis, capazes de flutuar por horas.

Em 24 de janeiro, uma família saiu para almoçar em um restaurante em Cantão, uma fervilhante metrópole no sul da China, a cerca de 130 quilômetros de Hong Kong.

A família tinha viajado de Wuhan, 830 quilômetros ao norte e o ponto focal do surto inicial do coronavírus, um dia antes de as autoridades chinesas decretarem o isolamento da cidade e da província de Hubei, na qual ela se localiza, a fim de desacelerar a expansão da doença.

No almoço, os cinco membros da família —que o estudo identifica como Família A —pareciam saudáveis. Mas mais tarde no mesmo dia, um deles, uma mulher de 63 anos, começou a apresentar febre e tosse, e foi a um hospital onde um exame a identificou como portadora do coronavírus.

Em duas semanas, nove das pessoas que tinham almoçado no mesmo andar do restaurante de Cantão naquele dia também foram identificadas como portadoras. Quatro eram parentes da mulher cuja infecção foi a primeira a ser detectada. Pode ser que tenham sido infectadas em outro lugar que não o restaurante.

Mas no caso das cinco demais pessoas, o restaurante parece ter sido a origem do contágio.

A mesa da Família A ficava na parte leste da sala de refeições de 140 metros quadrados, entre mesas onde duas outras famílias, não relacionadas e identificadas como Família B e Família C, também estavam almoçando.

A Família B e a Família A estiveram sentadas em mesas vizinhas por 53 minutos, e três membros da Família B —um casal e sua filha —adoeceram.

A Família C estava sentada em outra mesa, do mesmo lado da Família A, e sua estadia no restaurante coincidiu com a da Família A por 73 minutos. Dois de seus membros —mãe e filha—adoeceram.

Em foto divulgada pelo CDC, um diagrama do arranjo das mesas e do fluxo de ar condicionado em um restaurante com contaminação por coronavírus na China; os círculos vermelhos indicam o lugar onde sentaram futuros pacientes e o amarelo indica o primeiro paciente registrado
Em foto divulgada pelo CDC, um diagrama do arranjo das mesas e do fluxo de ar condicionado em um restaurante com contaminação por coronavírus na China; os círculos vermelhos indicam o lugar onde sentaram futuros pacientes e o amarelo indica o primeiro paciente registrado - NYT

Uma unidade de ar-condicionado ao lado da Família C soprava ar na direção sul por sobre as três mesas; parte desse ar provavelmente era rebatido pela parede em direção à Família C.

Porque o coronavírus ainda não tinha começado a se espalhar fora de Wuhan, as autoridades de saúde pública foram capazes de traçar os contatos recentes das famílias B e C e determinar que o restaurante era o único local provável onde elas poderiam ter entrado em contato com o vírus.

Os pesquisadores não declararam no estudo se algum dos convivas que não contraíram o coronavírus era membro das três famílias afetadas, ou se eles estavam sentados às 12 outras mesas do salão. As 73 pessoas passaram 14 dias em quarentena e não desenvolveram sintomas.

“Concluímos que, nesse surto, a transmissão das gotículas foi conduzida por meio de ventilação do ar condicionado”, os autores do estudo escreveram. “O fator chave de infecção era a direção da corrente de ar”.

O estudo de campo apresenta algumas limitações. Os pesquisadores não conduziram experimentos que simulam transmissão pelo ar, por exemplo.

Mas o médico Harvey Fineberg, que preside o Comitê Permanente sobre Doenças Infecciosas Emergentes e Ameaças à Saúde do Século 21, na Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos, descreveu o relatório como “instigante e esclarecedor”.

Ele disse que restaurantes deveriam levar em conta a direção dos fluxos de ar, ao dispor suas mesas. Luzes ultravioleta com propriedades germicidas também poderiam ser instaladas para destruir as partículas flutuantes do vírus, disse Fineberg. E as constatações do estudo podem ter implicações que vão além dos restaurantes.

“É esclarecedor com relação ao tipo de coisas que precisamos continuar a aprender enquanto tentamos configurar espaços de trabalho seguros”, disse Fineberg. “Não só restaurantes e locais de entretenimento seguros, mas locais de trabalho seguros”.

Tradução de Paulo Migliacci

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