Descrição de chapéu Coronavírus

Diário da privação: Fazia dois meses que os meninos não comiam fruta

Morador de Paraisópolis conta com solidariedade para sustentar família em meio a epidemia; leia 2º relato

São Paulo

Dar aos filhos pelo menos um pouco a mais do que recebeu. A ideia de Hebert Douglas, 24, assim como a de milhões de pais, era só essa. A realidade das últimas duas semanas imposta pela pandemia do novo coronavírus, no entanto, quase empurrou sua família de uma casa em Paraisópolis para a rua.

Desempregado há um ano e meio, vender água nos semáforos do Morumbi, bairro nobre da zona sul paulistana, ao lado da favela, era sua única forma de sustento. Com parte considerável da população sem ir às ruas, e sem ter a quem vender, restaram os bicos ocasionais como zanzar pelas vielas do bairro pobre para recolher recicláveis na favela e tentar vendê-los.

Obrigado a deixar a casa em que viviam, ele, a mulher, passaram a semana passada percorrendo a favela em busca de um novo lugar para viver. Entraram no imóvel de dois cômodos ainda sem saber como iriam pagar os R$ 450 de aluguel.

Assim como para Hebert, quarentena contra o vírus —que já causou 201 mortes e infectou 5.717 no país até esta terça-feira (31)— não é alternativa viável para um sem número de brasileiros. Cerca de 13 milhões vivem em favelas como a de Paraisópolis.

Para 72% deles, uma semana sem sair de casa representa queda sensível na renda e no padrão de vida, já baixo, de acordo com pesquisa do instituto DataFavela. Quase metade dessa população (47%) vive como Hebert: depende de um trabalho autônomo para sobreviver, indica o levantamento.

Para esse contingente de desassistidos, até aqui sem nenhum tipo de proteção social do governo, resta a solidariedade.

Desde sexta-feira (27), o pai de família conseguiu um bico em um mercado local. Um dia antes, a família recebeu barras de sabão e um frasco de álcool em gel para se proteger do coronavírus, doação obtida pela União de Moradores e Comerciantes e repassada para os mais necessitados da favela. A Folha os acompanha desde então.

A gente mudou ontem [segunda-feira] e hoje [as crianças] acordaram no meio da noite chorando. Minha menina, que é menor, ficou na cama, olhando para o teto, para as coisas, acho que sente como se não fosse a nossa casa. Não estão acostumados, né?

Dorme nós quatro [ele, a esposa e os filhos] juntos. O cara da casa foi legal e nos deu um colchão maior. Deixou também um armário de parede.

Os meninos comem o que a gente come, não tem muita diferença, entendeu? Arroz e feijão. Até esses dias aí, antes de receber a cesta básica, era isso. De vez em quando, meu filho pedia bolacha. Aí eu esquentava mais feijão e colocava no pratinho dele. Às vezes, ele comia. Às vezes, não. A menina, a mãe ainda dá o peito, então dá para segurar melhor.

Eu me sinto mal, né? Não tem jeito. Desde os 13 anos, cresci longe do meu pai e da minha mãe. Fui morar na rua, na 23 de Maio, perto do Ibirapuera, numa praça. Ver meus filhos passando pelo o que eu passei é treta.

Hoje tinha lá no mercado uma caixa de bananas que estavam prestes a estragar. Não tava estragado ainda, tá ligado? Aí, o dono do mercado deixou eu pegar e me arrumou as melhores. Trouxe pra casa.

Como tinha vindo leite em pó na cesta básica que recebi na segunda, do pessoal da Cufa, bati e fiz vitamina pra eles.

Fazia pra mais de dois meses. Acho que é isso [pergunta para a esposa]. A última vez foi quando eu fui na feira. Tinha R$ 20, comprei umas coisas e um cacho de banana. É, foi isso, dois meses que eles não comiam fruta.

Nesta terça-feira, Hebert recebeu duas mensagens em seu celular. Duas pessoas se dispuseram a arcar com os R$ 200 que faltam para ele completar o valor do aluguel da casa nova —o depósito foi feito direto na conta do proprietário e a ajudá-lo a comprar o básico de comida para a família.

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