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Coronavírus

Epidemia e distribuição de UTIs privadas escancaram desigualdade

Além de ter revelado o semiapartheid, a epidemia obriga-nos a olhar com lupa para o que poderá decidir sobre mortos e sobreviventes

São Paulo

Agora em um cenário de vida ou morte, a Covid-19 escancarou a dimensão da desigualdade no Brasil e os privilégios que algumas camadas detêm em relação às demais.

O muro entre ricos e pobres é tão alto no país que a epidemia provavelmente chegou de avião do exterior e atacou, no início, só as pessoas com planos de saúde e em condições de ir a hospitais particulares. Sem tanta segregação, inclusive física, algo tão inusitado jamais seria possível.

Além de ter revelado o semiapartheid, a epidemia que finalmente avança sobre todos obriga-nos a olhar com lupa para o que poderá decidir sobre mortos e sobreviventes.

Aí, não resta muita dúvida de que alguns brasileiros se sobressaem dentro de um país miserável.

Tome-se o número de leitos de UTIs no país: são 2,2 em média para cada 10 mil habitantes. Mas no SUS são apenas 1,4. Na rede privada, a média pula para 4,9 por 10 mil —mais um reflexo da concentração de renda de um sistema tributário regressivo, onde pobres pagam proporcionalmente mais impostos que os ricos e empresários recebem subsídios.

Ou Brasília, onde a elite do funcionalismo e dos participantes dos Três Poderes da República reside: nenhuma outra unidade da federação tem mais leitos de UTIs do que o Distrito Federal.

Na média, são 4,5 por 10 mil habitantes. No SUS, onde os pobres são tratados, a taxa é de 1,6 e ainda bem próxima à de outros estados. Mas ela salta para 11,6 leitos por 10 mil segurados quando se olha para a rede particular frequentada pelos mais ricos de Brasília.

Enquanto a metade mais pobre no país sobrevive com menos de R$ 850 ao mês, os funcionários do Poder Executivo recebem R$ 3.895 (a menor remuneração média entre os Poderes). O valor sobe para R$ 6.025 na média do Legislativo e a R$ 12.081 no Judiciário, segundo o Atlas do Estado Brasileiro.

Segundo o Banco Mundial, os servidores federais ganham no Brasil 67% a mais do que um empregado no setor privado em função semelhante, com a mesma formação e experiência profissional. O chamado “prêmio salarial” do funcionalismo brasileiro é o mais alto numa amostra de 53 países.

Entre parlamentares e magistrados, os salários no topo são muitos maiores, acima de R$ 30 mil, sem contar penduricalhos. Mesmo assim, cada Poder já paga, em média, mais do que rendimento médio do trabalho em todo o país, de R$ 2.360.

No Distrito Federal, o número de leitos de UTIs ligados aos planos de saúde é mais que o dobro da média nacional e quase o triplo de São Paulo, estado mais rico e dinâmico do Brasil.

Pela ótica mais valiosa do momento, a dos leitos de UTI, São Paulo pode inclusive ser considerado um estado menos desigual —tem 1,9 leito para cada 10 mil no SUS e 4,1 no setor privado.

Por essa mesma lente, salta aos olhos ainda leitos de UTIs privados acima da média nacional em estados onde a participação relativa de empregos públicos é maior —como nos ex-territórios federais do Acre, do Amapá e de Rondônia.

No Rio, com muitos militares e servidores aposentados, também há bem mais UTIs privadas que na média do país e em São Paulo.

A disparidade de renda entre os setores público e privado é só parte do problema, atravessado por questões históricas e pela falta de medidas estruturais, como uma reforma tributária ou o fim de subsídios para camadas do empresariado.

Tudo isso ainda faz com que o Brasil seja um dos países mais desiguais do mundo.

Mas nesta emergência nacional, a rapidez com que a epidemia avança e o setor privado afunda só perde para a velocidade com que a ideia de se cortar temporariamente rendimentos mais elevados no setor público vai sendo deixada de lado.

Com o tamanho da recessão à caminho e a arrecadação que paga os servidores desabando, é um contrassenso que até agora uma medida desse tipo não tenha sido dirigida aos que ganham mais no país, inclusive sem correr o risco de acabarem demitidos.

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