Descrição de chapéu Coronavírus

Isolamento imposto por coronavírus desregula sono, alimentação e trabalho

Dentro de casa, famílias e pessoas solteiras relatam dificuldade de manter hábitos e horários da rotina

Vanessa Gonçalves Taves
São Paulo

O isolamento social causado pela pandemia do coronavírus não tem mexido só nas áreas da saúde, economia e trabalho. Se, apesar da correria do dia a dia, pessoas solteiras e famílias tinham uma rotina, agora ela foi completamente modificada com a quarentena.

Horários das refeições, descanso, trabalho e até o sono têm sido influenciados pelo confinamento.

A jornalista Yohana Scaranare, 27, nunca teve problemas com o sono. Mas, desde o início da quarentena, tem tido dificuldades para dormir. “Geralmente durmo muito bem. Mas agora teve dia em que às 5h30 estava acordadíssima. Além disso, tenho dormido poucas horas. Dificilmente consigo dormir mais do que cinco”.

Yohana trabalha numa agência de conteúdo digital e segue em home office na companhia de sua cachorra Nala. Ela conta que essa mudança no sono tem refletido no seu desempenho durante o dia. “Fico cansada, não como direito ou nos horários certos”. Para ela, a ansiedade pode ser a responsável por deitar na cama e não conseguir dormir. “Fico rolando na cama, ansiosa, com a sensação de que tenho algo que tenho que resolver”.

A jornalista Yohana Scaranare, que passou a ter problemas de sono na atual pandemia de coronavírus
A jornalista Yohana Scaranare, que passou a ter problemas de sono no isolamento - Arquivo pessoal

Coordenadora pedagógica de uma escola de negócios de Campinas (SP), Janaína Quitério, 39, viu sua rotina virar de ponta-cabeça com o isolamento. Por ter diabetes tipo 1, está afastada dos eventos presenciais desde 13 de março. Como companhia tem a filha Iara, 10, e o excesso de trabalho. A empresa para a qual trabalha demitiu 25 funcionários e quem ficou tem se desdobrado para dar conta das demandas.

Com receio da contaminação por Covid-19, Janaína está há 15 dias sem sair de casa e tem evitado ao máximo solicitar refeições por aplicativos, ou seja, teve de incluir mais uma tarefa no seu dia a dia: cozinhar. Atarefada com a produção de textos e conteúdos dos treinamentos, ela esqueceu do almoço da filha.

“Logo no início isolamento minha filha me lembrou que costumava almoçar às 11h30 na escola. Mas já eram 14h30 e eu ainda nem tinha começado preparar o almoço”, conta Janaína.

Depois do “puxão de orelha”, ela estabeleceu horários para as refeições para não deixar Iara com fome. “São coisas de rotina que no dia a dia normal que você não tinha. Eu nem fazia comida. Meu último botijão de gás durou 8 meses. Agora estou fazendo comida todo dia e evitando desperdícios porque não quero sair de casa”, relata.

Janaina Quitério, que relata exaustão para conciliar tarefas no isolamento, ao lado da filha
Janaina Quitério, que relata exaustão ao conciliar tarefas no isolamento, ao lado da filha - Arquivo pessoal

Com uma rotina intensa de trabalho, das 8h às 22h, impôs duas coisas: parar por 30 minutos para almoçar sem olhar para o celular e 20 minutos para tomar sol. “É o que eu consigo. Estou numa fase de trabalho muito intenso. Essas paradas por um lado são bas, porque me desligo um pouco do que está acontecendo e consigo ficar mais produtiva. Mas, por outro, tenho muito cansaço”.

A vida da publicitária Thaís Lopes Diniz, 32, mudou completamente com a chegada a pandemia do coronavírus no Brasil. Saiu cancelando tudo —três viagens, reuniões, encontros profissionais e o início na vida política depois de se formar no curso do Renova BR.

Até o trabalho social ter de ser suspenso. Thaís e parceiros montaram uma oficina da transformação, que leva capacitação e empoderamento para mulheres vulneráveis que vivem num centro de acolhida no centro de São Paulo. “Eles estão isolados. Mesmo se não tivessem, não teria como fazer. Vivem 140 mulheres e crianças vítimas de situação de abuso no prédio”, conta.

Embora não tenha perdido o sono, Thaís se viu chorando pelos cantos nos primeiros dias do isolamento. Ela teme que seus pais e avós sejam contaminados pelo vírus. “Fiquei num caos interno por não conseguir planejar nada. Por não ter expectativa de futuro."

Como a vida parou só do lado de fora, viu seu fluxo de trabalho aumentar demais. “Se eu ficar trabalhando 15 horas por dia, vai ter trabalho pra 20 horas”, constata.

Para lidar como toda essa pressão, a publicitária acabou descontando a ansiedade na comida. “Eu e meu marido estamos cozinhando e comemos muito. Sem parar. Enquanto tem gente que esquece de comer, eu passo o dia comendo sem parar”.

A publicitária Thaís Lopes Diniz, 32, que suspendeu o início da vida política
A publicitária Thaís Lopes Diniz, 32, que suspendeu o início da vida política por causa da pandemia - Arquivo pessoal

Thaís completa 32 anos no próximo sábado (4) e já marcou uma festa virtual com os amigos, como uma forma de aliviar a pressão. Embora o encontro seja à distância, uma coisa não vai faltar na sua comemoração: comida.

Produtora de um canal no YouTube, Fernanda Oening do Carmo, 40, está acostumada a bater perna atrás de pautas e personagens. Já vinha tentado se adaptar ao home office desde eu começou a trabalhar para o canal, mas com o início do isolamento se viu trabalhando em casa ao lado dos dois filhos, Clara, 10, e Theo, 8. “Moro sozinha com os dois, mas antes contava com a ajuda da minha mãe, que é idosa e está no grupo de risco. Mas desde que chegou a quarentena o trabalho aumentou e se deixar já acordo na frente do computador”.

Com tanta coisa para fazer e sem rede e apoio no momento, Fernanda diz que são os filhos que a lembram de comer. “O café da manhã das crianças é achocolatado com bolacha e seja o que Deus quiser. Eles que me lembram que estão com fome, porque esqueço de fazer almoço ou porque não deu tempo mesmo”.

Fernanda Oening do Carmo, 40, ao lado dos filhos, Clara, 10, e Theo, 8
Fernanda Oening do Carmo, 40, ao lado dos filhos, Clara, 10, e Theo, 8 - Arquivo pessoal

No dia em que falou com Folha, a produtora passou do dia sem comer porque esqueceu. Foi ‘almojantar’, às 21h26, um balde de pipoca. “Passei o dia inteiro sentada no sofá com o computador no colo. Não consegui fazer mais nada. Só consegui ficar em reunião de pauta e falando com fontes”.

Fernanda diz que a quarentena tem sido caótica para ela. “Realmente não estou conseguindo me organizar com meus horários. Às vezes deu meia-noite e não tomei banho. Minha vida está assim. Vamos ver até onde eu aguento”, conclui.

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