Descrição de chapéu Coronavírus

Médicos de NY veem espessamento de sangue e coágulos de pacientes com coronavírus

Até esta quinta (23) EUA tinham mais de 834 mil casos de Covid-19 confirmados e 42.501 mortes

Jonathan Allen
Nova York | Reuters

Enquanto o novo coronavírus se espalhava pela cidade de Nova York no final de março, médicos do Hospital Mount Sinai perceberam que algo estranho estava acontecendo com o sangue dos pacientes.

Sinais de espessamento do sangue e coagulação foram detectados em vários órgãos por médicos de diferentes especialidades. Esta viria a ser uma das formas alarmantes pelas quais o vírus ataca o corpo, o que médicos de lá e de outros lugares começaram a perceber.

No Mount Sinai, nefrologistas notaram que cateteres de diálise nos rins se entupiam com coágulos. Pneumologistas monitorando pacientes de Covid-19 em ventiladores mecânicos viram que partes dos pulmões estavam estranhamente sem sangue. Neurocirurgiões enfrentaram um aumento da carga habitual de derrames devidos a coágulos sanguíneos, cujas vítimas tendiam a ser mais jovens e a metade das quais tinha dado positivo no teste do coronavírus.

"É marcante como essa doença causa a formação de coágulos", disse em uma entrevista o doutor J. Mocco, neurocirurgião no Mount Sinai, descrevendo como alguns médicos pensam que a Covid-19, doença causada pelo coronavírus, é mais que uma doença pulmonar. Em alguns casos, disse Mocco, um derrame foi o primeiro sintoma da Covid-19 em pacientes jovens.

A Times Square, em Nova York, quase deserta nas primeiras horas da manhã de 23 de abril de 2020 devido à pandemia de coronavírus
A Times Square, em Nova York, quase deserta nas primeiras horas da manhã de 23 de abril de 2020 devido à pandemia de coronavírus - Johannes Eisele/AFP

Quando colegas de diversas especialidades reuniram suas observações, eles criaram um novo protocolo de tratamento. Hoje, os pacientes recebem altas doses de uma droga que afina o sangue antes mesmo que surja alguma evidência de coagulação.

"Talvez, apenas talvez, evitando a coagulação seja possível tornar a doença menos severa", disse o doutor David Reich, presidente do hospital. O novo protocolo não será usado em certos pacientes de alto risco porque os afinadores de sangue podem levar a sangramento no cérebro e em outros órgãos.

Engraçado você dizer isso

Durante três semanas a partir de meados de março, Mocco atendeu 32 pacientes de derrame com grandes bloqueios de sangue no cérebro, o dobro do número habitual nesse período.

Cinco eram incomumente jovens, com menos de 49 anos, sem fatores de risco evidentes para derrame, "o que é maluco", disse ele. "Muito, muito atípico." O mais moço tinha apenas 31 anos.

Pelo menos a metade dos 32 pacientes deram positivo no teste da Covid-19, segundo Mocco.

Enquanto isso, o doutor Hooman Poor, especialista em pulmão no Mount Sinai, estava trabalhando até tarde com 14 pacientes em ventiladores. As leituras dos aparelhos não eram o que ele esperava.

Os pulmões não pareciam rígidos, como é comum na pneumonia. Parecia mais que o sangue não estava circulando livremente pelos pulmões para ser oxigenado pela respiração.

Poor encontrou um médico de rins naquela noite, que comentou que os cateteres de diálise estavam ficando entupidos com o sangue.

"E eu respondi: 'Engraçado você dizer isso, porque acho que todos esses pacientes têm coágulos de sangue nos pulmões'", lembrou Poor.

Reich, o presidente do hospital, contou a Poor sobre o surto de derrames notado por Mocco e disse que os dois deveriam trabalhar em equipe. Isso deu origem a dias de discussões e reuniões com os chefes de departamento do hospital.

Às 2h46 do domingo de Páscoa, Poor enviou a Mocco o primeiro esboço do que se tornaria o novo protocolo do hospital.

Descobertas compartilhadas

Enquanto suas alas começavam a ficar superlotadas com pacientes da Covid-19, os médicos do Mount Sinai leram estudos que descreviam conclusões semelhantes de médicos na província de Hubei, na China, e de outras áreas muito atingidas, e as discutiram com seus pares em telefonemas e seminários na web.

Mocco ligou para neurocirurgiões que conhecia em outras partes dos Estados Unidos. No hospital da Universidade Thomas Jefferson, na Filadélfia, o doutor Pascal Jabbour tinha começado a ver um aumento semelhante de derrames em jovens com Covid-19. O modo como o sangue dos pacientes congelava lhe lembrou doenças congênitas como lúpus, ou certos cânceres.

"Nunca vi outros vírus causarem isso", disse Jabbour.

Em Boston, o Centro Médico Beth Israel Deaconess começou um teste clínico no início deste mês para ver se a droga anticoagulante tPA poderia ajudar os pacientes graves de Covid-19.

A coagulação pode surgir em qualquer pessoa muito doente que passe longos períodos de tempo imóvel num ventilador, mas os médicos dizem que o problema parecia surgir mais cedo em pacientes de Covid-19, como uma consequência mais direta do vírus.

No Mount Sinai, pacientes em tratamento intensivo muitas vezes recebem o agente afinador do sangue heparina em doses profiláticas mais fracas. Sob o novo protocolo, doses mais altas de heparina normalmente usadas para dissolver coágulos serão dadas aos pacientes antes que os coágulos sejam detectados.

O tratamento se soma a uma caixa de ferramentas crescente no hospital, onde alguns pacientes estão recebendo o plasma rico em anticorpos de pacientes recuperados da Covid-19, ou drogas antirretrovirais experimentais.

A Sociedade Americana de Hematologia, que também notou a coagulação, diz em sua orientação aos médicos que os benefícios da terapia anticoagulante para pacientes de Covid-19 que não mostram sinais de coagulação são "atualmente desconhecidos".

"Eu certamente não esperaria ouvir harpas tocando e anjos cantando, e que as pessoas arranquem suas linhas intravenosas e saiam dançando do hospital", disse Reich. "Provavelmente será algo que apenas vai moderar a extensão da doença."

*Colaborou Jonathan Allen, em Nova York

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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