Se tem sintomas do coronavírus, presuma estar doente, mesmo que teste dê negativo

Testagem tem probabilidade alta de não detectar infecções; chance de falso positivo, por outro lado, é baixa

Harlan M. Krumholz
The New York Times

Você teve algumas exposições que podem colocá-lo sob risco de estar com o coronavírus. Alguns dias depois, você tem uma tosse feia, sente certa falta de ar e está realmente cansado. Você tira a temperatura: 38,5 graus. Febre.

Você desconfia que tenha a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Os dias vão passando, e seu médico lhe diz para ficar em casa a menos que seu estado piore. Você se sente mal e finalmente marca uma consulta.

Eles fazem o teste da gripe enfiando um bastonete no seu nariz, e lhe dizem que o teste deu negativo, você não tem gripe. Dizem que estão economizando os testes da Covid-19 para as pessoas em pior estado. Você volta para casa com uma receita de antibiótico, possivelmente porque eles não sabem o que mais fazer, e lê sobre celebridades que deram positivo no teste, mas não parecem tão doentes.

Alguns dias depois, ainda com febre, você volta e os médicos concordam em lhe aplicar o teste do Sars-Cov-2, o vírus que causa a Covid-19. Mais uma vez metem algo no seu nariz até o que parece ser a parte inferior do olho.

Eles lhe dizem que o resultado estará disponível em alguns dias; você volta para casa e espera.

Finalmente o resultado sai e lhe dizem que você não tem a Covid-19. E agora?

Essa é a história real de um paciente. Na verdade, é a história de muita gente —pelo menos uma versão dela. Em todo o mundo, pessoas com sinais e sintomas da Covid-19 estão dando negativo no teste e se perguntando o que isso significa. Elas não aparecem nas estatísticas e são deixadas no limbo sobre o que devem fazer.

O problema pode estar no teste. Os testes atuais do coronavírus podem ter uma porcentagem particularmente elevada de infecções não detectadas. A boa notícia é que os testes parecem ser altamente específicos: se seu teste der positivo, é quase certo que você tem a infecção.

O teste mais comum para detectar o coronavírus envolve um processo chamado reação em cadeia da polimerase com transcrição reversa, RT-PCR na sigla em inglês, uma mistura de palavras que descreve um método capaz de detectar partículas de vírus geralmente presentes em secreções respiratórias durante o início de uma infecção. De um ponto de vista técnico, sob condições ideais, esses testes podem detectar pequenas quantidades de RNA viral.

No mundo real, porém, a experiência pode ser muito diferente, e o vírus pode passar despercebido. O melhor que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças podem dizer é que, se seu teste der negativo, "você provavelmente não está infectado no momento em que seu espécime foi coletado". A palavra chave aqui é "provavelmente".

Os resultados falso-negativos em testes —que indicam que a pessoa não está infectada, quando na verdade está— parecem ser desconfortavelmente comuns. Cada vez mais, e de modo perturbador, ouço um número crescente de histórias de meus colegas médicos e de pacientes que dão negativo no teste do coronavírus e, mais tarde, positivo —ou pessoas que quase certamente estão infectadas e seus testes dão negativo.

Infelizmente, temos muito poucos dados públicos nos EUA sobre a taxa de falso-negativos desses testes na prática clínica. Pesquisas da China indicam que o índice pode ser de aproximadamente 30%.

Alguns de meus colegas, especialistas em medicina laboratorial, manifestam preocupação de que a taxa nos EUA seja ainda maior.

Há muitos motivos para um teste dar falso-negativo em condições de vida real. Talvez a amostragem seja inadequada. Uma técnica comum é coletar secreções nasais do fundo do nariz e depois girar o bastonete várias vezes. Não é um procedimento fácil de praticar ou para o paciente tolerar. Outras causas possíveis de resultados falso-negativos se relacionam a técnicas de laboratório e às substâncias usadas nos testes.

Então, em que pé ficamos? Mesmo com mais testes, provavelmente estaremos subestimando a disseminação do vírus. Por enquanto, devemos supor que qualquer pessoa pode ser portadora do vírus.

Se você teve exposições prováveis e sintomas que sugerem infecção da Covid-19, provavelmente você tem a doença —mesmo que seu teste dê negativo.

Todos devemos continuar praticando os hábitos que impedem sua disseminação —lavar as mãos rigorosamente, não tocar o rosto, distanciamento social. E precisamos de melhor informação sobre o desempenho desses testes no mundo real —incluindo novos testes que são lançados.

Mesmo quando surgirem testes melhores, deveremos sempre ver o resultado do teste no contexto das outras informações que temos. É uma lição que perdura em toda a medicina: veja a imagem maior, não um dado isolado. Verifique a verdade usando todas as fontes de informação que você tiver, não importa quão bom seja um teste. E não se intimide em questionar uma conclusão que não se encaixe bem nos fatos.

Harlan Krumholz é professor de medicina na Universidade Yale e diretor do Centro de Pesquisa e Avaliação de Resultados no Centro Hospitalar de Yale em New Haven (Connecticut)

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