Descrição de chapéu Coronavírus

Passado de atleta, em qualquer nível, não garante resposta contra coronavírus

Atividade física ajuda imunidade, mas não deve ser iniciada do zero, sem acompanhamento profissional, em meio à pandemia

São Paulo

Não restam dúvidas de que a prática esportiva é benéfica à saúde. Contudo a crença disseminada em seus benefícios, sobretudo aqueles a longo prazo, às vezes é superestimada.

Na última quinta (30) o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), defendendo a volta do calendário do futebol, voltou a usar o argumento de que as boas condições físicas de atletas os protegeriam em caso de infecção pelo novo coronavírus.

Na ocasião anterior, ele havia evocado seu passado de atleta para dizer que uma "gripezinha ou resfriadinho", em referência à Covid-19, não o derrubariam.

O esporte pode, de fato, aumentar a resposta imunológica do corpo. Porém basta um curto período de sedentarismo para que já não haja mais diferença na comparação com o sistema de defesa de quem não é ativo, por exemplo.

Homem se exercita nas ruas de Perdizes (zona oeste de São Paulo) durante a pandemia de coronavírus; homem de short e camiseta passa correndo numa calçada; ao fundo veem-se um táxi e um ônibus, na rua
Homem se exercita nas ruas de Perdizes (zona oeste de São Paulo) durante a pandemia de coronavírus - Jardiel Carvalho - 19.mar.20/Folhapress


“O sistema imunológico se adapta, como um músculo, ao estresse do esporte. Um cara treinado, com bom preparo, numa situação [de infecção viral, por exemplo], provavelmente o vai ter uma reação melhor. Mas, na hora que você para, em dois meses você perdeu quase tudo que se tinha em função da atividade”, explica Mauro Vaisberg, professor de medicina esportiva da Unifesp.

O médico diz que, apesar de melhorar a resposta do sistema imunológico, a prática esportiva não é uma capa de super-herói. Especialistas apontam para o perigo que doenças virais, como o coronavírus, podem apresentar para quem já foi atleta e hoje não é mais ativo.

“Tudo depende. Ele tem colesterol regulado, não está hipertenso, não fuma, nem bebe, mantém atividade regular? Tem menor chance de complicação cardiovascular. Por outro lado, existem pessoas que deixam a vida de atleta e ficam obesos, diabéticos”, explica Ludhmila Hajjar, professora de cardiologia na Faculdade de Medicina da USP.

“Em qualquer virose, em qualquer atleta, recomenda-se afastamento total da atividade física", diz Nabil Ghorayeb, cardiologista e médico do esporte. "Existe uma quebra de imunidade que o próprio atleta tem pelos exercícios físicos e que facilita a infecção. Às vezes, uma infecção banal pode causar uma miocardite ou pericardite”, completa.

Todo vírus, por característica, tem um tropismo pelo coração, ou seja, uma propensão a se alocar no órgão. Quanto mais sangue passar por ele, carregando células com a doença, maior a chance de infecção.

Por isso, Vaisberg afirma que, se você não pratica esporte regularmente, o momento não é o ideal para se começar.

Os sintomas da Covid-19 podem demorar a aparecer, e fazer uma atividade que aumente o fluxo de sangue aumenta a chance de a doença causar uma complicação cardíaca. O quadro pode evoluir para um caso de insuficiência, sobretudo se a pessoa já tiver algum déficit vascular anterior, mesmo que desconhecido até então.

“Quem já faz exercício diminui a intensidade. Esse papo de histórico de atleta é besteira. O fato de o cara fazer exercício ajuda, mas não é uma proteção total”, explica ele.

Hajjar aponta ainda que a prática esportiva sem supervisão pode levar à hipertrofia cardíaca, ou seja, um aumento desproporcional do músculo cardíaco. Se for leve, não leva a nada, mas, se for acentuada, pode gerar insuficiência cardíaca, afirma.

Existem outros aspectos, menos daninhos, que também devem ser levados em consideração.

Nissim Baruch, 66, sempre gostou das aulas de educação física. No clube A Hebraica, em São Paulo, jogava futebol, tênis, e vôlei. Conta ser um amante do esporte, um amador. Pouco depois dos 40 anos, começou a correr.

“Realmente foi uma coisa que me deixou muito bem, comecei a alternar jogar bola e correr. Aí parei de jogar bola porque tinha a preocupação de me machucar jogando bola e não poder mais correr”, conta.

A prática era diária. Também participava de corridas de sete, dez ou mais quilômetros de distância. Chegou a fazer algumas poucas maratonas. Mas nunca, até começar a sentir dores, contou com o acompanhamento necessário de profissionais.

“Junção de estresse com uma pisada errada é carregar uma bomba de efeito retardado”, resume Vaisberg, que é médico de Baruch, seu colega de clube —ele conta que faziam piadas quando ele tentava alertar o amigo dos problemas que estavam por vir.

Reumatologista há 41 anos, Vaisberg elenca entre as complicações mais comuns em amadores as tendinites e questões musculares, decorrentes de problemas biomecânicos e/ou estresse.

Explica que a tensão cotidiana muitas vezes é transferida para o corpo. Ao fazermos qualquer exercício, esforçamos um músculo já estressado, o que leva a lesões.

Isso sem contar questões preexistentes, mas não diagnosticadas, como pequenos problemas ósseos, desequilíbrio muscular, déficits cardíacos ou até doenças genéticas, por exemplo. O que pode surgir como pequeno incômodo acaba virando um problemão, afirma.

“O amador pode ter essas questões, assim como o profissional. Desvio de coluna, problema de coronária, colesterol… mas com muito mais chance de virar um desequilíbrio, porque o profissional tem uma equipe [que cuida dele], o amador não”, diz Vaisberg.

Mesmo assim, profissionais também padecem de vários efeitos indesejados da prática exigente. Conviver com dores é uma rotina comum relatada por muitos atletas aposentados.

Após 11 cirurgias, a maioria no joelho direito, a ex-ginasta e hoje educadora física Daiane dos Santos conta que só há uma maneira de aliviar o que sente nas articulações: fazer exercícios.

“O corpo pede”, diz à Folha. Ela conta que, após passar anos acostumado aos impactos das piruetas e dos saltos, carrega consigo, além das lesões, a necessidade de se movimentar. Poucos dias parada são suficientes para as dores aparecerem, explica.

O também ex-ginasta Diego Hypólito, o ex-jogador de futebol Edu Dracena, o ex-tenista Fernando Meligeni são alguns dos que já relataram à Folha como convivem diariamente com dores após a carreira de atleta.

Daiane lembra, insistentemente, que os problemas não são exclusivos para quem faz parte da elite do esporte. Qualquer um, para manter uma prática saudável, precisa de acompanhamento de profissionais da área, sejam educadores, fisioterapeutas ou até nutricionistas.

“Muita gente acaba excedendo o limite. Está doendo, mas você faz mais, para buscar o corpo perfeito. [As pessoas às vezes] não vão buscar saúde, querem ficar magras e saradas. Precisa ter equilíbrio”, defende a ex-ginasta.

Ela recomenda a atividade física para todas as idades, de crianças a idosos, seja uma aula de dança, sessões de pilates ou caminhadas no parque. O importante é começar gradualmente, encontrar o esporte certo para você e fazer exames regulares.

“E, atleta, tome cuidado ao desacelerar, não pode deixar de fazer atividade física completamente. A diferença é entre o alto impacto e a atividade normal. Vão vir as consequências de parar de treinar. A musculatura vira gordura normalmente”, finaliza.

Por isso, a regra defendida por todos é simples: a prática esportiva é saudável e, para que não se torne um problema, basta ter um acompanhamento profissional mínimo.

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