Descrição de chapéu Coronavírus

Convivência, medos e rotina de quarentena esfriam libido de casais

Ansiedade, angústia, depressão, medo do desemprego, insônia e preocupações com a política afetam o desejo, diz psiquiatra

São Paulo

Pode ser questão de perspectiva. Algo como enxergar o copo meio cheio ou meio vazio. Vocês se amam e escolheram viver juntos. Mas veio a pandemia do novo coronavírus e, com ela, a quarentena. Aí, caro casal, nada parece ser como antes, nem mesmo na cama.

Isso é bom ou ruim? Faça o teste Chico Buarque de relacionamento e vamos descobrir. Troque o ela por ele, singular ou plural, se for o caso:

“Todo dia ela faz tudo sempre igual/ Me sacode às seis horas da manhã/Me sorri um sorriso pontual/E me beija com a boca de hortelã...”

Depois disso, claro, vem o resto do dia. E se isso soa agradável e se parece com sua realidade, ótimo. Agora, se isso te causa um suspiro profundo e certo desencanto, também não é fim do mundo.

Montanaro

Assim como muitos outros casais vocês estão sentindo os efeitos da quarentena —que não poupa nem a libido, diz o psiquiatra Arthur Guerra. “É um momento diferente, que ninguém estava esperando, com diferentes repercussões”, diz.

Segundo Guerra, em suas consultas, seus pacientes levam as angústias que nascem das mudanças na rotina sexual. “São três situações possíveis: ou fica igual, ou há um distanciamento, ou —deve ter alguém, que não conheço, que diga— está melhor agora.”

No contexto da pandemia, parece impossível não se contaminar, se não pelo coronavírus, pelas pressões exteriores. “Ansiedade, angústia, depressão, medo de perder o emprego, problemas como o sono, preocupações com a política, tudo isso afeta a libido”, afirma Guerra.

Há 17 anos, dividindo o cotidiano com a companheira, o comerciante Paulo Henrique de Almeida —o nome foi trocado a seu pedido— sente um por um esses problemas.

“Além de casados, somos sócios em uma empresa que está sofrendo com a quarentena, então o acúmulo de estresse, a convivência tensa durante todo o dia acaba influenciando também nessa área”, diz.

Some a isso os cuidados com um filho pequeno. Pronto. “Nosso restaurante está abrindo para entregas, e acabamos menos isolados. Porém, o estresse a convivência com o filho pequeno em ritmo de férias acaba destruindo a libido.”

É o mesmo pelo que passa o publicitário Pedro Queiroz (que também pede para ter o nome alterado). “Está um pouco pior. Como temos um bebê, isso alterou também nossa vida sexual. E a rotina da pandemia piorou também. Não foi benéfico de forma alguma.”

O casal divide agora rotina de home office com os cuidados com a filha. Para ele a palavra que define a vida na quarentena é “estafa”. “A cama virou só o lugar para dormir. Dormir, não, desmaiar.”

De uma forma ou de outra, diz Guerra, os casais vão acabar se adaptando a essa realidade de convivência intensa forçada. Segundo ele, é como se os casais pusessem uma lente de aumento sobre problemas que, muitas vezes, já estavam ali. E depois, quando isso passar?

“Certamente vai haver mudanças. Os últimos conflitos foram bastante intensos, agravados inclusive pela falta de sexo. Dependendo da demora ou do estado profissional em que sair da quarentena, será preciso um bom tempo de readaptação conjugal, pois o baque emocional foi forte. É possível que [a relação] saia fortalecida, mas precisará ser trabalhada”, diz Paulo Henrique.

“Quando isso acabar, vamos para um mundo que talvez tenha alguns códigos diferentes”, diz o psiquiatra. “Os relacionamentos eram mais soltos. Agora há uma nova preocupação, não é só a camisinha.”

O estudante Henrique Santos —outro que pediu para ter o nome trocado— tem um relacionamento que, entre idas e vindas, se estende desde 2016 com quem considera hoje ex-namorado. Há cerca de um mês, os dois se reaproximaram. Surgiu um convite para visitar a casa nova do ex e ele furou a quarentena.

Antes, no entanto, achou por bem fazer um teste para saber se havia entrado em contato com o vírus. Negativo. Foi em frente. “Estava seguindo a quarentena direito, mas como ele é uma pessoa que já saía pouco de casa...”

Para ele, se os dois estivessem vivendo juntos, a libido não teria diminuído e o sexo estaria ótimo.

Agora, se você não tem tanta certeza disso e chegar à conclusão que a quarentena apenas ressaltou o que já não ia bem, na cama e fora dela, vamos ao próximo teste:

“Por favor / Deixe em paz meu coração/ Que ele é um pote até aqui de mágoa/E qualquer desatenção, faça não/Pode ser a gota d’água.”

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.