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Desaba internação em hospitais de campanha em SP, e prefeitura vai fechar Pacaembu

Gestão diz que mudanças em unidades dependem de reclassificação de fase em plano de flexibilização

São Paulo

Criados para aliviar a rede municipal durante o pico da pandemia, os hospitais de campanha da gestão Bruno Covas (PSDB) operam hoje com cerca de 20% de sua capacidade. As duas estruturas criadas pela prefeitura podem receber 1.071 doentes, mas tinham apenas 233 na quinta-feira (25).

Com 15 internados e espaço para 200, o hospital de campanha do Pacaembu deve ser fechado na próxima semana. A prefeitura não confirma a informação. O complexo do Anhembi, porém, deve continuar funcionando por mais tempo para estar à disposição em caso de possível aumento dos casos.

As unidades começaram a funcionar em abril e, desde então, atenderam 4.698 pacientes, dos quais 3.771 tiveram alta.

De acordo com levantamento feito pela Folha, os dois hospitais tiveram picos de pacientes no dia 15 de maio, quando 760 pessoas estavam internadas em ambos os hospitais. Mesmo nesse período, as duas instalações emergenciais não chegaram a lotar, ficando com lotação por volta de 70% dos leitos ativos.

Na comparação entre maio e junho, a média de pacientes internados caiu 41% — de 656 para 383.

A gestão Covas avalia que as unidades foram importantes elementos na estabilização da doença na cidade. Não só ajudaram a aliviar a rede hospitalar abrigando casos mais leves como também serviram para isolar pacientes que, se ficassem em casa, poderiam continuar contaminando a população.

Há também uma preocupação com uma possível segunda onda de contaminações, após a reabertura total dos setores econômicos na cidade. A prefeitura espera que bares e restaurantes possam reabrir a partir de segunda-feira (29), por exemplo.

As unidades municipais são administradas por três entidades diferentes. O Pacaembu é gerenciado pelo Hospital Israelita Albert Einstein. A Folha apurou que, ali, os profissionais já foram até avisados do fechamento da unidade.

Já o Anhembi tem vagas geridas por duas entidades, o Iabas e a SPDM —na unidade, médicos reclamaram da estrutura e de falta de materiais, o que as operadoras negam. O complexo foi montado para receber até 1.800 pacientes. No entanto, atualmente há 871 leitos, dos quais 218 estão ocupados.

As internações vêm caindo na cidade de São Paulo, o que fez com que a cidade deva avançar à fase 3 da flexibilização do governo João Doria (PSDB), com a permissão do funcionamentos de bares e restaurantes.

Para o médico Márcio Sommer Bittencourt, do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, a diminuição da ocupação dos hospitais de campanha ocorreu paralelamente ao incremento de vagas em hospitais regulares.

“Uma das coisas que os hospitais de campanha fizeram foi atender uma época em que a estrutura regular estava menos preparada. Uma parte do que aconteceu não é só que estão caindo os casos mas que a rede hospitalar tem mais leitos disponíveis”, disse.

Ele afirma que as estruturas foram criadas num momento em que pouco se sabia sobre as dimensões que doença teria no país e que elas absorveram demanda que impediu o sistema de ficar mais pressionado.

“Sem ter certeza, a melhor estratégia é ter mais leitos, um pouco de leito ocioso, do que passar pela situação que muita gente no mundo passou”, disse.

Na opinião dele, porém, continuar mantendo hospitais com grande capacidade ociosa tem um custo muito alto, no caso de se estar esperando uma nova alta de casos.

A queda na ocupação dos hospitais de campanha de Covas coincide também com a criação da duas unidades de campanha estaduais, no Ibirapuera e em Heliópolis, em maio. Ambos hospitais estão com índice maior de ocupação que os municipais, variando entre 50% e 70%, segundo o governo.

O hospital de Heliópolis tem 116 pacientes e 200 leitos (58% de ocupação). Com 268 vagas, a unidade do Ibirapuera tem 133 internados (50% das vagas). Segundo o governo Doria, os locais “continuam em funcionamento e estão mantidos até que seja constatada uma diminuição no número de internações”.

Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), diz que um possível aproveitamento das estruturas de hospitais de campanha ociosas na capital seria utilizá-las para atender a população do interior.

Enquanto a capital tem queda na média de internações, a doença avança pelo interior paulista. Stucchi citou, por exemplo, dado que mostra que por volta de 40% dos internados em Campinas não são da cidade, que caminha para ter seu sistema totalmente ocupado.

“Talvez pudesse haver um consórcio do governador com prefeitos das cidades do interior que não têm condições de arcar com internações para que sejam transferidos para São Paulo nas estruturas que já estão montadas”, diz. “A gente tem uma malha viária muito satisfatória que daria para esses pacientes estarem sendo transportados”.

Ela afirma que a criação dos hospitais já se justificou, mas que deixá-los ociosos para uma eventual segunda onda da doença pode ter um custo muito alto.

Questionada sobre a subutilização dos leitos, a prefeitura afirmou que “qualquer tomada de atitude depende da mudança de fase de flexibilização da capital considerando o Plano São Paulo”.

A nota acrescenta que os dados são monitorados diariamente e que a decisão de manter os leitos é tomada com base em critérios técnicos.

A gestão Covas afirmou que os custos dos hospitais são variáveis, dependendo do total de leitos ocupados, equipe médica, consumo de medicamentos, telefonia, limpeza, eletricidade, insumos utilizados, entre outros.

“A pasta ainda esclarece que o pagamento às organizações sociais que administram o hospital só é realizado pelo leito operacional. Os recursos não utilizados serão devolvidos para o erário público no final do período de prestação de contas”, diz, em nota.

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