Hidroxicloroquina não previne Covid-19 em pacientes, diz novo estudo

Pesquisa publicada no The New England Journal of Medicine foi feita com 821 pessoas nos EUA e Canadá

Denise Grady
Nova York | The New York Times

A hidroxicloroquina não é capaz de proteger contra a Covid-19, mostrou um estudo com 821 pessoas conduzido por pesquisadores dos EUA e do Canadá e publicado nesta quarta-feira (3) na respeitada revista científica americana The New England Journal of Medicine.

O estudo foi o primeiro ensaio clínico controlado —o tipo de pesquisa considerado padrão ouro— com a hidroxicloroquina, droga promovida inúmeras vezes pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e pelo americano Donald Trump.

A pesquisa foi a primeira a testar se o medicamento poderia prevenir a doença em pessoas que foram expostas ao novo coronavírus. Esse tipo de estudo, no qual os pacientes são selecionados aleatoriamente para receber um tratamento experimental ou um placebo, é considerado a maneira mais confiável de medir a segurança e a eficácia de um medicamento. Os participantes eram profissionais de saúde e pessoas expostas em casa a cônjuges, parceiros ou pais doentes.

“A mensagem para levar para o público em geral é que, se você é exposto a alguém com Covid-19, a hidroxicloroquina não é uma terapia preventiva e pós-exposição eficaz”, disse o principal autor do estudo, David R. Boulware, da Universidade de Minnesota (EUA).

"Se pudéssemos encontrar algo que melhore a infecção, bloqueie ou a torne mais suave após uma exposição sólida, isso seria maravilhoso", disse Judith Feinberg, vice-presidente de pesquisa em medicina da West Virginia University. “O que queremos fazer é limitar o número de casos. Havia uma grande esperança nisso."

Participaram do novo estudo pessoas que tiveram uma exposição de risco alto ou moderado a pessoas que tiveram resultados positivos e estavam doentes. Nenhum dos participantes dos estudo tinha sintomas.

A exposição de alto risco significava que eles estavam a menos de 1,8 metro de um paciente por mais de dez minutos, sem máscara nem proteção do tipo "face shield". Risco moderado significava que eles usavam uma máscara, mas sem proteção facial. Cerca de 88% dos participantes tiveram exposições de alto risco.

Os participantes, recrutados online, tinham entre 33 e 50 anos, com idade média de 40 anos. Cerca da metade era do sexo feminino e 66% do total era de trabalhadores da saúde. Eles eram saudáveis ​​e não tinham problemas de saúde que tornariam a hidroxicloroquina perigosa para eles.

Num período de quatro dias da exposição, os participantes foram escolhidos aleatoriamente para receber hidroxicloroquina ou um placebo e, a partir de então, acompanhados para determinar se tinham confirmação de Covid-19 ou doença consistente com os sintomas do novo coronavírus nos 14 dias seguintes.

A droga ou placebos foram enviados aos participantes. Eles relataram seus sintomas online aos pesquisadores, que não os examinaram.

Nem todos os participantes puderam ser testados, porque no momento da realização do estudo havia escassez de testes.

Não houve diferença significativa entre o grupo placebo e aquele que tomou o medicamento. Entre aqueles que tomavam hidroxicloroquina, 49 de 414, ou 11,8%, ficaram doentes. No grupo placebo, 58 ou 407, ou 14,3%, ficaram doentes. Estatisticamente, a diferença entre essas taxas não é significativa. A droga também não tornou a doença menos grave.

Efeitos colaterais, como náusea, foram mais comuns nos pacientes que tomavam a hidroxicloroquina em comparação com os que tomaram placebo —40,1% em comparação com 16,8%—, mas não houve problemas com o ritmo cardíaco ou outros efeitos adversos graves.

Especialistas em doenças infecciosas que não fizeram parte do estudo disseram que a pesquisa foi bem feita e respondeu a uma pergunta importante, embora os resultados tenham sido decepcionantes.

William Schaffner, especialista em doenças infecciosas da Universidade Vanderbilt, disse: “Este foi um grande estudo controlado randomizado, realizado por pessoas muito boas. A hidroxicloroquina não ofereceu uma vantagem notável”.

Observando que a droga demonstrou alguma capacidade de impedir que o vírus infecte células em estudos de laboratório, Schaffner disse: "Infelizmente, isso não se traduziu em um efeito benéfico na prevenção do desenvolvimento de doenças".

O estudo não abordou a questão sobre se a hidroxicloroquina poderia prevenir a infecção por coronavírus se ingerida antes da exposição a um paciente doente. Essa possibilidade está sendo estudada em outros ensaios clínicos envolvendo profissionais de saúde e técnicos de emergência médica e outros profissionais de emergência médica.

Em uma audiência no Senado americano sobre a supervisão de fabricação estrangeira de medicamentos pela FDA (agência que regula medicamentos nos EUA), na terça-feira, os democratas criticaram a agência por sua decisão em março de conceder uma autorização de uso emergencial à hidroxicloroquina.

"A FDA, na minha opinião, cedeu à pressão", disse o senador Ron Wyden, de Oregon, democrata parte do Comitê de Finanças do Senado, que patrocinou a audiência. "Isso abriu a porta para dezenas de milhões de pílulas, incluindo algumas diretamente relacionadas a esta audiência, fabricadas dentro de instalações no Paquistão e na Índia que falharam na inspeção da FDA ou nunca foram inspecionadas pela FDA em absoluto."

A eficácia ou não da hidroxicloroquina acabou tomando tons políticos com a promoção da droga tanto por Trump quanto por Bolsonaro, apesar de não haver evidências científicas.

Os dois presidentes não pararam de divulgar os supostos benefícios da droga e, no domingo, o governo americano anunciou que enviaria 2 milhões de doses do medicamento para o Brasil para tratar pacientes e ajudar a prevenir infecções em profissionais de saúde. Um funcionário da Casa Branca disse que os dois países colaborariam na pesquisa sobre seu uso.

No início da pandemia, o uso da droga foi estimulado por relatos anedóticos de paciente na China e na França que pareciam melhorar e por achados laboratoriais de um possível efeito antiviral. Sem tratamento comprovado para a Covid-19, os médicos estavam desesperados para oferecer aos pacientes graves algum tipo de terapia.

A droga é destinada a pacientes com artrite reumatoide e lúpus, além da malária, e é considerado seguro para esses pacientes, desde que não apresentem anormalidades subjacentes no ritmo cardíaco.

Estudos em pacientes com coronavírus muito doentes vincularam a droga —especialmente quando combinada com o antibiótico azitromicina— a distúrbios perigosos do ritmo cardíaco, e a FDA e o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas alertaram que ela não deve ser usada fora de ensaios clínicos ou condições cuidadosamente monitoradas em um hospital.

Alguns pesquisadores dizem que as preocupações de segurança com o medicamento foram exageradas, alarmando o público e dificultando o recrutamento de participantes para os estudos necessários para determinar se o medicamento tem algum valor para tratamento ou prevenção.

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