Descrição de chapéu Coronavírus

Iluminado e frio, Hospital do Anhembi tem história de amor em meio a pandemia

Inaugurada em abril em SP, estrutura já recebeu mais de 4.000 pacientes com Covid

Bruno Santos João Gabriel
São Paulo

Inaugurado há dois meses para atender pacientes com coronavírus, o Hospital de Campanha do Anhembi, em São Paulo, já recebeu mais de 4.000 pessoas, das quais 25 morreram. Outros 3.771 foram curados com o tratamento.

Quem passou pelo local, que tem atualmente 221 internados, deixou histórias como a de José Benedito, 77, internado no mesmo dia que sua esposa, Maria Lourdes, 79. Lá, foram separados: José ficou no setor masculino, Maria no feminino. Diariamente se encontravam no corredores que dividem ao meio os 571 leitos ativos —48 deles de estabilização.

Ela recebeu alta, ele seguiu sob cuidados médicos para enfrentar as noites claras e frias vividas no local. A estrutura foi construída no pavilhão de exposições do Anhembi, que tem 76 mil m2 e não dispõe de dimmer —usado para regular a luminosidade. Ou seja, não há como apagar lâmpadas.

A estrutura tampouco conta com aquecedor. Com a chegada do inverno, o frio tomou o ambiente. A solução foi caprichar na quantidade de cobertores, conseguir meias e distribuir tapa-olhos.

“Antes era facinho. Eu via ela, ela vinha me ver. Aí ela recebeu alta, foi embora e eu fiquei sozinho [risos]. Sozinho não, porque tem o pessoal aqui, né”, diz José à Folha, com o bom humor de quem esperava, de banho tomado, o filho chegar para buscá-lo. Acabara de receber alta.

José e Maria estiveram nos leitos sob cuidados do Iabas (Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde). O hospital de campanha é divido em duas estruturas, cada uma com administração, protocolos e equipe independentes, ambas destinadas a casos de baixa ou média complexidade.

Seu José Benedito e Dona Lourdes em casa após os dois receberem alta do Hospital de Campanha do Anhemb
Seu José Benedito e Dona Lourdes em casa após os dois receberem alta do Hospital de Campanha do Anhemb - Arquivo pessoal

O vasto pavilhão do Iabas, entre a marginal Tietê e a avenida Olavo Fontoura, contrasta com o teto mais baixo e o ambiente mais escuro do hospital da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), que fica no Palácio de Convenções e onde estava Don Sanches, 69.

Segundo o próprio, são quase 70 países visitados com sua guitarra. Após 48 anos no exterior e em cruzeiros, ele queria consolidar carreira de músico no Brasil. O plano tinha como principal trunfo o Tributo ao Síndico, uma homenagem a Tim Maia. "Tudo corria bem, até que o vírus me parou”, diz.

Ele estava num dos leitos do setor amarelo do hospital da SPDM, que não separa homens e mulheres, já que dispõe de cortinas e paredes que isolam cada uma das camas.

O hospital setoriza o ambiente usando o sistema NEWS (National Early Warning Score), que, de acordo com cada um dos sintomas e uma série de fatores, divide os pacientes pelo grau de risco: do azul, o mais leve, ao vermelho, de estabilização.

O método foi adotado após as primeiras semanas do hospital para otimizar a chegada e o direcionamento dos pacientes. Os registros são feitos em folhas de papel padronizadas.

“Caí com guitarra e tudo, a perna enfraqueceu. Tentei levantar de novo, não deu. Comecei a sufocar. Esse vírus pega a hora de respirar. Quando for respirar de novo, já não consegue”, conta Sanches.

Ele diz que a primeira coisa que fará quando voltar para casa é tocar. Otaviano de Souza, 73, músico amador, revela desejo semelhante. “Estou com saudade daquele instrumento desse tamanhozinho, pequeninho", conta ao falar do seu acordeão.

Ele tinha acabado de conversar com a filha por videoconferência e contou que teria alta em alguns dias, após seis noites internado. Os olhos brilhavam ao saber que poderia tocar o instrumento. “É assim ó, vermelhinha, com baixarinha branca. Eu toco dos dois lados, faço baixaria e teclado e arranjo. Ela é infinita.”

O ritmo intenso de entrada e saída de pacientes contrasta com a mentalidade resiliente dos pacientes, como a de Maria de Sousa, 53.

“É um dia após outro, isso aqui é uma luta constante, diária e lenta”, afirma a ex-enfermeira, que há cerca de 16 anos deixou a profissão. Queria ter mais tempo com os filhos.

Um deles seguiu a mãe e trabalha na linha de frente no atendimento a pacientes com Covid-19. Foi contaminado com a doença, mas se recuperou e voltou ao serviço.

“Você começa a dar mais valor a pequenas coisas que passam despercebidas no dia a dia. Você corre tanto que nem percebe. Aí quando você se isola de todo mundo é quando pesa”, diz. Seu desejo após sair é comer uma "boa feijoada".

Há mais de uma semana internada, a ex-enfermeira conta que ganhou de presente no período amigos e amigas que pretende levar para fora do hospital: pacientes, enfermeiras e médicos.

No total, são mais de 2.700 profissionais no Hospital de Campanha do Anhembi. Eles contam com assistência psicológica individual e atividades coletivas (como meditação ou grupos musicais).

“As ações são voltadas para a redução do estresse”, diz Natália Soares, do Iabas. “Isso é uma dificuldade nossa enquanto trabalhador da saúde: a gente cuida, mas acha que não precisa ser cuidado”.

“A gente entende isso como uma missão, algo grandioso e desafiador. E que vai passar”, diz Tassiana Sacchi, diretora médica. Ela conta que a intensidade já foi maior, mas que caso a demanda volte a aumentar, o hospital pode ativar novos leitos (a estrutura tem capacidade total para atender mais de 1.000 pacientes).

As equipes foram montadas com profissionais que, em sua maioria, nunca haviam trabalhado junto. Um dos desafios foi lidar numa situação ímpar, em uma estrutura adaptada, com desconhecidos.

Para Ione Liz Paiotti, diretora de enfermagem do SPDM, após dois meses, o entrosamento está em seu melhor momento. O que persiste é a singularidade de combater uma pandemia. “Existe uma carga emocional maior que todo dia a gente vivencia. Muitos pacientes que entram têm familiares internados em outros lugares. Isso é muito triste”, afirma.

O diretor clínico Braian de Castro diz estar a costumado a vivenciar “o pior dia da vida das pessoas”, por sua formação em medicina de emergência. Ele torce para que a pandemia termine e lamenta os recordes negativos diários.

“Muito das coisas que a gente usa para desestressar, a gente não pode mais. Conversas com mães, pais, [ir a] lugares. A gente chega mais cansado e estressado, e precisa se policiar para não transparecer isso [na prática médica]”, afirma.

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