Mexer com linhas e agulhas vira terapia durante a quarentena

Técnicas como tricô e crochê trazem bem-estar durante o isolamento social

São Paulo

Muito se engana quem ainda pensa que só mãos femininas são capazes de bordar uma toalha de mesa ou de fazer um casaquinho de tricô. A arte de manusear agulhas e linhas, que remonta à Antiguidade, deixou de ser exclusividade das mulheres. Com o tempo, o bordado, o crochê e o tricô conquistaram lugar na indústria da moda e da decoração e, hoje, ganharam também o status de arte, ao mesmo tempo que perderam o traço sexista.

Na temporada de distanciamento social, as pessoas vêm descobrindo que, para além das peças produzidas, o ato de bordar ou tricotar leva naturalmente à meditação e ao bem-estar emocional.

O artista visual Pedro Luís Soares, 31, carioca que vive em São Paulo, descobriu o bordado como forma de expressão. “Faço um bordado contemporâneo, mas não me considero um bordadeiro”, diz.

Para o seu aniversário, no dia 6 de janeiro, preparou o painel intitulado “Coragem”, que lhe consumiu dez dias de trabalho. Os desenhos que se formam a partir de cada uma das sete letras da palavra podem ser interpretados como veias ou até mesmo raízes de uma árvore.

Há quem enxergue neles os afluentes de um rio amazônico, num momento em que a floresta agoniza. Feito com linha vermelha de algodão, o bordado pode ainda ser interpretado, nas palavras de seu criador, como uma “profecia sobre os dias de pandemia”.

Bordado criado pelo artista visual Pedro Luís Soares, em janeiro deste ano - Pedro Luís Soares

Autor da série Trabalhos Autorais com a Memória Alheia, na qual usa o bordado tendo como referência fotos antigas, garimpadas em sebos e feiras de antiguidades, ele vem se dedicando ainda mais a linhas e agulhas neste período de isolamento social.

“O comprometimento é mais intenso porque não há outras atividades competindo com o bordado”, diz Soares, que trabalhou como publicidade até 2015, antes de se dedicar exclusivamente à arte.

Formada em direito, a mineira Thaís Zerbinatti, 45, trocou a advocacia pelo crochê. Aos 35 anos, foi fazer moda na UFMG e se especializou no manuseio da agulha, trabalho que, desde menininha, viu a avó, Argentina, executar com maestria. Fez intercâmbio em Bolonha, na Itália, onde estudou cultura e moda. Quando voltou, decidiu que sua tese de conclusão de curso teria o crochê como tema.

Na quarentena, revirou o guarda-roupa para dar nova serventia a roupas ali encontradas: um vestido virou saia, uma blusa virou bolsa. “A repetição de pontos é uma atividade associada à meditação ou à oração”, compara. “Precisa se desligar, silenciar e se concentrar no que está fazendo. É uma maneira de me manter lúcida e trabalhando.”

Criações de Thais Zerbinatti - @thaiszerbinattihandmade no Instagram

O desafio é apresentar um crochê moderno, sem cara de ultrapassado. Ela confecciona uma bolsa de crochê com couro (R$ 350). Outra peça engatilhada, a pelerine será vendida a R$ 550. “É mais complexa, envolve pesquisas e cálculos.”

A pandemia fez com que o estilista Gustavo Silvestre, 41, interrompesse o projeto Ponto Firme, que ensina crochê a detentos na penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos.

Seis ex-alunos tornaram-se assistentes dele após a liberdade. O grupo trabalhava numa coleção, que seria lançada na SPFW. “No crochê, toda a sua energia e sensibilidade entram em contato com o seu ritmo. Seus pensamentos o tiram dessa realidade por alguns momentos. É quase meditativo.”

Paulista de Araraquara, a artista têxtil Juliana Ronchesel, 29, vive no Rio. Anda bordando desenhos de filhos de amigos, para, nas palavras dela, “se conectar com a leveza e a esperança das crianças sobre o futuro”.

Como ainda ocorre com frequência, o bordado entrou na vida dela bem cedo pela família. Aos 12 anos, ela já recebia o legado da mãe, Waldecine, e da avó Aurora. “Essa busca pela ancestralidade me permite estar em conexão com elas”, diz. Como os demais, ela vê na prática do bordado uma ponte “para um estado meditativo”, enquanto se deixa levar pelo ritmo de “um ponto atrás do outro”.

Ela sempre reutiliza tecidos. “Gosto do lado avesso do bordado com o seu emaranhado de tramas.” Acostumada a usar linha preta e vermelha, nestes dias de isolamento em casa, ela vem se aventurando pelo universo das cores.

A artista têxtil Juliana Ronchesel, 29, com peças de bordado criadas por ela, no Rio, onde ela vem trabalhando com desenhos de filhos dos seus amigos - Arquivo Pessoal

“É uma atividade ideal para estes dias. Quase um mantra, tricô e crochê ajudam a ficar mais calmo, reduzem o estresse, aumentam a autoestima”, explica o artista plástico Thiago Rezende, 38, criador do projeto Homem na Agulha.

Antes da pandemia, dava aulas presenciais das duas técnicas até para criança reduzir o tempo diante do video game e do celular. Agora, seus ensinamentos são acessíveis por aplicativo ao preço de R$ 90 por hora, voltado a todos interessados.

Também montou um kit com receita, agulha, linha, marcador de ponto para confeccionar bolsa, sacola, banneton (cesto para deixar a massa do pão) e luminária em formato de amigurumi (técnica japonesa para criar bonecos de crochê e tricô) em casa, de R$ 140 a R$ 240 cada um.

O artista plástico Thiago Rezende, 38, criador do projeto Homem na Agulha - Thiago Rezende

Diz que tricô e crochê são técnicas parecidas, mas talvez o primeiro se torne um pouco mais difícil pelo fato de exigir o trabalho com duas agulhas. “Se puder, fique em casa e aprenda os dois”, recomenda. “São artes irmãs.”

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