Descrição de chapéu Coronavírus

Morador de rua vive a pandemia do novo coronavírus de perto no Pacaembu

Estádio recebeu hospital de campanha da Prefeitura de SP, fechado nesta segunda

Adalberto Ferreira, 56, faz uma fogueira; vive há oito anos em um dos portões do estádio do Pacaembu, na zona oeste de SP, onde durante três meses funcionou um dos dois hospitais de campanha da gestão municipal

Adalberto Ferreira, 56, vive há oito anos em um dos portões do estádio do Pacaembu, na zona oeste de SP, onde durante três meses funcionou um dos dois hospitais de campanha da gestão municipal Karime Xavier / Folhapress

Emilio Sant'Anna Karime Xavier
São Paulo

À sua frente, 14 pombas ciscam no que sobrou do café da manhã/almoço/única refeição do dia. Arroz com feijão. Às suas costas, o Portão 9. Depois dele, cerca de 20 metros de arquibancada, a pista e, então, as duas enormes tendas do Hospital de Campanha do Pacaembu, em São Paulo.

Àquela altura, na penúltima semana de junho, menos de 20 pacientes estavam internados na estrutura pública administrada pelo Hospital Israelita Albert Einstein. A capacidade era para 200. Em meados de maio, eram 167 internados.

Deitado em seu colchão, caprichosamente colocado dia após dia nos últimos oito anos no Portão 9, Adalberto Ferreira, 56, dorme tranquilo. Sem máscara, tosse para cima e se revira no leito. As pombas e os carros que passam pela rua Itápolis não o incomodam. Poucas pessoas a pé. Passos o despertam em um segundo.

Dali, enquanto tenta se proteger do frio, da chuva, do calor do sol, da rara curiosidade alheia, o homem acompanhou a pandemia do novo coronavírus se espalhar pela cidade de São Paulo, crescer e desembocar em sua casa – desde abril transformada em hospital de guerra em tempos de paz.

“Não vai durar mais muito tempo”, disse ele quando a Folha o despertou. “O hospital, ué. Como assim o quê?”

Ninguém havia lhe dito. Ele só percebeu a queda no movimento, medido pelo tráfego menor de ambulâncias entrando e saindo do estádio municipal. Se quando o movimento era maior não teve medo de se contaminar, agora tem ainda menos.

O homem negro e de cabelos brancos faz parte de um dos contingentes mais expostos ao vírus. Ele diz não saber nada sobre isso, mas faz parte do grupo de risco. Entre os 24.332 moradores de rua de São Paulo, ele é um dos 7.002 com mais de 50 anos.

Até a última semana, segundo a Secretaria Municipal da Saúde, 28 pessoas em situação de rua haviam sido vitimadas pela doença. De março até sexta-feira (26), 496 passaram pelo Centro de Acolhida criado para casos suspeitos de Covid-19, e 140 pelo espaço que recebe os casos confirmados da doença.

A prefeitura tem seis unidades para moradores de rua com a doença confirmada e 33 para os casos suspeitos. Para ampliar o acolhimento dessa população, a gestão municipal afirma que ampliou, de 18 para 25 equipes, o Programa Consultório na Rua, com enfermeiros, assistente social, psicólogo, médico, atendente administrativo, agentes sociais e agentes de saúde.

“Deus não deixou doença nenhuma pra gente. Isso tudo é o homem mesmo que causa”, diz Adalberto em tom solene.

Sobre o outro hospital de campanha municipal, no Anhembi, ele diz que só ouviu falar, mas sabe que por lá o movimento é maior.

Na última semana, a unidade da zona norte tinha pouco mais de 200 pacientes. Com capacidade para 871 pessoas, o pico se deu também em meados de abril, quando chegou a ter 601 internados.

São 15h, o sol vai alto e o dia –o primeiro do inverno– está apenas começando. Sentado em seu colchão, de camiseta e bermuda, Adalberto repassa os compromissos daquele sábado (20).

Levantar-se –o que vai levar mais cerca de vinte minutos– varrer seu quarto sem paredes e com vista para os enormes casarões do bairro, recolher sua cama e suas roupas e levá-los para o “armário”, um saco plástico preto enfiado em meio a uma cerca viva do outro lado da rua.

Depois, ainda tem o banho. Assim que conseguir juntar R$ 15, ele toma. Para isso, tem que andar até a avenida Brigadeiro Luiz Antônio, no centro. Uma pensão, explica. Passar a noite é mais caro, não sabe quanto. Não precisa.

Por volta das 19h, Adalberto sai para andar e recolher material reciclável. A caminhada vai madrugada adentro. Duas ou três vezes por semana, vai à Barra Funda vender o que tira das ruas.

Lá pelas 4h, retorna para o portão do estádio, tira o colchão e as roupas do “armário” e vai pra cama. Se tiver leite, junta uns gravetos, acende uma fogueira e esquenta numa panelinha antes de dormir.

Adalberto não é o único a buscar abrigo por ali. Mas é o mais frequente. Raramente dorme em outro lugar. Raramente está completamente só. Seguranças dos escritórios ainda instalados nos casarões, vigias noturnos e moradores do bairro fazem parte de seu círculo de conhecidos.

Quem trabalha por ali diz que todos na região conhecem Adalberto e sabem que ele é extremamente organizado e mantém o local limpo.

O morador do Portão 9 diz que se esforça para deixar tudo em ordem. Reconhece o valor de se relacionar bem com os vizinhos, mas diz que amizade é coisa difícil de se conseguir na rua.

“Amigo meu sou eu mesmo. Eu pensava que meus melhores amigos eram meus dentes, mas até eles me abandonaram” diz, abrindo o sorriso quase sem mais nenhum companheiro.

Os dentes o lembram da avó, benzedeira em Ribeirão Preto, onde ele nasceu. “Não dói quando vai cair. Vovó me ensinou uma simpatia. É só prender uma fita no pulso com um dente de alho cortado em cruz. Mata a raiz”, explica. “Ela morreu acho que foi em 2017.”

A avó o lembra da mãe. “Mamãe se foi em 2011, ou 2012...Foi a última vez que fui pra Ribeirão. Isso, no enterro dela”, diz. “O pessoal me ajudou e fui de ônibus.”

A mãe o lembra dos filhos. Seis. “Estão com uma tia lá no interior. Bate uma saudade... Qualquer hora vou pra lá”, divaga. “Estamos numa situação caótica aqui. Não vou ficar no meio dessa confusão.”

Por enquanto não há sinal de que ele vá mesmo deixar a capital. Nesta segunda-feira (29), quando o Hospital de Campanha do Pacaembu for desmontado pela prefeitura, Adalberto deve continuar no Portão 9. De madrugada, se tiver um litro de leite, talvez acenda uma fogueira.

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