Descrição de chapéu Coronavírus

Pesquisa aponta falta de termômetros e proteção para tratar Covid-19 no SUS

Foram ouvidos 2.000 profissionais de Unidades Básicas de Saúde em 750 cidades

Paulo Batistella
Álvares Machado (SP)

Porta de entrada do SUS (Sistema Único de Saúde), os serviços de atenção primária têm sofrido com falta de equipamentos básicos para o atendimento de infectados com a Covid-19, segundo pesquisa realizada com os profissionais da saúde. Eles relatam ausência de termômetros, testes para detectar o novo coronavírus e itens de proteção para quem trabalha em UBSs (unidades básicas de saúde).

A Folha teve acesso aos resultados preliminares da pesquisa realizada pela USP, UFBA (Universidade Federal da Bahia), UFPel (Universidade Federal de Pelotas), em iniciativa da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) e com apoio da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde).

A situação é preocupante na atenção primária, segundo Aylene Bousquat, da Faculdade de Saúde Pública da USP. Ela coordena a pesquisa, realizada com questionários aplicados via internet a gestores e profissionais da atenção básica, sobre os desafios no enfrentamento à pandemia.

Entre os cerca de 2.200 entrevistados, espalhados por 750 municípios em todos os estados do Brasil, 83% relatam não ter ou ter em número insuficiente termômetros de infravermelho nas UBSs (unidades básicas de saúde), item primordial para aferir a temperatura do paciente sem precisar manter contato com a pele dele.

Faltam ainda outros itens fundamentais para lidar com casos suspeitos de Covid-19, como oxímetros, para averiguar a oxigenação de doentes, indisponível ou disponível em volume insuficiente na avaliação de 65% dos profissionais, além de medicamentos para síndrome gripal e cilindros de oxigênio, em baixa ou nenhuma quantidade para 60% e 67%, respectivamente.

Os trabalhadores reclamam ainda sobre a escassez de EPIs (equipamentos de proteção individual), como aventais impermeáveis (43% não têm ou têm em número insuficiente), protetores faciais com visor (37%) e máscaras descartáveis de proteção respiratória N95 ou similares (45%).

A situação pode ser mais grave em cidades do interior, que concentram mais da metade dos casos de Covid-19. Muitas contam apenas com UBSs para atendimento.

"Os gestores dos municípios citam a dificuldade de comprar esses insumos. Não foi algo tão fácil por conta do processo de distribuição", explica Bousquat, que destaca o empenho dos profissionais até em aplicar recursos pessoais.

Segundo ela, 70% dos entrevistados afirmam usar o próprio celular para fazer acompanhamento à distância de pacientes e familiares, seja por WhatsApp, chamada de vídeo ou telefonema.

"As pessoas estão usando seus recursos pessoais, o que, por um lado, é muito bonito: mesmo com todos esses desafios, os profissionais do SUS estão comprometidos com a saúde da população."

O questionário que baseia a pesquisa (acesse aqui) ainda seguirá disponível até a próxima segunda-feira (29). A coordenadora do estudo afirma, no entanto, que as respostas obtidas até aqui já são significativas para averiguar a situação do atendimento primário.

Outro fator evidenciado pelo levantamento é a falta de recursos para testagem nas UBSs: 70% dos entrevistados dizem não ter ou ter em volume insuficiente acesso a testes RT-PCR, indicados para a detecção do vírus em pacientes sintomáticos. Também faltam testes rápidos, segundo 80% dos profissionais.

O dado corrobora protocolo anterior do Ministério da Saúde, que orientava apenas a aplicação de exames em casos graves, que exigiram internação. Nesta quarta (24), a pasta anunciou que passará a testar também pacientes com sintoma leves em centros de atendimento à Covid-19 —UBSs poderão se credenciar como tal.

"Hoje a testagem é concentrada em 100% de casos internados. Pensando na população, no avanço da doença e na oportunidade de testar pessoas no interior do país, estamos expandindo essa testagem", disse o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, na ocasião.

Bousquat diz que a estratégia utilizada até então é falha, uma vez que levar a testagem também à atenção básica proporcionaria um retrato mais amplo e menos defasado da pandemia. Além disso, os agentes comunitários teriam embasamento técnico para rastrear doentes e isolar contatos, o que, somado aos cuidados de pacientes, ajudaria a controlar a Covid-19.

A pesquisadora cita a atuação exitosa de Portugal nesse sentido, que intensificou os trabalhos dos centros de saúde; no Brasil, segundo ela, a pesquisa elucidou outros bons exemplos, como Florianópolis (SC), entre as capitais, e a modesta Rurópolis (PA), com 50 mil habitantes.

"Algumas experiências no mundo --de outras epidemias, como foi o caso do ebola-- demonstram que ter o serviço de atenção primária funcionando é algo que diminui a propagação do vírus, porque você consegue controlar e isolar os contatos, e alguns casos não precisam chegar ao hospital", diz.

Segunda ela, a atenção das autoridades dada aos hospitais de referência, que concentram casos graves, é fundamental, mas deve se estender ao atendimento primário, também sob risco de colapso e responsável, ainda, por vacinação, assistência a doentes crônicos e gestantes, entre outros serviços.

"Imagine se a gente para, por exemplo, de fazer pré-natal, se não conseguimos fazer isso, imagine o problema que vai acontecer lá na frente", questiona.

Uma vez concluído, o estudo deve propor a criação de um kit-UBS, com insumos pra serem distribuídos para as unidades básicas.

Questionado pela Folha, o Ministério da Saúde não respondeu se o cenário de escassez de materiais relatado pelos profissionais no estudo corresponde à realidade da atenção básica. Também não apontou se considera ideal a disponibilidade atual de insumos ao atendimento primário.

Em nota, a pasta reforçou que a gestão do SUS compete tanto à União quanto aos estados e municípios. Disse também acompanhar por meio da Saps (Secretaria de Atenção Primária à Saúde) a quantidade de termômetros, oxímetros e cilindros de oxigênio disponíveis nas UBS.

O Ministério da Saúde afirmou ter distribuído, desde o início da pandemia, 115,7 milhões de EPIs, 11,3 milhões de testes para Covid-19, 8,5 milhões de cápsulas de oseltamivir e 4,4 milhões de comprimidos de cloroquina para todo o país, sem especificar o que foi destinado às UBSs.

A pasta acrescentou que investe em serviços para acompanhamento remoto de pacientes, como o TeleSUS, que realizou 4,9 milhões de atendimentos, e financia o trabalho de 27.029 equipes de saúde informatizadas em meio à pandemia.

Disse, ainda, ter credenciado, nesta semana, 807 centros de atendimento à Covid-19 em 767 municípios. "Estes estabelecimentos temporários possibilitam que os demais serviços oferecidos nas unidades de saúde da Atenção Primária, como cuidados com a saúde da criança, consultas de pré-natal, acompanhamento de pessoas com doenças crônicas como diabetes e hipertensão, sejam mantidos e retornem à rotina habitual", pontuou.

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