Descrição de chapéu Ao Vivo em Casa

Articulação das favelas faz diferença contra Covid-19, mas reabertura põe comunidades em risco

Live da Folha abordou os efeitos da pandemia nas comunidades carentes

São Paulo

Na ausência do estado, o papel das próprias comunidades nas favelas brasileiras é o que faz a diferença no combate à pandemia do novo coronavírus e seus efeitos sociais. A retomada das atividades econômicas, no entanto, podem colocar em risco essas populações, dizem líderes comunitários entrevistados no Ao Vivo em Casa, a série de lives da Folha para o período de isolamento social.

Iniciativas difundidas pelos bairros carentes são as responsáveis não só pelo acesso a cestas básicas e produtos de higiene como também pela geração de renda nesses locais.

O repórter da Folha Emilio Sant’Anna entrevistou três convidados: Gilson Rodrigues, líder comunitário, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis e coordenador nacional do G10 Favelas; Reginaldo Lima, liderança comunitária do Complexo do Alemão e coordenador do G10 Favelas no Rio de Janeiro; e o médico infectologista João Prats, da Beneficência Portuguesa de São Paulo e Unifesp.

Inciativas adotadas em Paraisópolis e replicadas pelo G-10 das Favelas —um bloco de líderes e empreendedores de impacto social que reúne as principais comunidades do país em busca do desenvolvimento econômico e protagonismo das periferias —são o que tem evitado situações piores nesses locais.

"Nossa situação foi bastante grave em Paraisópolis. Diante da ausência de política pública e até de comunicação, a gente percebeu que precisávamos criar uma política pública. E por isso conseguimos reduzir bastante a infecção. Ainda assim, mais de mil pessoas foram contaminadas", diz Gilson Rodrigues. "A situação aqui tinha tudo para dar errado."

De acordo com ele, foi criada uma solução para cada problema. Da promoção de líderes comunitários, mapeamento da favela, criação de duas casas de saúde para isolar pessoas contaminadas, contratação de um serviço de emergências médicas e remoção até a implantação de ações de teleconsultas, tudo foi organizado pela prórpria comunidade.

Para estimular a economia, um projeto de incentivo ao comércio local conseguiu injetar R$ 3 milhões na favela em junho. Um programa para auxiliar diaristas também foi criado. "A população tomou as rédeas da situação. Se dependesse de governo e políticas públicas estaríamos muito pior", diz Rodrigues.

Para o infectologista João Prats a situação se torna mais difícil para essas comunidades devido às fragilidades do sistema público de saúde antes da pandemia. "Já não começamos numa situação muito boa e aí veio a pandemia para piorar", diz.

Segundo Prats, ações como a de Paraisópolis fazem a diferença para evitar que a doença se alastre. "O papel da pandemia aparece como a grande ferramenta que pode mudar o caminho dessa epidemia", diz o infectologista.

Para Reginaldo Lima, do Complexo do Alemão, e para Gilson, a reabertura econômica coloca em risco a população das comunidades, que já não tinha acesso à possibilidade de home office e consequentemente de isolamento social.

"Espero que abra rápido e feche mais rápido ainda. É claro que precisamos pensar no empreendedor, mas a reabertura no momento em que o Brasil não tem controle, não houve estabilidade com redução de mortes, traz pra gente muita preocupação", diz Lima.

"Pode ser que a segunda onda [de casos] traga um risco de mortalidade ainda maior para favela, porque para nutrir esse sistema produtivo é a migração da favela que vai fazer esse trânsito", afirma.

"Estão fazendo a reabertura sem fazer a lição de casas e mais uma vez esquecendo as favelas. São 14 milhões de brasileiros morando em favelas e parece que eles não existem", diz Rodrigues.

"Aí pregam dois países. Um Brasil que pode ter acesso a isolamento social e outro que não tem, que teve que escolher se comprava álcool em gel ou comida e que agora fica numa situação mais agravada porque nada mudou."

Segundo uma enquete feita com líderes comunitários que atuam em seis capitais, para 82% das lideranças entrevistadas a flexibilização das medidas de isolamento social tomadas para conter a Covid-19 terá impactos negativos. Somente 14% disseram esperar efeitos positivos, com a reabertura do comércio e a retomada de outras atividades econômicas que estavam paralisadas.

Realizada pela Rede de Pesquisa Solidária entre os dias 6 e 16 deste mês, a enquete ouviu 75 líderes comunitários das regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Manaus, além de três grandes cidades do interior, Campinas (SP), Joinville (SC) e Maringá (PR).

Entre os que veem a reabertura com apreensão, a maioria teme aumento dos casos de infecção e das mortes causadas pelo coronavírus, falta de fiscalização do cumprimento de medidas preventivas como o uso de máscaras nas ruas e problemas na oferta de transporte público e outros serviços.

Os pesquisadores captaram também sinais da desorientação provocada pelas ações das autoridades na linha de frente do enfrentamento da pandemia: 28% acham que o medo de contágio tende a aumentar, mas 19% acham que a reabertura levará as pessoas a menosprezar a gravidade da doença.

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