Descrição de chapéu Coronavírus

Pandemia agrava ansiedade de crianças, mas quarentena ajuda em alguns casos

Médico brasileiro Eduardo Szaniecki, da Tavistock, conta como o coronavírus afetou os mais jovens

Bruxelas

A pandemia de coronavírus agiu de forma positiva e negativa sobre a saúde mental de crianças e adolescentes, diz o médico brasileiro Eduardo Szaniecki, 54, que há mais de duas décadas trabalha na centenária clínica Tavistock, à qual estão ligados nomes como Sigmund Freud, Carl Jung, Wilfred Bion e Esther Bick.

De um lado, o confinamento trouxe melhoras para alguns de seus pacientes, principalmente os que têm dificuldade de aprendizado ou de adaptação social. Ele conta sobre uma garota de 17 anos, do espectro do autismo, que se sentia muito ansiosa para pegar o transporte público na ida à escola.

Durante a quarentena, ela se dedicou ao canto e chegou a gravar músicas. “Nunca a vi mais feliz”, diz Szaniecki.

Segundo o médico brasileiro, não só os jovens encontraram maneiras alternativas de aprender e experimentaram novas atividades, mas alguns pais usaram o tempo de uma forma mais criativa e proveitosa, contribuindo com a evolução dos filhos.

Eduardo Szaniecki, 54, é médico psiquiatra e psicoterapeuta da Fundação Tavistock e Portman, no Reino Unido,
Eduardo Szaniecki, 54, é médico psiquiatra e psicoterapeuta da Fundação Tavistock e Portman, no Reino Unido, - Divulgação

Por outro lado, ansiedade, imprevisibilidade e estresse agravaram transtornos de saúde mental em crianças e adolescentes, que já vinham em curva crescente há algumas décadas. No Reino Unido, as estatísticas mais recentes mostram que 1 a cada 8 crianças e adolescentes de 5 a 19 anos foi diagnosticada com ao menos um problema de saúde mental, uma porcentagem de 12,8%, contra 9,7% em 1999.

Além da alta nos casos, chegam à Tavistock pacientes cada vez mais jovens, segundo Szaniecki. Pelos dados do governo, os problemas já atingem 5,5% das crianças entre 2 e 4 anos. Ele falou sobre as várias maneiras pelas quais a pandemia afeta os pequenos. “Mas é importante lembrar que, no final, a grande maioria das crianças sairá bem dessa”, afirma.

A parcela de jovens com transtornos mental cresceu nos últimos anos. Aumentou o sofrimento ou há mais diagnósticos? As coisas caminham juntas. Há mais informação, menos estigma, mais diagnóstico e mais sofrimento.

O que elevou o sofrimento? Um fator são pais e avós mais ocupados, atrás de metas, todos mais pressionados e com menos disponibilidade. São pais e mães que precisam eles mesmos de cuidado maternal e parental, de acolhimento, o que se reflete na sensação de que não são capazes de dar aos filhos esse tipo de cuidado. Daí para as crianças desenvolverem uma série de sintomas é um passo.

Na Europa houve também nos últimos anos o desmonte dos sistemas de bem-estar social, com os quais a população contava. Muitos, principalmente os mais carentes, perderam serviços.

A rede de proteção ficou mais frágil e isso agravou a insegurança dos pais? Sim, com impacto nas crianças. Nos últimos dez anos temos visto transtornos em pacientes cada vez mais jovens, de todos os tipos: ansiedades, distúrbios alimentares, disforia de gênero, casos cada vez mais complexos.

Quão mais jovens são os pacientes? Há uma década, eles tinham de 14 anos em diante; agora é comum chegarem a partir dos 8 anos de idade. Eram pós-púberes, agora são também pré-púberes.

O que explica a precocidade? Acesso a informação, competição, rivalidade, pressão. E tende a piorar com as mídias sociais, que elevam a pressão sobre aparência e comportamento, somada à necessidade de receber likes, de “ser gostado”. É como se vivêssemos uma crise narcísica, de precisar ser querido, reconhecido.

Não vem de sempre o sofrimento por não se sentir incluído? Sim, mas foi potencializado. Antes da internet, se um grupo falava algo na hora do recreio, morria ali. Hoje isso é multiplicado numa razão descontrolada. Gera uma ansiedade, até mesmo em relação ao que você publica.

Havia menos autoconsciência, menos preocupação com o que dizíamos. A repercussão era local e limitada. Hoje, pode ser geral, até internacional, impossível de suprimir.

Gera uma discrepância entre essa responsabilidade muito maior e o desenvolvimento emocional natural da criança, que precisa de tempo e espaço para digerir eventos, sentimentos e informações.

O senhor disse que além de mais precoces, os transtornos nas crianças estão mais complexos. Como assim? Além de níveis maiores de ansiedade, ela aparece junto com depressão, automutilação, problemas alimentares, agressividade, sem contar o impacto no aprendizado, na atenção, na concentração.

Se os pais também estão mais pressionados e perdidos, dá para tratar só as crianças sem tratar a família? Depende sempre, claro, do problema, da gravidade do caso, da idade, mas é difícil. Na clínica, procuramos uma abordagem sistêmica, envolvendo pais, avós, quem for possível. Na prática, porém, só vemos a criança e a mãe. É preciso um esforço grande para envolver o pai.

Curiosamente, na pandemia, com o uso das videoconferência, comecei a falar mais com os pais, a falar com avôs e avós, alcançar pessoas que estavam mais longe.

Já dá para mensurar o efeito dessas novas formas de terapia? Já começamos a pesquisar e também a discutir que tipos de caso podem ser mantidos por telefone ou por vídeo e quais exigem um encontro pessoal. Certamente se perdem nuances, a comunicação não verbal, o efeito do ambiente. Mas se ganha tempo, comodidade.

Um impacto claro é que a taxa de pessoas que não vêm às consultas caiu. A presença e a frequência cresceram. E, para uma parte grande dos jovens que atendem, que são da geração digital, não sente qualquer estranhamento com a consulta à distância.

Nos países em que a pandemia ainda não está controlada, como o Brasil, há risco maior para a saúde mental de crianças e adolescentes? Incerteza e imprevisibilidade prejudicam muito. Ao longo desta crise todos nós tivemos picos de ansiedade, desde o pânico para fazer estoques até as dúvidas sobre que remédios se podia tomar. Isso fica ainda pior no momento atual do Brasil, em que o discurso todo é de gerar tensão até onde não precisa.

No âmbito mais prático, as pessoas mais vulneráveis, nossos pais e avós, devem estar aflitas com o seu destino se ficarem doentes, sem saber se haverá leitos de UTI. Não é possível nem ter certeza sobre os números que são divulgados.

A válvula de escape no Brasil é o humor. As pessoas conseguem lidar com o problema fazendo piadas, memes. Mas pode haver aumento de pessoas precisando de ajuda, ou da complexidade.

Houve casos em que o confinamento teve efeito positivo? Sim, para algumas das minhas crianças que têm dificuldade de aprendizado, em que a escola em si é uma fonte de expectativa maior, houve um alívio.

Algumas sentem dificuldades com grupos sociais, têm dificuldade de pertencer, ou são atormentadas pelo bullying, e quase suspiraram de alívio ao poder deixar de ir à escola.

Para uma paciente de 17 anos do espectro do autismo era muito difícil ir para a escola, porque ela tem muita ansiedade de entrar no ônibus ou no metrô. No confinamento, passou a estudar canto, gravou uma música, entrou em contato com um selo. Nunca a vi mais feliz.

A epidemia permitiu a ela diminuir a velocidade e pensar fora da caixa, e eu mesmo passei a refletir sobre o que eu chamo não de diagnóstico, mas de “formulation”: a hipótese, a narrativa e a compreensão que temos de quem está à nossa frente, no contexto da sua vida.

Outro caso foi o de um menino com dificuldades de aprendizado, numa família de cinco filhos, em que os pais têm dificuldades financeiras e não conseguem muito tempo para ficar com as crianças. O pai viu no confinamento uma oportunidade para ensiná-lo com tempo e calma os pontos mais difíceis das matérias. Houve quase que uma permissão, vinda de fora, para explorar novos projetos e pensar fora da caixa.

Você fez seu mestrado sobre transtornos mentais em bebês. Por que um bebê precisa de psicoterapia e como lidar com ele? Bebês muito pequenos já são capazes de protestar contra situações desconfortáveis. Os pais, a não ser que estejam muito dessintonizados, percebem que algo não vai bem no choro, no sono, na alimentação, no olhar.

Sugerimos que eles tentem acolher o bebê, cantar, carregar, dar tempo, voz, calor humano, toque, o som do coração. Isso faz com que o bebê se sinta em casa, reconheça sons que ele ouvia no útero.

O interessante é que o resultado nessa fase é muito rápido. Os bebês são maleáveis, o cérebro está se desenvolvendo e eles reagem rapidamente.


RAIO-X

Eduardo Szaniecki, 54, é médico psiquiatra e psicoterapeuta de crianças e adolescentes no departamento de crianças, jovens adultos e famílias da Fundação Tavistock e Portman, no Reino Unido, clínica centenária que integra o sistema nacional de saúde britânico (NHS). Fez pós-gradução no hospital Maudsley Hospital e mestrado na Universidade de Londres, no qual estudou a saúde mental de bebês.

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