Estudo da USP analisa eficácia da colchicina contra a Covid-19, e não da hidroxicloroquina

Post com conteúdo falso teve alcance ampliado após ser compartilhado por procurador da República

São Paulo

É falsa a publicação intitulada “Estudo da USP confirma eficácia da hidroxicloroquina. Nome do medicamento é suprimido nas manchetes” que circula na internet. O texto, inicialmente publicado no blog Quinina, distorce dados de pesquisa da Universidade de São Paulo para defender medicamentos sem comprovação funcional no tratamento da Covid-19. A publicação, verificada pelo Comprova, foi compartilhada pelo procurador da República Ailton Benedito, aumentando seu alcance.

O foco do estudo citado são os possíveis benefícios da colchicina para o tratamento da doença. Por isso, uma parte dos voluntários recebeu a droga e a outra, não. Isso serve para comparar os resultados obtidos por ambos os grupos. Ou seja, esse era o objeto do estudo.

A hidroxicloroquina junto com a azitromicina, medicamentos citados pelo blog, foram prescritas a todos os voluntários porque esse era o protocolo de tratamento padrão adotado no hospital onde e quando o estudo foi feito. Ao Comprova, os autores disseram que “é errôneo dizer que o presente estudo avaliou eficácia da hidroxicloroquina, da azitromicina ou da heparina”.

Tentamos contato com o editor do blog, J. A. Campetti Nieto, e com o procurador Ailton Benedito. O primeiro disse que o artigo não era de sua autoria e que repassou as perguntas do Comprova a quem escreveu. O segundo não retornou até a publicação desta checagem.

Benefícios da colchicina foram observados em estudo clínico feito com 38 voluntários atendidos no Hospital das Clínicas da USP em Ribeirão Preto. Droga é barata e pode reduzir o tempo de internação, mas não deve ser usada fora do ambiente hospitalar e sem orientação médica, alertam os pesquisadores
Hospital das Clínicas da USP em Ribeirão Preto, onde foram atendidos os voluntários que participaram do estudo - FMRP-USP

O estudo

O artigo veiculado pelo site Quinina usa erroneamente dados de um estudo da USP disponibilizado em 12 de agosto na plataforma Medrxiv –que hospeda versões de artigos sobre ciências da saúde que ainda precisam ser submetidas à revisão dos pares (outros pesquisadores que podem validar o estudo).

Foram convocados 38 pacientes, dos quais 35 permaneceram no estudo até o final. Parte dos voluntários tomou a colchicina além do tratamento padrão, enquanto a outra parte tomou o tratamento padrão e um placebo, substância sem efeito. Isso é importante para se avaliar qual foi o impacto da medicação analisada no tratamento. Os integrantes de cada segmento foram escolhidos de forma aleatória, e inicialmente nem os pesquisadores nem os voluntários sabiam de qual grupo se tratava. Isso é utilizado na ciência para melhor identificar a relação entre as variáveis que influenciam o resultado de um estudo.

O texto publicado no blog Quinina engana já no título ao destacar que o “estudo da USP confirma eficácia da hidroxicloroquina” no tratamento da Covid-19. De acordo com o médico e professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Paulo Louzada Junior, um dos autores do artigo, é errado dizer que foi avaliada a eficácia da hidroxicloroquina, da azitromicina ou da heparina. Isso porque todos os participantes receberam a droga, uma vez que já faziam parte do então tratamento padrão no hospital.

Sem um grupo de controle, isto é, um grupo que recebeu o placebo em vez da droga, não é possível comparar a diferença e o impacto da hidroxicloroquina no tratamento. “O que pode ser dito, e de fato é dito no artigo, é que não houve evento adverso grave (arritmia, por exemplo) pelo uso combinado dessas medicações”, falou Louzada Junior ao Comprova.

Ele revelou que o estudo teve início em abril deste ano. Atualmente, a hidroxicloroquina não é mais empregada no protocolo da instituição para o tratamento de pacientes internados com Covid-19. “Se este ensaio clínico tivesse iniciado hoje, não contaria a hidroxicloroquina no tratamento padrão institucional, que consiste de corticoides e heparina”, garantiu o médico.

Louzada reforçou que o resultado da pesquisa tem relação apenas com a colchicina: “A conclusão final do estudo foi que a adição da colchicina ao tratamento padrão da Covid-19 levou à redução do tempo de uso de oxigênio suplementar, bem como redução do tempo de internação”.

O pesquisador complementou que não é possível compreender um ensaio clínico, com suas limitações e importância, somente pela leitura do resumo. E sugeriu “a leitura completa do texto, antes da divulgação inapropriada dos seus resultados”.

Verificação

O Comprova, em sua terceira fase, verifica conteúdos relacionados a políticas públicas e à pandemia do novo coronavírus que viralizaram nas redes sociais. Este texto do site Quinina foi compartilhado 385 vezes no Facebook. Também foi postado no Twitter pelo procurador da República Ailton Benedito, ampliando o seu alcance. No caso da Covid-19, mentiras e boatos que se espalham pelas redes sociais são ainda mais perigosos porque podem custar vidas.

Falso, para o Comprova, é todo o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

A investigação desse conteúdo foi feita por Estadão e GaúchaZH e publicada na terça-feira (18) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por Folha, UOL, Jornal do Commercio, Nexo, SBT e BandNews.

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