Descrição de chapéu Coronavírus

Pandemia já chegou a metade das aldeias dos paiter-suruís

Enquanto cobra medidas urgentes do governo federal, povo indígena organiza campanha de ajuda

Manaus

O povo indígena paiter-suruí denuncia a omissão do governo federal frente ao avanço da pandemia de Covid-19 na Terra Indígena (TI) 7 de Setembro, em Rondônia, onde vivem cerca de 1.800 indígenas.

Nesta quinta (13) os doentes confirmados na TI chegaram a 50, mas há dezenas de casos suspeitos. Oficialmente, há casos confirmados em cinco aldeias: PIN Paiter e Joaquim (que têm os maiores números de infectados), Gapgir, Amaral e Lapetanha.

Mas, de acordo com a liderança indígena Celso Lamitxab Suruí, da aldeia Lapetanha, há casos suspeitos em pelo menos metade das 28 aldeias da TI Sete de Setembro.

“Em pouco mais de 15 dias a pandemia chegou ao nosso território e se espalhou por metade das aldeias dos suruís. A cada dia temos três ou quatro casos novos. Ontem (12) recebi ligações das aldeias Central e Tikan, informando que a pandemia chegou lá. Estão todos doentes, nas redes, precisando de médicos e testes”, relatou Celso,

Na aldeia Lapetanha, onde ele mora, vivem 90 indígenas, e 5 tiveram resultado positivo para Covid-19, inclusive o próprio Celso, que realizou o teste na última quarta-feira (12).

Entre os casos confirmados de Covid-19, quatro estão com quadro de saúde grave, e três estão internados no Hospital Regional de Cacoal. Segundo Celso Suruí, os três estão intubados e seu estado inspira cuidados.

Um deles, Renato Suruí, de 43 anos, precisou aguardar dois dias por uma vaga na UTI do hospital, segundo Celso. Ele cobra uma estrutura melhor de assistência à saúde nas próprias aldeias, para evitar o deslocamento dos indígenas à cidade, e a criação de leitos de UTI nos hospitais da região.

“Ele [Renato] já tinha sido transferido para o Hospital Regional de Cacoal, depois de passar mal na aldeia. No hospital, ele agravou na segunda-feira e precisou de um leito de UTI, mas só na madrugada de hoje (13) conseguiram uma vaga para ele”, relatou.

Contudo é a situação dos anciãos que mais preocupa o povo suruí, que teme perder suas lideranças, como está ocorrendo com outros povos indígenas atingidos pela pandemia.

Um deles é Perpera Suruí, 75, um ex-pajé dos paiter-suruís que “perdeu a função” após o povo dele ser evangelizado, na década de 1970.

Perpera inspirou o documentário "Ex-Pajé", de Luiz Bolognesi, que mostra como a maior entidade indígena perdeu sua função milenar e foi marginalizada após a aldeia Lapetanha se converter à crença evangélica.

Segundo Celso Suruí, ele Perpera recebeu o diagnóstico no início da semana e, na noite de quarta (12), o quadro dele se agravou. No entanto ele segue sendo assistido na própria aldeia, por opção dos indígenas, que não confiam no tratamento prestado no Hospital Regional de Cacoal.

Cena do filme 'Ex-Pajé'; seu protagonista, Perpera Suruí, ex-pajé de sua aldeia, está com coronavírus; vemos um homem com o cabelo cortado à moda indígena, porém com camisa branca, calça e gravata pretas, andando na floresta
Cena do filme 'Ex-Pajé'; seu protagonista, Perpera Suruí, ex-pajé de sua aldeia, está com coronavírus - Divulgação

“Não deixamos ele ir pro hospital, pois todos nossos parentes que foram para lá reclamam que são mal tratados e não conseguem leito de UTI. O Perpera está aqui na comunidade, com suporte de um cilindro de oxigênio e de uma enfermeira do Dsei [Distrito Sanitário Especial Indígena, no caso, Dsei Vilhena]”.

Outro ancião com Covid-19 é o cacique da aldeia Amaral, Iabibi Suruí, de 75 anos, que foi internado no Hospital de Cacoal na última segunda (10), também em estado grave.

Em toda a Amazônia brasileira havia, até a última segunda (10), 17.498 casos confirmados e 564 mortes por Covid-19 entre indígenas de 123 povos, segundo o boletim da Coordenação dos Povos Indígenas Brasileiros (Coiab).

Rondônia concentra 682 casos e 15 mortes. O estado com o maior número de casos e de mortes é o Amazonas, que também tem a maior população indígena do país: eram 3.950 casos confirmados e 186 óbitos até a última segunda.

Liderança cobra medidas urgentes

O líder do povo indígena Suruí, Almir Narayamoga Suruí, cobrou do governo federal a adoção de medidas urgentes para conter o avanço da pandemia na TI Sete de Setembro e evitar mortes entre a população do grupo.

“Apesar da grave situação do povo suruí, medidas urgentes ainda não foram tomadas para conter o vírus dentro das comunidades, e os indígenas em estado grave que correm risco de morte ainda não foram transferidos para a UTI por falta de leitos”, denuncia Almir Suruí.

O líder do povo suruí cobra a instalação de um hospital de campanha com UTI para atender os povos indígenas de Rondônia e Mato Grosso, a contratação de mais profissionais de saúde e aquisição de equipamentos e medicamentos necessários para atender casos de Covid-19, além da realização de testes em todos os indígenas que apresentem sintomas e da criação de um “comitê de diálogo”, composto por representantes dos povos indígenas, de ONGs e profissionais de saúde.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, os suruís informam que decidiram pelo isolamento voluntário e lembram que a medida visa evitar mortes em massa, como aconteceu após o primeiro contato com os não indígenas, em 1969, quando a população dos suruís foi atingida por uma epidemia de sarampo e caiu de 5.000 para pouco mais de 200 pessoas.

A reportagem entrou em contato com a Fundação Nacional do Índio (Funai), que respondeu que a responsabilidade pelas ações de saúde indígena são exclusivamente da Secretaria Estadual de Saúde Indígena (Sesai).

Campanha

Enquanto a assistência do governo federal não chega, os próprios indígenas decidiram se organizar para promover uma campanha de arrecadação de donativos e recursos, que serão usados para a compra de itens de primeira necessidade, medicamentos, máscaras e álcool em gel, que serão distribuídos nas aldeias.

“Qualquer ajuda será bem vinda para ajudar o meu povo, que está necessidado, em isolamento, com medo de se contaminar com o coronavirus”, disse o cacique da aldeia Lapetanha, Mopiry Suruí, que cobrou de governantes uma retribuição aos serviços prestados pelos indígenas, de proteção da floresta.

“Digo a todos, chefes de estado, políticos com mandato: por causa de nossa existência que ainda há essa floresta que vos alimenta e ainda mantém a temperatura estável no mundo. Essa é a nossa contribuição para o planeta. Agora queremos a retribuição de vocês”, disse o cacique Mopiry.

Quem quiser contribuir com a campanha pode entrar em contato por meio dos telefones (69) 99264-0738, (69) 99935-1002 e (69) 99342-0757.

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